Aprender a criar um videogame com a ajuda da inteligência artificial pode ser o primeiro contato de muitos jovens com uma profissão ligada à tecnologia. No Rio de Janeiro, uma iniciativa desenvolvida em parceria com o AfroReggae aposta nessa possibilidade para ampliar o acesso à educação digital em comunidades. Segundo os organizadores, o projeto começou com um pequeno grupo no Complexo da Maré e já alcançou mais de 400 crianças e adolescentes.
À frente da iniciativa está Husny Darwish, de 18 anos, que estuda em Nova York e mantém uma relação de longa data com o Brasil. A proposta é ensinar os participantes a utilizar ferramentas de inteligência artificial para desenvolver seus próprios jogos eletrônicos, transformando ideias em projetos digitais e aproximando os jovens de conhecimentos que podem ser úteis no mercado de trabalho.
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De jogadores a criadores: como funciona o projeto social
O ponto de partida das atividades é um universo que já faz parte da rotina de muitos adolescentes: os videogames. Mas, em vez de apenas jogar, os participantes são incentivados a compreender como os jogos são desenvolvidos e a utilizar recursos digitais para criar personagens, cenários e experiências próprias.
A inteligência artificial entra como uma ferramenta de apoio ao processo criativo. A ideia é permitir que os alunos experimentem soluções tecnológicas e desenvolvam habilidades relacionadas à produção de conteúdo digital, à resolução de problemas e à construção de projetos.
O projeto também busca estimular o aprendizado de línguas estrangeiras, especialmente relevantes em áreas como programação e desenvolvimento de games, nas quais parte dos materiais e ferramentas está disponível em inglês.
De acordo com o material divulgado pela iniciativa, o número de participantes cresceu desde as primeiras atividades na Maré e ultrapassou 400 jovens atendidos em diferentes comunidades do Rio. O release, porém, não detalha o período de atendimento, a carga horária dos cursos nem quantos alunos concluíram a formação.

Por que levar inteligência artificial às comunidades?
O acesso a equipamentos, conexão de qualidade e formação especializada ainda é desigual entre estudantes brasileiros. Nas comunidades, essas dificuldades podem limitar o contato dos jovens com ferramentas digitais utilizadas em diferentes profissões.
No Complexo da Maré, onde a iniciativa começou, os desafios educacionais também estão relacionados à realidade social do território. O material do projeto cita um levantamento comunitário de 2013 que identificou aproximadamente 139 mil moradores, incluindo mais de 34 mil crianças com menos de 15 anos.
O release também aponta dificuldades de infraestrutura tecnológica nas escolas e interrupções das atividades educacionais em decorrência da violência armada. Segundo os dados apresentados pelos organizadores, 32% das escolas da região contavam com laboratórios de informática em 2024. A fonte e a metodologia desse último indicador não foram detalhadas no material enviado.
Nesse contexto, a proposta de ensinar criação de games procura oferecer uma experiência que vai além do consumo de tecnologia. O objetivo é que os participantes conheçam ferramentas que possam utilizar em estudos, projetos autorais e, futuramente, atividades profissionais.
Parceria com AfroReggae amplia formação tecnológica
A iniciativa se conecta à trajetória do AfroReggae, organização criada em 1993 que desenvolve ações de inclusão social por meio da cultura, da educação e da formação profissional.
Uma das frentes da instituição é o AfroGames, projeto lançado em 2018 que oferece formação ligada ao universo dos jogos eletrônicos. Entre suas atividades estão cursos de programação e design de games, aulas de inglês e preparação para o mercado de tecnologia e esportes eletrônicos.
O AfroGames já possui unidades em diferentes comunidades do Rio de Janeiro, incluindo o Complexo da Maré e Vigário Geral. A organização também ampliou sua estrutura com novos centros de treinamento, como o da Vila do João, na Maré.
A parceria apresentada por Darwish acompanha essa proposta de utilizar o interesse pelos jogos como porta de entrada para o aprendizado de competências digitais. A possibilidade de geração de renda aparece como uma perspectiva futura, embora ainda não tenham sido apresentados resultados específicos de empregabilidade dos participantes dessa iniciativa.
Projeto também apoia artistas locais
Além das atividades voltadas à educação tecnológica, Husny Darwish participa de ações de incentivo à produção artística no Rio de Janeiro.
Segundo o release, uma dessas iniciativas envolveu o apoio a uma artista local que buscava estruturar seu próprio estúdio. Darwish colaborou com a arrecadação de recursos e com o desenvolvimento da identidade artística do espaço.
A atuação segue uma proposta semelhante à do projeto com os jovens: oferecer condições para que pessoas com ideias e habilidades criativas tenham acesso a ferramentas, espaços e oportunidades para desenvolver seus trabalhos.
Quem é Husny Darwish?
Aos 18 anos, Husny Darwish divide sua trajetória entre a formação acadêmica em Nova York e as iniciativas sociais desenvolvidas no Brasil. O vínculo com o Rio de Janeiro, construído ao longo de várias visitas, passou a incluir projetos nas áreas de educação, tecnologia e arte.
Em 2025, segundo o material divulgado por sua equipe, ele recebeu a Medalha Tiradentes, honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). A homenagem teria sido proposta pelo deputado estadual Alexandre Knoploch.
Para Darwish, o principal objetivo das ações é ampliar o acesso de jovens e artistas aos recursos necessários para desenvolver suas próprias ideias.
“O Brasil sempre teve um lugar especial na minha vida, e poder transformar esse vínculo em oportunidades concretas para jovens e artistas é algo muito significativo para mim. Quero que eles tenham acesso às ferramentas, ao conhecimento e aos espaços necessários para transformar suas próprias ideias em realidade”, afirma.
O próximo desafio é transformar aprendizado em oportunidades
O crescimento do projeto para mais de 400 participantes, conforme informado pelos organizadores, representa uma ampliação do alcance das atividades iniciadas na Maré.
O desafio agora é garantir continuidade à formação e criar caminhos para que os conhecimentos adquiridos possam ser utilizados em outras etapas da educação e da vida profissional.
Aprender a desenvolver um jogo não significa, necessariamente, conseguir emprego no setor. Ainda assim, o contato com programação, ferramentas de inteligência artificial, criação digital e idiomas pode ajudar os participantes a descobrir interesses e conhecer áreas profissionais às quais antes tinham pouco acesso.
Ao aproximar essas ferramentas de crianças e adolescentes de comunidades do Rio, a iniciativa procura ampliar não apenas as possibilidades de aprendizado, mas também a participação desses jovens na criação de tecnologias e conteúdos digitais.