A seleção brasileira de voleibol masculino vive sete meses dispersa em clubes pelo mundo, mas mantém rotina de equipe unida. Comando de Bernardinho, comissão e jogadores planejam o Pré-Olímpico e o ciclo até os Jogos de Los Angeles 2028 quase em tempo real, à distância.
Enquanto o time briga pela vaga olímpica no Maracanãzinho, a engrenagem que sustenta o desempenho passa por aplicativos de mensagem, plataformas de monitoramento físico e viagens-relâmpago da comissão técnica à Europa. A meta é simples e ambiciosa: todos precisam chegar falando a mesma língua tática e física, independentemente do clube em que atuam.
Seleção em rede: consultas, dados e visitas à Europa
O auxiliar técnico Rubinho descreve o trabalho como uma operação em nuvem. Nada de contato apenas protocolar. Médicos, preparadores físicos e nutricionistas acompanham os jogadores diariamente, mesmo quando eles estão em ligas da Itália, da Romênia, da Polônia ou do Japão.
“Existe sempre reuniões, todo mundo em contato e quando os meninos estão fora, a gente busca se organizar pra fazer alguns acompanhamentos dentro da rotina de cada um”, afirma Rubinho, hoje responsável por grande parte da ponte com os clubes europeus.
Ele conta que já cruzou a Itália para ver atletas que tinham acabado a temporada local, enquanto o auxiliar Marcelo, baseado na Romênia, aproveita a proximidade para encontros presenciais. Ao menos dois contatos cara a cara com os principais nomes da seleção se repetem durante a temporada de clubes, que dura cerca de sete meses.
Nessas viagens, a comissão não fala apenas com os brasileiros. O grupo senta com técnicos, preparadores e dirigentes dos clubes estrangeiros, numa espécie de diplomacia esportiva que tenta conciliar agendas. A seleção precisa de informação sobre carga de treino, lesões e minutagem; os clubes querem garantia de que não perderão seus jogadores para lesões em datas internacionais.
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Memes, táticas e um mesmo idioma em quadra
Do lado dos atletas, a rotina virtual sustenta algo menos mensurável: a química. Pontas, centrais, líberos e levantadores mantêm grupos de mensagem ativos, onde cabem tanto vídeos de treino quanto piadas internas. O ponteiro Lukas Bergmann admite que a resenha corre solta, e que até saques errados viram motivo de meme.
Na Itália, o levantador Fernando Cachopa, Bergmann e o central Judson aproveitam a curta distância entre cidades para encontros frequentes fora de quadra. Pequenos jantares e cafés ajudam a manter vivo um clima de seleção mesmo em plena temporada de clubes.
Quando o calendário permite, todos se reencontram no Brasil, como agora no Pré-Olímpico no Maracanãzinho. Cada um chega em um estágio diferente: alguns vêm de finais exaustivas, outros de semanas de descanso forçado. O desafio da comissão é equalizar ritmos em poucos treinos.
“É sempre um trabalho difícil no início da temporada, todo mundo em situações diferentes”, admite Judson. Para o central, não há atalho: “O treinamento é o que faz isso dar certo. Quando você treina bem e se comunica bem, você faz esses desencontros se juntarem e fazer o jogo acontecer”.
Intercâmbio de estilos como arma tática
Metade do grupo atua no voleibol nacional; o restante se espalha por Europa e Ásia. O ponteiro Lucarelli, que recentemente jogou no Japão e hoje está de volta ao Minas, enxerga na mistura uma vantagem competitiva para a seleção brasileira de voleibol masculino hoje.
“Eu acho que é muito importante essa troca porque vim do Japão, outros vieram da Europa, Itália, Polônia, outros de outros pontos do Brasil, então acho que é uma troca de experiência também, até porque o voleibol acaba atualizando e mudando bastante”, diz o ponteiro.
Ele destaca que a comissão técnica, com auxiliares que também trabalham em clubes franceses, amplia ainda mais o repertório. “Vamos juntando as ideias pro objetivo que é a seleção. Acho que isso é muito legal, ter esse mix de experiências, a comissão da França, então acho que é uma mistura muito boa e isso só tem a agregar pra gente”, afirma.
Na prática, o intercâmbio rende ajustes de sistema de bloqueio, variações de saque, leitura de jogo e nuances de defesa. Um oposto de 2,04m como Bryan, por exemplo, treina em clubes com propostas táticas distintas e leva esse repertório para o trabalho com Bernardinho.
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Ganhos, tensões e próxima etapa rumo a Los Angeles 2028
A engrenagem híbrida da seleção, que combina monitoramento remoto e visitas presenciais, mexe diretamente com áreas como preparação física, medicina esportiva e análise de desempenho. A comissão coleta dados de sono, carga de treino, nutrição e estresse, cruza tudo com vídeos de jogos e devolve orientações individualizadas.
Os jogadores se beneficiam de acompanhamento constante, o que reduz risco de lesão e ajuda a administrar uma temporada longa. Clubes estrangeiros, porém, precisam negociar espaço na agenda para exames, reuniões e eventuais ajustes de carga. Nem sempre é simples conciliar as prioridades da seleção com a urgência por resultados nos campeonatos locais.
O modelo aproxima a seleção brasileira de voleibol masculino do padrão de controle dos grandes clubes europeus e japoneses, sem romper com eles. A ideia é criar uma rede de confiança: os clubes informam o que acontece no dia a dia, a seleção devolve conhecimento e cuidado de longo prazo com o atleta.
O Pré-Olímpico no Maracanãzinho funciona como teste decisivo dessa engrenagem. Caso conquiste a vaga antecipada para Los Angeles 2028, Bernardinho ganha tempo para planejar o restante do ciclo com menos sobressaltos e mais espaço para lapidar jovens nomes como Bryan, Bergmann e Judson ao lado de veteranos como Lucarelli.
Nos próximos meses, a seleção projeta manter o acompanhamento em nuvem e intensificar períodos de treino presencial em janelas do calendário internacional. Se a fórmula funcionar, o modelo pode virar referência para outras modalidades brasileiras em que os principais atletas também se espalham pelo mundo, do basquete ao handebol.
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