O narrador Sérgio Maurício rompe em comum acordo seu contrato com a Band, enquanto o rádio baiano se despede de Nilton Nogueira e a CazéTV anuncia a chegada de Luciana Zogaib ao time de narradores. Os três movimentos, em sentidos opostos, evidenciam a transição da narração esportiva brasileira entre TV aberta, rádio e plataformas digitais.
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Band perde sua voz do automobilismo e mira reestruturação
Sérgio Maurício deixa a Band com o contrato ainda vigente até 2030, encerrando um ciclo de seis anos na emissora paulista. Ele chega à casa em meio ao projeto de retomada das corridas automobilísticas em TV aberta e, agora, sai justamente quando a programação esportiva do canal se esvazia.
A perda dos direitos da Fórmula 1, que devolve à concorrência a principal joia do portfólio da Band, corrói o espaço do narrador nas escalas. Nas últimas semanas, ele se limita a partidas do Campeonato Saudita, distante do protagonismo que exerce na cobertura de automobilismo por mais de três décadas.
Nos bastidores, interlocutores relatam que o narrador demonstra vontade de migrar para o mercado digital, com projetos autorais em estudo. A direção da emissora libera a rescisão sem disputa jurídica, em um gesto que confirma a reorientação da grade para formatos menos dependentes de grandes direitos esportivos.
A saída de um narrador com carreira televisiva iniciada em 1991, em canal fechado, simboliza o esgotamento de um modelo em que a TV aberta concentra as maiores propriedades esportivas. Em um ambiente em que ligas, clubes e influenciadores testam caminhos próprios de transmissão, vozes tradicionais como a de Sérgio Maurício passam a enxergar mais futuro fora do estúdio do que na cabine convencional.
Bahia se despede de “Nogueirinha”, voz de gerações no rádio
Enquanto a TV reorganiza seu elenco, o rádio baiano amanhece mais silencioso. Nilton Nogueira, o “Nogueirinha”, morre aos 92 anos, em Salvador, vítima de Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC). A notícia mobiliza colegas e entidades do setor, que reconhecem nele um dos alicerces da crônica esportiva local.
Nascido em 16 de agosto de 1934, ele inicia a carreira em 1957 e narra sua primeira partida de futebol em 1959, pela Rádio Cultura da Bahia. A partir daí, constrói trajetória que atravessa décadas, consolida bordões e ajuda a moldar a maneira como o torcedor baiano escuta o futebol no rádio.
Na Rádio Sociedade da Bahia, onde trabalha até 2016, Nogueirinha emplaca o bordão que o acompanha para sempre: “O clássico da Bahia que o Brasil consagrou”. O grito entra no imaginário popular, identifica transmissões e se torna marca registrada de um estilo que mistura emoção, sotaque forte e intimidade com o ouvinte.
Ele deixa esposa, oito filhos, 17 netos e 13 bisnetos, além de uma legião de torcedores que aprendem a acompanhar o futebol com o radinho encostado ao ouvido. O Sindicato dos Trabalhadores em Rádio, TV e Publicidade da Bahia o define como “a voz eterna da crônica esportiva baiana” em nota de pesar, síntese de uma biografia que confunde sua própria história com a do rádio esportivo do estado.
A Federação Bahiana de Futebol determina um minuto de silêncio em jogos do Campeonato Intermunicipal em sua homenagem. A decisão transforma o tributo em ritual público e reforça o elo entre arquibancada, rádio e memória coletiva. O luto por Nogueirinha reacende a discussão sobre preservação de acervos sonoros e registro de narradores que moldaram o jeito de torcer fora do eixo Rio-São Paulo.
Luciana Zogaib reforça CazéTV e amplia espaço feminino
No outro extremo desse tabuleiro, a CazéTV avança com um plano que mistura alcance digital e renovação de vozes. O canal liderado por Casimiro Miguel anuncia a contratação de Luciana Zogaib, narradora com trajetória consolidada em rádio e TV, como novo reforço para as transmissões esportivas no YouTube.
Ela retorna ao projeto depois de uma passagem anterior, em que narra partidas da Euro feminina, dos Jogos Olímpicos de Inverno e do Paulistão Feminino. Agora, volta com reestreia marcada para domingo (23), em Le Havre x Monaco, pela Ligue 1, e com papel claro: ampliar e qualificar a presença feminina na narração esportiva digital.
Luciana traz um currículo que quebra barreiras. Em 2022, torna-se a primeira mulher a narrar uma final de Libertadores em rádio FM, comandando a transmissão do título do Flamengo sobre o Athletico. Também participa de projetos como o “Damas do Esporte”, focado em narradoras mulheres, e circula por veículos como Rádio Nacional, TV Brasil, CBF TV e Rádio Roquette-Pinto.
Ao se despedir da Roquette-Pinto, ela escolhe uma classificação do Fluminense na Libertadores como última transmissão, numa espécie de síntese de sua relação com o torneio. “Quanto orgulho eu tenho da minha trajetória de luta e quanta alegria ter ao lado tanta gente que compra as minhas loucuras e se envolve nelas! Coincidência ou não, meu ciclo hoje se encerra com um jogo do Fluminense e na Copa Libertadores!”, afirma.
Já oficializada na CazéTV, Zogaib projeta a chegada com ambição declarada. “Estou muito feliz em realizar meu sonho de chegar em um veículo tão grande e super motivada em me juntar a esse time de alto nível, que vai ajudar a elevar ainda mais o meu trabalho. Já estou mirando a Copa Feminina no Brasil, que a meu ver, será uma enorme oportunidade de trazer uma nova perspectiva para o futebol feminino e para a inserção cada vez maior das mulheres nesse mercado”, diz.
Entre TV, rádio e streaming, narração vive fase de virada
A rescisão de Sérgio Maurício, a morte de Nogueirinha e a contratação de Luciana Zogaib não são fatos isolados. Juntos, desenham um momento de mudança profunda no ecossistema da narração esportiva brasileira. Na TV aberta, emissoras que perdem direitos relevantes, como a Fórmula 1, enxugam elencos e reduzem o espaço de especialistas em modalidades específicas.
No rádio regional, ícones como Nilton Nogueira saem de cena sem substitutos óbvios, em meio ao envelhecimento das audiências tradicionais e à competição com transmissões online. O vazio deixado por uma voz que acompanha o futebol baiano desde a década de 1950 escancara a necessidade de renovar, mas também de preservar a memória desse patrimônio cultural.
No streaming, plataformas digitais como a CazéTV investem em nomes capazes de dialogar com públicos jovens e engajados, incorporando diversidade de gênero e formato. A aposta em Zogaib, com foco declarado em competições femininas e no próximo Mundial de Seleções feminino em solo brasileiro, indica que a disputa por audiência passa também pela pluralidade de olhares.
O futuro imediato aponta para uma convivência tensa entre modelos. Narradores consagrados da TV migram para projetos próprios, rádios regionais lutam por relevância e canais digitais crescem com linguagem informal e liberdade editorial. A próxima temporada de grandes eventos, do futebol de clubes ao Mundial, mostrará até que ponto o público está disposto a seguir essas vozes para novas plataformas.
Por que Sergio Maurício rescindiu com a Band?
Sérgio Maurício rescinde com a Band, mesmo tendo contrato até 2030, por causa do esvaziamento da programação esportiva da emissora após a perda de direitos importantes, como as corridas de automobilismo, e pelo desejo declarado de buscar novos rumos no mercado digital com projetos autorais.
Quem foi Nilton Nogueira e qual sua importância na narração esportiva?
Nilton Nogueira, o “Nogueirinha”, foi um narrador esportivo baiano nascido em 16 de agosto de 1934 que marcou gerações no rádio, iniciou carreira em 1957, narrou seu primeiro jogo em 1959 e trabalhou até 2016 na Rádio Sociedade da Bahia, tornando-se “a voz eterna da crônica esportiva baiana”.
Qual é o nome da narradora feminina que CazéTV contratou?
A narradora contratada pela CazéTV é Luciana Zogaib, profissional com vasta experiência em rádio e TV que retorna ao projeto digital, reestreia em uma partida da Ligue 1 e chega para reforçar a presença feminina nas transmissões esportivas, mirando especialmente a cobertura do Mundial de seleções femininas no Brasil.