O resultado do primeiro turno das eleições de 2026 provocou forte reação nos mercados financeiros, e o câmbio voltou ao centro das atenções do agronegócio. Na segunda-feira, primeiro pregão após a votação, o dólar comercial caiu mais de 4% e fechou perto de cinco reais. Na StoneX, a taxa de referência ficou em R$ 5,0019, queda de 4,2% no dia. A PTAX de venda do Banco Central, usada como referência oficial para contratos e liquidações, ficou em R$ 4,9859.
A eleição terá segundo turno em 25 de outubro. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos no primeiro turno, contra 45,16% de Lula. Para o produtor rural, porém, a questão não se resume a saber se o dólar subiu ou caiu — e sim como a mudança afeta o preço de venda, o custo de produção e a margem final do negócio.
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Entenda o que aconteceu
O agronegócio brasileiro tem forte relação com o câmbio, já que commodities como soja, milho, café, algodão e carnes são negociadas em mercados internacionais dolarizados. Quando o real se valoriza, como ocorreu nesta segunda, cada dólar recebido pela exportação vale menos em reais — e, se a cotação internacional permanecer estável, a receita do produtor pode cair. Do outro lado, fertilizantes, defensivos, máquinas e peças importadas tendem a ficar mais baratos, embora o repasse desse ganho nem sempre aconteça de forma imediata.
O risco do descasamento cambial
A consultoria Cogo Inteligência em Agronegócio estima que apenas 29% da soja da safra 2026/27 e 12% do milho segunda safra de 2027 estavam comercializados ou com preço fixado antes do primeiro turno. Ou seja, segundo as simulações da consultoria, 71% da soja e 88% do milho ainda seguiam expostos às oscilações do mercado. Na prática, isso significa que parte dos produtores pode ter formado seus custos com um câmbio e acabar vendendo a produção com outro — o chamado descasamento cambial, em que o dólar mais baixo reduz despesas futuras, mas também pressiona uma receita ainda indefinida.

Soja e milho sentem o movimento rapidamente
Segundo a consultoria Agrinvest, a valorização do real pressiona a paridade de exportação da soja brasileira, reduzindo a competitividade do produto em certas condições quando os preços internacionais são convertidos para reais. A análise também identificou pressão sobre os preços futuros do milho na B3, já que o real mais forte reduz a capacidade de pagamento dos exportadores. Por isso, o produtor precisa olhar além da cotação em Chicago — é preciso combinar dólar, prêmio de exportação, frete e custo de produção para entender o efeito real sobre a margem.
E o boi gordo?
O câmbio também influencia o mercado pecuário, mas não define sozinho o preço da arroba. Segundo a Scot Consultoria, o mercado do boi iniciou outubro com oferta mais limitada e demanda consistente, fatores que sustentaram as cotações. Em 5 de outubro, o boi China em São Paulo estava cotado em R$ 372 por arroba no prazo de 30 dias, enquanto em Rondônia a referência era de R$ 345. O câmbio afeta a competitividade da carne brasileira no exterior, mas a formação do preço também depende da oferta de animais, das escalas de abate e da demanda interna e externa.
Entenda o contexto
Antes do primeiro turno, o banco holandês Rabobank já incluía a corrida eleitoral entre os fatores capazes de aumentar a volatilidade do real. Em análise de agosto, a instituição projetava o dólar em R$ 5,35 no fim de 2026, citando incertezas fiscais, eleitorais e o cenário internacional como fatores de pressão sobre a moeda.
A reação do mercado após o primeiro turno mostra como as expectativas políticas podem alterar rapidamente os preços dos ativos — o que, segundo analistas, não garante uma trajetória definida para as próximas semanas.
Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, o câmbio segue sujeito a novas informações econômicas, fiscais e eleitorais, e consultorias recomendam que o produtor rural acompanhe de perto o percentual da safra já comercializado, os preços internacionais e os custos futuros antes de tomar decisões de venda ou compra de insumos.
Fontes consultadas: TSE; Banco Central; StoneX; Cogo Inteligência em Agronegócio; Agrinvest; Safras & Mercado; Scot Consultoria; Rabobank.