Mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, entregues aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), colocam mais um integrante do entorno da Corte no centro das revelações envolvendo o Banco Master. Em conversas com Luiz Rennó, então diretor jurídico da instituição, aparece o nome do advogado Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro Kassio Nunes Marques, acompanhado de uma referência a pagamentos de R$ 500 mil por mês.
Os diálogos não comprovam, isoladamente, que o valor tenha sido efetivamente pago a Kevin, nem estabelecem que o ministro Nunes Marques tenha participado de qualquer irregularidade. O advogado nega ter prestado serviços ao Banco Master ou recebido dinheiro de Daniel Vorcaro. O ministro também afirma que o filho nunca trabalhou para o banco.
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A mensagem dos R$ 500 mil
Uma das conversas ocorreu em 4 de julho de 2025. Luiz Rennó encaminhou a Vorcaro um arquivo contendo o nome de Kevin Marques e um número de telefone. Na sequência, escreveu:
“Esse aqui — 500 mil mês — mantém?”
Logo depois, o executivo acrescentou uma mensagem em tom de brincadeira:
“Esse aqui já era, né?”
Vorcaro respondeu com risadas.
Um mês depois, em 8 de agosto de 2025, Rennó voltou a encaminhar o mesmo contato. Em outra sequência, escreveu que, entre os pagamentos considerados essenciais, faltava a Consult e acrescentou:
“Esse aí. Único ‘meu’ que faltou”.
A documentação mostra, portanto, que o nome de Kevin apareceu associado a uma estrutura de pagamentos discutida internamente por integrantes do Banco Master. O material, porém, não demonstra que os R$ 500 mil tenham sido efetivamente transferidos para o advogado.
O elo com a Consult
Kevin Marques, de 25 anos, atua como advogado e recebeu R$ 281,6 mil da Consult Inteligência Tributária, empresa que, segundo os dados divulgados no caso, recebeu aproximadamente R$ 6,6 milhões do Banco Master.
A defesa do advogado afirma que os valores recebidos por ele foram referentes a serviços jurídicos especializados na área tributária administrativa e que sua atuação não teve qualquer relação com o Supremo Tribunal Federal.
Em nota, Kevin afirmou que não prestou serviços ao Banco Master e não recebeu dinheiro de Vorcaro. A explicação apresentada é de que sua relação profissional ocorreu exclusivamente com a Consult.
A empresa passou a chamar atenção justamente porque aparece nas mensagens relacionadas aos pagamentos. Segundo informações divulgadas a partir das investigações, os repasses do Master à Consult ocorreram durante o período em que Kevin também recebeu valores da companhia.
A existência dessa relação financeira, contudo, não permite concluir automaticamente que os recursos recebidos pelo advogado tenham origem no Banco Master. Essa é uma das questões que podem ser examinadas pelas autoridades a partir dos documentos apreendidos.
O caso da Destilaria Alcídia
As mensagens ganham maior relevância porque o nome de Kevin aparece em um conjunto de conversas que também trata de uma decisão do STF envolvendo a Destilaria Alcídia, de Teodoro Sampaio, no interior de São Paulo.
O julgamento tinha grande importância econômica para o Banco Master. A instituição mantinha em seu balanço uma carteira estimada em cerca de R$ 10 bilhões em precatórios relacionados ao setor sucroalcooleiro, cujo valor estava ligado ao reconhecimento das indenizações discutidas judicialmente.
Em outubro de 2024, os ministros Edson Fachin, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques votaram favoravelmente à tese da destilaria. Gilmar Mendes e André Mendonça ficaram vencidos.
Nunes Marques havia inicialmente registrado impedimento, mas posteriormente reviu a posição e participou do julgamento. A assessoria do ministro afirma que ele não estava impedido tecnicamente, pois havia analisado anteriormente uma questão relacionada ao tema quando atuava no TRF-1.
O gabinete também sustenta que a decisão não tratava especificamente do Banco Master, mas de uma tese de alcance mais amplo para empresas do setor.
Nas conversas de Vorcaro, a decisão aparece acompanhada de comentários de executivos do banco sobre o resultado. Em uma delas, Rennó informa ao banqueiro que haviam “ganhado Alcídia”.
É justamente essa proximidade entre as conversas sobre pagamentos, o nome do filho do ministro e um julgamento de grande impacto financeiro para o Master que colocou o conteúdo sob escrutínio.
Isso, entretanto, não significa que exista prova de que o voto do ministro tenha sido comprado ou influenciado pelos negócios do filho. Até o momento, as mensagens divulgadas não demonstram essa relação.
Ministro nega vínculo do filho com o Master
Kassio Nunes Marques afirmou que seu filho nunca trabalhou para o Banco Master e não recebeu qualquer valor da instituição. O ministro também declarou não ter tido acesso ao conjunto completo das mensagens extraídas do celular de Vorcaro.
A assessoria de Kevin Marques apresentou a mesma linha de defesa e negou qualquer relação profissional com Vorcaro ou com o Banco Master.
Sobre o julgamento da Destilaria Alcídia, a defesa do ministro afirma que a decisão não era específica para o Master e que Nunes Marques já havia adotado entendimento semelhante quando atuava no TRF-1.
O ministro também sustenta que nunca votou a favor do Banco Master e que seu filho nunca recebeu dinheiro diretamente de Daniel Vorcaro.
Outro episódio envolvendo Nunes Marques
As novas mensagens aparecem em um contexto no qual o nome de Nunes Marques já havia sido relacionado ao círculo de Vorcaro.
Conversas encontradas no celular do banqueiro também tratam de uma viagem realizada em novembro de 2025 em um jatinho particular. O voo saiu de Brasília com destino a Maceió e estava relacionado à festa de aniversário da advogada Camilla Ewerton Ramos, que atua em processos ligados ao Banco Master.
Nunes Marques e a esposa estavam entre os passageiros. O próprio gabinete do ministro confirmou a viagem e afirmou que a advogada ficou responsável pela aeronave e pelos detalhes do deslocamento.
Segundo as informações divulgadas sobre o caso, o avião era operado pela Prime Aviation, empresa ligada à Prime You, que teve Vorcaro como sócio até setembro de 2025.
O episódio passou a integrar o conjunto de relações entre pessoas próximas ao banqueiro e integrantes ou familiares de ministros do STF.
Revelações surgem antes de decisão sobre Moraes
A divulgação dos diálogos ocorre em um momento especialmente sensível para o Supremo.
Nesta terça-feira (15), a Corte analisa se deve abrir uma investigação contra o ministro Alexandre de Moraes a partir de informações produzidas pela Polícia Federal sobre sua relação com Daniel Vorcaro.
O relatório da PF reúne centenas de interações atribuídas ao ministro e ao banqueiro. A discussão provocou forte divisão dentro do tribunal e também levantou questionamentos sobre a validade do procedimento conduzido pelo ministro André Mendonça.
As novas mensagens envolvendo Kevin Marques, o filho do ministro Luiz Fux e um advogado ligado a André Mendonça aumentam a pressão sobre a Corte porque mostram que Vorcaro mantinha contatos ou buscava aproximação com pessoas próximas a diferentes integrantes do STF.
No caso de Kevin, porém, há uma diferença importante: o conteúdo divulgado apresenta uma menção a um possível pagamento feita por um executivo do Master, mas não comprova que o dinheiro tenha sido efetivamente recebido pelo advogado.
Esse cuidado é essencial para separar o que está documentado nas mensagens das conclusões que ainda dependeriam de investigação.
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Entenda O Contexto
O caso Banco Master colocou Daniel Vorcaro no centro de uma investigação que passou a alcançar empresários, políticos, advogados e integrantes do Judiciário. O material extraído de seu celular revelou uma extensa rede de contatos e conversas mantidas pelo banqueiro antes da liquidação da instituição.
As mensagens envolvendo Kevin Marques são especialmente sensíveis porque associam o nome do filho de um ministro do STF a uma referência de R$ 500 mil mensais feita por um diretor jurídico do banco. Ao mesmo tempo, Kevin recebeu R$ 281,6 mil da Consult Inteligência Tributária, empresa que também recebeu milhões de reais do Banco Master. O advogado afirma que os pagamentos foram decorrentes de serviços jurídicos legítimos e que não tiveram qualquer relação com o banco ou com o STF.
O conteúdo também chama atenção porque as conversas fazem referência ao julgamento da Destilaria Alcídia, processo de grande impacto econômico para o setor de precatórios no qual Kassio Nunes Marques votou a favor da tese após inicialmente registrar impedimento. A defesa do ministro afirma que a decisão não era específica para o Master e que não houve qualquer favorecimento à instituição.
Até o momento, as mensagens não comprovam pagamento de R$ 500 mil a Kevin Marques, nem demonstram que Kassio Nunes Marques tenha recebido vantagem ou interferido em uma decisão judicial. O que existe é um conjunto de registros que associa o nome do advogado a uma discussão interna sobre pagamentos e que agora deverá ser analisado no contexto mais amplo das investigações sobre as relações de Vorcaro com pessoas próximas ao STF.
A revelação ocorre justamente quando a Corte enfrenta uma das sessões mais delicadas do caso Master, com os ministros tendo de decidir os próximos passos em relação às suspeitas envolvendo Alexandre de Moraes. A sucessão de mensagens envolvendo diferentes integrantes da Corte aumenta a pressão por esclarecimentos e coloca em primeiro plano a necessidade de separar relações pessoais, contratos profissionais, pagamentos efetivamente comprovados e eventuais atos de influência, sem transformar suspeitas ainda não comprovadas em conclusões definitivas.
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