Uma combinação de dois antirretrovirais administrada uma vez por semana apresentou eficácia semelhante à de tratamentos diários contra o HIV em um estudo internacional. A estratégia reúne lenacapavir e islatravir e pode representar uma nova alternativa para simplificar a rotina de pessoas que vivem com o vírus.
O estudo acompanhou 607 voluntários em 12 países durante 48 semanas. Os resultados mostraram que a combinação semanal manteve o HIV controlado em níveis semelhantes aos observados entre participantes que utilizavam uma terapia padrão de comprimido único diário. A pesquisa foi publicada em agosto no New England Journal of Medicine.
Apesar dos resultados, a combinação ainda não está disponível de forma rotineira no Brasil. O lenacapavir já possui registro da Anvisa para determinados casos de HIV resistente, enquanto o islatravir ainda não está liberado para uso rotineiro no país.
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Como funciona o tratamento semanal contra o HIV
A combinação estudada utiliza dois medicamentos que atuam em etapas diferentes do ciclo de replicação do HIV. O islatravir interfere no processo que o vírus utiliza para transformar seu material genético e se multiplicar dentro das células.
O lenacapavir atua sobre o capsídeo, estrutura que protege o material genético do HIV. A ação em mecanismos diferentes permite que os medicamentos trabalhem de forma complementar contra a replicação viral.
Segundo especialistas ouvidos na reportagem da Folha, a combinação de mecanismos também pode reduzir o risco de desenvolvimento de resistência viral.
Por que reduzir a frequência das doses é importante?
O tratamento do HIV precisa ser mantido de forma contínua para impedir que o vírus volte a se multiplicar. Quando a terapia consegue manter a carga viral indetectável, a pessoa também não transmite o HIV por via sexual, princípio conhecido como indetectável igual a intransmissível.
A necessidade de manter a medicação durante toda a vida torna a adesão uma das principais questões do tratamento. Esquecimentos, dificuldades de rotina e outros obstáculos podem comprometer a regularidade do uso.
Uma terapia com intervalos maiores entre as doses pode reduzir parte dessas dificuldades. A médica Emy Akiyama Gouveia, infectologista do Einstein, avaliou que a simplificação pode contribuir para a adesão e para resultados clínicos melhores no longo prazo.
O que o estudo descobriu?
Os 607 participantes foram acompanhados durante 48 semanas e receberam a combinação semanal como terapia de manutenção. Os resultados foram comparados aos de pessoas que utilizavam um comprimido único diário formado por bictegravir, emtricitabina e tenofovir alafenamida.
A terapia diária de comprimido único também representa uma evolução em relação aos antigos esquemas que exigiam vários comprimidos por dia. No Brasil, essa combinação começou a ser distribuída pelo Sistema Único de Saúde em agosto de 2026.
O resultado do estudo não significa que a terapia semanal já substitua os tratamentos disponíveis. Os dados permitem que a combinação seja submetida à avaliação das autoridades sanitárias para eventual aprovação de uso mais amplo.
Lenacapavir já é utilizado em casos específicos
Dos dois medicamentos da combinação, o lenacapavir já possui registro da Anvisa no Brasil para o tratamento de pessoas com HIV resistente. Sua utilização ocorre em situações específicas e em associação com outros antirretrovirais.
O medicamento também está sendo estudado no Brasil para uma aplicação diferente: a prevenção do HIV por meio de uma PrEP injetável de longa duração.
Já o islatravir ainda não está disponível para uso rotineiro no Brasil. Pesquisas recentes, porém, vêm avaliando sua eficácia em diferentes combinações de medicamentos contra o HIV.
Tratamento não é o mesmo que prevenção
É importante diferenciar o tratamento de quem já vive com HIV das estratégias de prevenção para pessoas que não têm o vírus. No primeiro caso, o objetivo é controlar a infecção e manter a carga viral indetectável. Na prevenção, medicamentos como a PrEP são utilizados antes de uma possível exposição ao HIV para reduzir o risco de infecção.
O Brasil já oferece PrEP oral gratuitamente pelo SUS e também avança na avaliação de opções de longa duração. O cabotegravir, por exemplo, é aplicado a cada dois meses e está em processo de análise para possível incorporação ao sistema público.
Acesso continua sendo um desafio
Especialistas alertam que uma nova tecnologia, por si só, não resolve todos os desafios relacionados ao HIV. Mesmo medicamentos mais modernos precisam chegar às pessoas que podem se beneficiar deles, com preço acessível, distribuição adequada e acompanhamento médico.
O representante do Unaids no Brasil, Gustavo Passos, ressaltou que populações marginalizadas ainda enfrentam barreiras de acesso a medicamentos e serviços de prevenção, especialmente em países da América Latina, África e Ásia.
No Brasil, o SUS oferece tratamento antirretroviral gratuitamente às pessoas diagnosticadas com HIV, além de estratégias de prevenção como PrEP e PEP. A ampliação das opções terapêuticas pode facilitar a escolha do tratamento mais adequado para diferentes necessidades, mas depende de avaliação científica, regulatória e de acesso.
Novas opções ampliam possibilidades de tratamento
A combinação semanal de lenacapavir e islatravir representa mais uma etapa da evolução do tratamento do HIV, que passou de esquemas com vários comprimidos diários para terapias cada vez mais simples.
Os resultados do estudo mostram que reduzir a frequência das doses pode ser uma alternativa sem perda significativa de eficácia no controle do vírus. A eventual chegada da terapia à prática clínica, porém, depende das avaliações necessárias antes de uma aprovação para uso amplo.