Mensagens mostram alertas ignorados por ex-dirigentes do BRB em negócios com o Banco Master, aponta PF

Conversas analisadas pela Polícia Federal indicam pressão para acelerar operações mesmo diante de questionamentos sobre documentos, riscos e lastro das carteiras de crédito
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Mensagens analisadas pela Polícia Federal (PF) mostram que antigos dirigentes do Banco de Brasília (BRB) continuaram avançando em operações com o Banco Master mesmo após o surgimento de alertas, pendências documentais e questionamentos internos sobre os negócios.

Os diálogos, que integram o material reunido na investigação, envolvem o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, o ex-diretor de Finanças e Controladoria Dario Oswaldo Garcia Junior e o advogado Fabiano Barbosa, contratado para prestar consultoria jurídica relacionada às operações.

O caso envolve negociações realizadas principalmente entre 2024 e 2025 e está no centro de uma investigação que apura possíveis irregularidades em operações bilionárias entre as duas instituições. Segundo relatório da PF, o BRB transferiu cerca de R$17 bilhões ao Master pela aquisição de carteiras de crédito. Desse montante, aproximadamente R$12,2 bilhões são apontados pelos investigadores como créditos sem valor.

VEJA TAMBÉM:

PF encontrou coworking vazio ao buscar empresa ligada a R$ 12 bilhões pagos pelo BRB

Entenda o que aconteceu

Segundo o relatório da PF, as mensagens trocadas entre julho e novembro de 2025 revelam que integrantes da cúpula do BRB tinham conhecimento de dificuldades relacionadas às operações com o Master.

Os investigadores apontam que os diálogos mencionam repetidamente a possibilidade de problemas financeiros no Banco Master, enquanto, paralelamente, dirigentes do BRB pressionavam pela conclusão de documentos e pela continuidade dos negócios.

A PF afirma que havia sinais de risco financeiro, prudencial e reputacional relacionados ao Master que já estavam disponíveis dentro do ambiente de informações do BRB. Mesmo assim, segundo os investigadores, as operações continuaram.

Ex-presidente cobrou assinatura de documentos

Uma das conversas analisadas pela investigação ocorreu em julho de 2025 e envolve Paulo Henrique Costa e Dario Garcia. Na troca de mensagens, o então presidente do BRB cobra rapidez para concluir documentos relacionados às negociações.

“Dario, precisamos assinar tudo o que pudermos. Acredito que de hoje não passará.”

De acordo com a interpretação apresentada pela PF, a pressa teria ocorrido em um contexto no qual Paulo Henrique Costa acreditava que o Banco Master poderia quebrar.

A conclusão sobre a intenção por trás da conversa, contudo, faz parte da análise dos investigadores e ainda está inserida no contexto de uma apuração criminal.

As mensagens são utilizadas pela PF como parte do conjunto de elementos que indicariam a existência de problemas documentais e dificuldades na obtenção de informações consideradas necessárias para as operações.

PF aponta conduta temerária

No relatório, a Polícia Federal afirma que os dirigentes do BRB deram continuidade à compra de carteiras mesmo diante de alertas e problemas identificados durante o processo.

Segundo os investigadores, documentos considerados irregulares, atrasos e ausência de comprovação adequada dos créditos não impediram a continuidade das negociações.

A PF classificou a atuação atribuída aos antigos dirigentes como “conduta temerária” e afirmou que, em diferentes momentos, teriam sido realizados ajustes contábeis para atender às demandas do Banco Master.

A investigação também aponta falhas de governança e problemas relacionados à comprovação dos ativos negociados.

LEIA TAMBÉM:

Juiz autorizou PF a procurar paredes ocas e falsos armários durante buscas no BRB

 

Operações envolveram bilhões de reais

A dimensão financeira das operações é um dos principais pontos da investigação.

Segundo relatório da PF, cerca de R$17 bilhões foram transferidos pelo BRB ao Banco Master no âmbito da aquisição de carteiras de crédito. Os investigadores apontam que aproximadamente R$12,2 bilhões desses ativos não tinham valor, segundo a análise incorporada ao inquérito.

Os números ajudam a explicar a dimensão do impacto investigado e as consequências para o BRB, que passou a enfrentar uma crise relacionada às operações realizadas com o Master.

A PF ainda busca esclarecer como os ativos foram apresentados, quem participou das decisões e em que momento os dirigentes tiveram conhecimento das inconsistências apontadas posteriormente.

PF investiga falhas na governança

Os investigadores também analisaram as decisões tomadas dentro do BRB e a atuação dos integrantes da diretoria envolvidos nas operações.

Segundo material citado na investigação, havia sinais considerados relevantes sobre a situação do Banco Master, mas eles não teriam sido adequadamente considerados no processo decisório.

A PF também identificou participação de integrantes da diretoria colegiada em decisões relacionadas à continuidade das operações, novas aquisições, flexibilização de alertas de risco e complementação posterior de documentos.

O relatório busca, dessa forma, estabelecer como as decisões foram tomadas e quais informações estavam disponíveis aos responsáveis em cada etapa.

Paulo Henrique Costa foi preso durante investigação

A investigação também alcançou diretamente Paulo Henrique Costa. O ex-presidente do BRB foi preso em uma das fases da Operação Compliance Zero, que apura as relações entre o banco e o Banco Master.

A PF sustenta que ele teria permitido operações com o Master mesmo diante de problemas relacionados aos ativos e aos procedimentos de governança.

A prisão e as acusações, porém, não representam uma condenação. As responsabilidades individuais ainda são objeto de investigação e de análise judicial.

Defesa nega irregularidades

A defesa de Paulo Henrique Costa contesta as conclusões apresentadas pela Polícia Federal.

Em manifestação, os advogados afirmam que ele tomou providências assim que teve conhecimento de irregularidades envolvendo créditos que, segundo a defesa, teriam sido gerados fora do ambiente do Banco Master.

“Paulo Henrique Costa, tão logo tomou conhecimento de irregularidades — créditos gerados fora do ambiente Master —, interrompeu a aquisição de carteiras.”

A defesa também afirma que foram adotadas medidas para proteger o BRB, incluindo a exigência de garantias e a substituição de ativos. Segundo os advogados, R$ 10,5 bilhões dos R$ 12,2 bilhões citados na investigação teriam sido posteriormente substituídos por ativos considerados sólidos.

A defesa conclui que a Polícia Federal teria cometido erros na interpretação dos fatos. Os demais citados nas mensagens também são procurados para manifestação sobre as conclusões da investigação.

Entenda o contexto

As operações entre o BRB e o Banco Master estão sendo investigadas no âmbito da Operação Compliance Zero, que apura possíveis irregularidades na negociação de carteiras de crédito e na documentação utilizada para dar suporte aos ativos.

A investigação ganhou dimensão após a identificação de problemas relacionados a parte dos créditos adquiridos pelo BRB. Relatório da PF tornado público aponta que o banco transferiu aproximadamente R$17 bilhões ao Master e que cerca de R$12,2 bilhões dos ativos negociados são considerados sem valor pelos investigadores.

As mensagens agora analisadas pela PF são utilizadas para reconstruir a sequência das decisões e verificar quais informações estavam disponíveis aos dirigentes do BRB no momento em que as operações foram aprovadas ou mantidas.

O caso ainda está em investigação, e eventuais responsabilidades criminais dependem da conclusão das apurações e das decisões judiciais correspondentes.

AS MAIS LIDAS DO NC NEWS:

CNJ barra pagamento de R$ 4,7 bilhões ligado a negócios do Banco Master

Corpos de Rick e das outras quatro vítimas são liberados pelo IML, velório será em Sorocaba

Zanin nega liminar para obrigar Senado a instalar CPI do Banco Master

Carregar Comentários