As investigações envolvendo o Banco Master e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro não impediram que políticos citados direta ou indiretamente no caso chegassem competitivos às urnas nas eleições de 2026. O exemplo de maior projeção é Flávio Bolsonaro (PL), que avançou ao segundo turno da disputa pela Presidência.
Ao menos 16 candidatos relacionados de alguma forma às apurações do caso Master disputaram as eleições de domingo (4), segundo levantamento citado pelo Nexo. A presença dos nomes nas investigações envolve situações diferentes e não significa, por si só, que todos sejam acusados ou tenham cometido irregularidades.
No caso de Flávio, documentos da Polícia Federal apontam que o senador manteve interlocução direta com Daniel Vorcaro em negociações para o financiamento de “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro. O candidato nega irregularidades e sustenta que a captação envolvia financiamento privado para um projeto privado.
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Flávio chegou ao segundo turno mesmo sob investigação
A relação entre Flávio e Vorcaro ganhou dimensão nacional depois da divulgação de mensagens e áudios relacionados às negociações para financiar “Dark Horse”.
Documentos tornados públicos no decorrer das investigações indicam que Flávio atuava como interlocutor direto de Vorcaro na negociação dos recursos destinados à produção.
Segundo o material revelado nas apurações, o valor prometido pelo ex-banqueiro para o projeto chegou a R$ 134 milhões.
As suspeitas levaram à abertura de investigação no Supremo Tribunal Federal para apurar possíveis crimes relacionados ao financiamento da produção. Entre os pontos investigados estão suspeitas de superfaturamento, lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas.
A existência do inquérito não representa uma conclusão sobre responsabilidade criminal. Flávio nega ter cometido irregularidades e afirma que a negociação dizia respeito a recursos privados para um projeto privado.
Contatos com Vorcaro entraram no centro das investigações
A Polícia Federal identificou contatos, cobranças e tentativas de encontros entre Flávio e Vorcaro ao longo de 2025.
Parte dessas comunicações ocorreu quando o Banco Master já enfrentava suspeitas de irregularidades.
Mensagens analisadas pelas autoridades também indicaram discussões sobre um possível jantar envolvendo Vorcaro, Flávio e Jair Bolsonaro em dezembro de 2024.
Os registros mostraram que Vorcaro pediu discrição sobre o encontro, mas as mensagens conhecidas não comprovam que o jantar tenha efetivamente acontecido.
Outros políticos também chegaram às urnas citados no caso
Flávio não foi o único candidato das eleições de 2026 cujo nome apareceu em investigações, documentos ou relações envolvendo o Master.
Entre os nomes destacados está Ciro Nogueira (PP), presidente nacional do partido e ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro. Ele é investigado sob suspeita de receber pagamentos e atuar no Congresso em pautas de interesse de Vorcaro.
Ciro nega as acusações. Na eleição para o Senado pelo Piauí, terminou em terceiro lugar e não conseguiu renovar o mandato.
Outro nome citado é Jaques Wagner (PT), líder do governo Lula no Senado, investigado sob suspeita de receber contrapartidas relacionadas à atuação em projetos parlamentares de interesse do banco.
A presença desses políticos nas investigações ocorre em circunstâncias distintas, e a simples citação em documentos ou apurações não comprova participação em crimes.
Por que o caso Master teve impacto limitado nas urnas?
Uma das explicações apresentadas por especialistas ouvidos pelo Nexo está na dificuldade de transformar um escândalo financeiro complexo em um fator decisivo para o eleitor.
O cientista político Cristiano Rodrigues, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, avalia que as relações entre dinheiro público, política e suspeitas de corrupção no caso Master não ficaram claras para uma parcela significativa da população.
Na avaliação do professor, outros conflitos políticos, especialmente a relação entre o bolsonarismo e o Supremo Tribunal Federal, tiveram peso maior na mobilização dos eleitores ligados a Flávio Bolsonaro.
Joscimar Souza, professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, aponta outro fator: a perda de força da corrupção como elemento capaz de determinar sozinho a escolha do eleitor.
Segundo ele, uma percepção disseminada de desconfiança em relação às classes política e jurídica reduz o impacto eleitoral de novos escândalos.
Segurança e economia ganharam mais espaço na campanha
Na avaliação de Joscimar Souza, temas como segurança pública e economia tiveram maior capacidade de mobilização durante a campanha presidencial.
Isso teria ajudado a limitar o efeito eleitoral das investigações envolvendo o Master, apesar da exposição de documentos, mensagens e relações políticas durante os meses anteriores à votação.
No caso de candidatos ao Legislativo, fatores como identificação partidária, presença nas redes sociais e atuação política local também podem ter pesado mais na decisão do eleitor.
O resultado do primeiro turno mostra, portanto, que aparecer nas apurações relacionadas ao Banco Master não foi suficiente para inviabilizar eleitoralmente parte dos políticos envolvidos.
Para Flávio Bolsonaro, o teste continua no segundo turno presidencial. As investigações sobre sua relação com Vorcaro seguem em andamento independentemente do resultado das urnas.