Quase metade dos alunos brasileiros já usa IA para estudar e índice supera média mundial

Pisa 2025 mostra que 48% dos estudantes de 15 anos recorrem a chatbots semanalmente para aprender; ao mesmo tempo, escolas brasileiras têm baixa capacidade de integrar tecnologia ao ensino
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

A inteligência artificial já entrou de vez na rotina de parte dos estudantes brasileiros. Dados do Pisa 2025, divulgados nesta terça-feira (8) pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mostram que 48% dos alunos brasileiros de 15 anos usam chatbots de inteligência artificial pelo menos uma vez por semana para estudar.

O percentual coloca o Brasil acima da média dos países da OCDE, que ficou em 46%.

É a primeira edição do Pisa a medir de forma específica como os estudantes utilizam ferramentas de inteligência artificial no processo de aprendizagem. O resultado mostra que a tecnologia já está sendo incorporada pelos jovens mesmo diante de dificuldades das próprias escolas para acompanhar essa transformação.

VEJA TAMBÉM

B3 adota inteligência artificial e reduz em 35% prazo para desenvolver softwares

Brasileiros recorrem mais à IA para pesquisas rápidas

A diferença aparece com mais força quando a finalidade é buscar informações sobre assuntos novos.

No Brasil, 40% dos estudantes afirmaram usar chatbots para fazer pesquisas rápidas, enquanto a média entre os países da OCDE ficou em 31%.

O resultado coloca os brasileiros 9 pontos percentuais acima da média internacional nesse tipo de utilização.

A inteligência artificial também aparece na hora de resumir conteúdos. 31% dos alunos brasileiros disseram utilizar chatbots para condensar textos que precisam ler para a escola. Na média da OCDE, o índice é de 30%.

Já quando a ferramenta é utilizada para produzir uma redação inteira, o Brasil fica abaixo da média internacional: 27% dos estudantes recorrem à IA para essa finalidade, contra 29% na OCDE.

A maioria não está usando IA apenas para fazer trabalhos

Os números indicam que o uso da tecnologia não se limita à produção automática de tarefas escolares.

Entre os estudantes brasileiros pesquisados, 11% disseram nunca utilizar inteligência artificial para nenhuma atividade relacionada aos estudos. Na média da OCDE, esse percentual chega a 14%.

Isso significa que, no Brasil, a parcela de estudantes que mantém algum contato com ferramentas de IA para estudar é maior do que a observada, em média, nos países integrantes da organização.

O levantamento, porém, não significa que utilizar mais IA necessariamente resulte em melhor aprendizado.

A forma como a tecnologia é usada aparece como uma das questões centrais levantadas pelo Pisa.

Brasil usa mais IA, mas escolas têm dificuldade para acompanhar

O dado que mais chama atenção é a diferença entre o comportamento dos alunos e a estrutura das escolas.

Apesar de 48% dos estudantes brasileiros usarem IA semanalmente para aprender, o país registrou -0,86 no Indicador de Capacidade Digital das Escolas, enquanto a média da OCDE ficou em -0,03.

Na prática, os estudantes estão incorporando ferramentas digitais em uma velocidade maior do que a capacidade das escolas de integrá-las ao processo pedagógico.

O contraste também aparece no tempo de utilização de dispositivos digitais para aprendizagem dentro da escola.

Os alunos brasileiros passam, em média, 1,3 hora por dia usando equipamentos digitais para aprender no ambiente escolar. Nos países da OCDE, a média é de 1,7 hora.

Ou seja: embora os brasileiros estejam recorrendo bastante à inteligência artificial por iniciativa própria, o uso pedagógico estruturado da tecnologia dentro das escolas ainda é menor.

Celular também virou preocupação nas escolas

O Pisa 2025 mostra que o debate sobre tecnologia na educação não envolve apenas inteligência artificial.

Entre 2022 e 2025, a proporção de estudantes brasileiros matriculados em escolas que proíbem o uso de celulares passou de 37% para 81%.

A mudança ocorreu em um período no qual o país avançou em políticas para restringir o uso dos aparelhos durante as atividades escolares.

Na média da OCDE, a proporção de alunos em escolas com proibição de celulares também aumentou, mas em ritmo menor: passou de 34% para 49% no mesmo período.

A própria OCDE aponta que a restrição pode ajudar a reduzir distrações digitais. Estudantes de escolas que proíbem celulares têm, em média, cerca de 13% menos chances de relatar distração digital durante as aulas.

Distração pode ter impacto direto nas notas

O levantamento também encontrou uma relação entre distração causada por dispositivos e desempenho escolar.

Nas aulas de ciências, 25% dos estudantes brasileiros disseram se distrair com equipamentos digitais. Entre os países da OCDE, a média é de 28%.

O problema aparece quando se observa o desempenho desses estudantes.

No Brasil, os alunos que relatam distração digital durante as aulas de ciências apresentam, em média, 19 pontos a menos na avaliação. Na média da OCDE, a diferença é de 11 pontos.

Os dados não permitem concluir que o uso de dispositivos seja, sozinho, a causa da queda no desempenho. Mas mostram uma associação importante entre distração digital e resultados acadêmicos.

IA pode ajudar, mas não substitui o aprendizado

A expansão dos chatbots cria um novo desafio para escolas, professores e famílias.

A tecnologia pode facilitar pesquisas, ajudar na compreensão de conteúdos e permitir que estudantes tenham acesso rápido a explicações. Ao mesmo tempo, o uso sem orientação pode fazer com que o aluno simplesmente terceirize para a ferramenta tarefas que deveriam desenvolver leitura, interpretação, argumentação e pensamento crítico.

Esse debate ganha ainda mais importância diante do desempenho brasileiro no próprio Pisa.

Na edição de 2025, o Brasil registrou 409 pontos em ciências, 408 em leitura e 377 em matemática, permanecendo abaixo das médias da OCDE nas três áreas. Em matemática, aproximadamente 72% dos estudantes brasileiros não atingiram o nível básico de proficiência.

Assim, o desafio não é simplesmente decidir se o aluno pode ou não utilizar inteligência artificial. A questão passa a ser como ensinar o estudante a usar a ferramenta sem deixar que ela substitua o processo de aprendizagem.

O desafio agora é ensinar a usar a tecnologia

O avanço da inteligência artificial entre os estudantes brasileiros mostra que a tecnologia já chegou à sala de aula, mesmo quando a escola ainda não está preparada para incorporá-la plenamente.

Os números do Pisa apontam para uma situação paradoxal: os jovens brasileiros estão entre os que mais recorrem a chatbots para aprender, mas as escolas do país ainda apresentam uma capacidade digital abaixo da média internacional.

O desafio para a educação, portanto, deixou de ser apenas garantir acesso à tecnologia. Agora, é necessário estabelecer critérios para seu uso, preparar professores e ensinar os alunos a diferenciar uma ferramenta de apoio ao aprendizado de uma ferramenta que simplesmente entrega respostas prontas.

LEIA TAMBÉM

“‘Gravíssimos fatos’: ex-ministros dizem que STF vive ‘mais aguda crise’ da história”

Entenda O Contexto

O uso de inteligência artificial por estudantes brasileiros cresce justamente em um momento de transformação profunda na educação. O Pisa 2025 mostra que 48% dos alunos de 15 anos no país utilizam chatbots semanalmente para estudar, percentual superior à média de 46% da OCDE.

Ao mesmo tempo, a capacidade das escolas brasileiras de integrar tecnologias digitais ao ensino permanece abaixo da média internacional. O cenário revela uma mudança no comportamento dos estudantes que avança mais rapidamente do que a adaptação das instituições de ensino.

A discussão passa, portanto, não apenas pelo acesso à inteligência artificial, mas pela forma como ela é utilizada. Pesquisar, resumir e compreender conteúdos são usos diferentes de simplesmente pedir que uma ferramenta produza uma tarefa inteira. Em um país que ainda enfrenta dificuldades importantes em leitura, matemática e ciências, o principal desafio passa a ser fazer com que a inteligência artificial complemente o aprendizado, em vez de substituir justamente as habilidades que a escola precisa desenvolver.

AS MAIS LIDAS DO NC NEWS

Quaest: Lula tem 36% e Flávio Bolsonaro, 29%, a menos de um mês do 1º turno

Flávio Bolsonaro mobiliza direita na Paulista em ato contra Lula e Moraes

Pressão leva adolescentes chineses a buscar fuga em medicamentos

Carregar Comentários