Mendonça pede nulidade e leva caso Moraes ao plenário do STF

Mendonça solicita que o plenário do STF decida sobre a investigação envolvendo mensagens sigilosas da PF.
Redação NC News
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O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retira o sigilo de um relatório da Polícia Federal com 52 mensagens entre Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e põe o caso na rota do plenário da Corte, que poderá decidir sobre a abertura de uma investigação formal contra o colega.

A movimentação expõe um conflito aberto no topo do Judiciário, envolve suspeitas de conflito de interesses ligadas ao escândalo do Banco Master e força o STF a se posicionar, em público, sobre a conduta de um de seus ministros.

Relatório da PF expõe relação e contratos milionários

O relatório da PF foi produzido a partir da apreensão do celular de Vorcaro, preso em novembro do ano passado quando tentava deixar o país em um jato particular, e reúne 52 mensagens enviadas por ele a Moraes nos dias que antecedem sua prisão e a liquidação do Banco Master, alvo de apurações sobre fraudes bilionárias.

Nas conversas, Vorcaro pede ajuda para adiar decisões que poderiam quebrar o banco e demonstra saber de detalhes de investigações sigilosas sobre a venda de carteiras de crédito fraudulentas ao Banco de Brasília (BRB). Em uma das mensagens, escrita a poucos dias da prisão, ele afirma que, se determinadas medidas forem atrasadas “pra outra semana”, “o banco não quebra”.

O relatório detalha ainda um contrato de cerca de R$ 130 milhões firmado pelo ex-banqueiro com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Investigadores veem nesse vínculo um possível conflito de interesses, já que o Supremo acompanha desdobramentos do caso Master e discute temas sensíveis para o setor financeiro.

Os documentos citam o nome do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, mencionados por Vorcaro nas mensagens. Não há registro de respostas de Moraes, o que reforça a necessidade de esclarecimentos formais sobre o teor e o contexto desses contatos.

Mendonça rompe sigilo e cobra decisão pública

Responsável no STF pelas investigações do escândalo do Banco Master, Mendonça decide desentranhar o relatório da PF dos autos originais e tornar o conteúdo público. Para ele, o material indica a necessidade de um procedimento próprio, voltado especificamente às menções a Moraes.

“Após a análise preliminar das novas informações apresentadas, considerando que seriam aptas a ensejar a adoção de modalidade procedimental própria, ante a necessária observância à regra contida no art. 5º, I, do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, determinei o seu desentranhamento dos autos originários”, escreve o ministro em despacho.

No mesmo ato, ele abre prazo de cinco dias para manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR) e deixa claro que a palavra final caberá ao plenário, independentemente da posição do Ministério Público. “Diante do teor das informações apresentadas pela autoridade policial, independentemente de qual venha a ser a manifestação exarada pela douta Procuradoria-Geral da República, o caminho inevitável dos presentes autos leva ao Plenário deste Supremo Tribunal Federal, instância soberana para analisar, de modo técnico e estritamente jurídico, os novos elementos trazidos pela autoridade policial”, afirma.

A referência ao artigo 5º do regimento não é casual. O dispositivo reserva ao plenário o julgamento de crimes comuns atribuídos a autoridades como o presidente da República, o vice, presidentes da Câmara e do Senado, ministros do próprio STF e o procurador-geral da República. Ao acionar essa regra, Mendonça sinaliza que vê nas mensagens elementos que precisam ser examinados como possível ilícito penal, não apenas como questão ética ou administrativa.

PGR reage e pede nulidade de relatório da PF

A decisão de Mendonça provoca reação imediata na cúpula do Ministério Público. Em manifestação divulgada nesta noite, o procurador-geral Paulo Gonet pede a nulidade do relatório da PF e sustenta que o ministro extrapola suas funções ao orientar a polícia a aprofundar apurações sobre um colega de Corte sem provocação da PGR ou da própria PF.

“Ao juiz não cabe acusar, menos ainda ao juiz cabe realizar investigações pré-processuais”, afirma Gonet. Para ele, o modelo constitucional de persecução penal exige que a polícia judiciária conduza as investigações e que o Ministério Público, titular da ação penal, peça as diligências cabíveis.

No parecer, o procurador-geral escreve que, se até a polícia precisa interromper suas apurações quando surge menção a autoridades com foro no STF, com mais razão um relator não pode determinar o escrutínio de um colega. “Se a autoridade policial deve interromper as suas investigações para que sobre elas delibere o órgão do Judiciário encarregado do julgamento, com maioria de razão não deve o relator admitir e nem determinar que um Colega da Corte seja escrutinado”, diz.

Gonet reforça que “o relator nem sequer detém competência para dirigir as ações policiais contra alvos que resolva mirar” e insiste em que cabe exclusivamente ao plenário deliberar sobre qualquer investigação envolvendo ministros do STF. Na prática, ele tenta anular a principal peça que sustenta o movimento de Mendonça.

Tensão no plenário e papel de Fachin no próximo passo

A disputa jurídica se mistura a um clima de forte tensão interna. Na sessão desta terça-feira, Moraes e Mendonça discutem nos bastidores, após o primeiro ser informado sobre a decisão do colega. Surpreso com o desentranhamento do relatório e a retirada do sigilo, Moraes reage com irritação e acusa Mendonça de mirá-lo deliberadamente.

O episódio expõe um racha raro de forma tão explícita. Ao abrir o conteúdo das mensagens e defender uma deliberação “de forma pública e transparente”, Mendonça atende a pressões por mais luz sobre o escândalo do Banco Master, mas também coloca o STF sob holofotes num momento em que a credibilidade das instituições é testada.

Cabe agora ao presidente do Supremo, Edson Fachin, marcar a data em que o plenário vai analisar o caso. A sessão deve ocorrer em ambiente de intensa pressão política e midiática. Os 11 ministros terão de decidir se autorizam a abertura de um inquérito contra Moraes, com potencial para um processo criminal, ou se arquivam o episódio.

Qualquer que seja o resultado, o julgamento tende a marcar a relação entre o STF e a sociedade. Uma investigação pode reforçar a mensagem de que nem ministros estão acima de escrutínio, mas também aprofundar divisões internas e alimentar ataques políticos à Corte. Um arquivamento, por outro lado, corre o risco de ser lido como autodefesa corporativa, o que pode ampliar a desconfiança em torno do tribunal.

Enquanto o Supremo se prepara para decidir o destino do caso, as investigações sobre o Banco Master seguem em curso e mantêm sob pressão o setor financeiro, o Banco Central e os órgãos de controle. A forma como o STF enfrentará as suspeitas de conflito de interesses em seu próprio quintal tende a influenciar não só os próximos passos do inquérito, mas também o padrão de tolerância do país com a promiscuidade entre poder econômico e poder institucional.

O que aconteceu na discussão entre André Mendonça e Alexandre de Moraes no STF?

A discussão entre André Mendonça e Alexandre de Moraes ocorre hoje nos bastidores do STF, quando Moraes é informado de que Mendonça retirou o sigilo do relatório da PF e levará o caso ao plenário, e reage irritado, acusando o colega de mirá-lo de propósito ao desmembrar e expor o material.

Por que André Mendonça retirou o sigilo das mensagens envolvendo Vorcaro e Moraes?

André Mendonça retira o sigilo porque considera que as 52 mensagens entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes, somadas ao contrato de cerca de R$ 130 milhões com o escritório da esposa do ministro, são fortes o bastante para exigir um procedimento próprio e uma decisão do plenário em ambiente público e transparente.

Qual é o papel de André Mendonça no caso Vorcaro no STF?

André Mendonça atua como relator no STF das investigações ligadas ao escândalo do Banco Master, que envolve Daniel Vorcaro, e agora assume a condução inicial do episódio das mensagens, desentranhando o relatório da PF, retirando o sigilo, acionando a PGR e encaminhando o caso ao plenário para possível abertura de investigação sobre Moraes.

Como André Mendonça pretende levar o relatório contra Alexandre de Moraes ao plenário do STF?

André Mendonça encaminha o relatório da PF à Procuradoria-Geral da República, concede prazo de cinco dias para manifestação e, com base no artigo 5º, I, do regimento do STF, já afirma que o “caminho inevitável” é a análise pelo plenário, cabendo ao presidente Edson Fachin marcar a sessão que decidirá sobre a investigação.

Quem indicou André Mendonça para o STF?

André Mendonça é indicado ao Supremo Tribunal Federal pelo então presidente da República, em processo previsto na Constituição que envolve escolha pelo Executivo e sabatina no Senado, e chega à Corte com perfil associado a carreiras na Advocacia-Geral da União e no Ministério da Justiça antes de assumir a cadeira de ministro.

Qual foi a reação de Alexandre de Moraes à decisão de André Mendonça sobre o caso Vorcaro?

Alexandre de Moraes reage com forte irritação à decisão de André Mendonça de expor o relatório da PF e encaminhar o caso ao plenário, sente-se surpreendido pela iniciativa do colega e, em conversa tensa no Supremo, acusa Mendonça de mirá-lo de forma deliberada ao autorizar o aprofundamento das apurações sem aviso prévio.


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