Com a Avenida Paulista tomada por apoiadores por cerca de 12 quarteirões, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva transformou neste domingo (11) um ato de campanha em São Paulo em espécie de largada para a reta final do segundo turno, com pedido direto para atacar a abstenção recorde e críticas duras à Justiça Eleitoral.
No carro de som montado próximo ao Masp, Lula discursou cercado pelo vice Geraldo Alckmin, pela ex-ministra Marina Silva, pelo ministro Guilherme Boulos e pelos governadores petistas reeleitos no Ceará, Bahia e Piauí — Elmano de Freitas, Jerônimo Rodrigues e Rafael Fonteles. A manifestação foi convocada por entidades da educação, ciência e tecnologia e é a maior mobilização da esquerda na Paulista desde os protestos contra o governo anterior.
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Avenida paulista hoje ao vivo agora
A Avenida Paulista foi bloqueada entre o Paraíso e a Consolação para receber o ato, que começou no fim da manhã com concentração em frente ao Museu de Arte de São Paulo. A multidão, com bandeiras, carros de som e blocos estudantis, ocupou cerca de 12 quarteirões em direção aos dois sentidos da via.
A estação Trianon-Masp do Metrô chegou a ser fechada por causa da lotação na área externa. Sobrevoos registraram a avenida tomada por militantes, famílias e caravanas de outras cidades, em clima de comício. Perguntado sobre o impacto do ato na campanha, Lula respondeu a jornalistas que via na Paulista “uma demonstração de que o povo não está desanimado”.
Organizado por entidades como ANPG, UNE, Ubes, SBPC e Academia Brasileira de Ciências, o evento teve leitura de uma carta em defesa da educação, da ciência e da democracia, que pede financiamento público estável para universidades, valorização de professores e pesquisadores e autonomia universitária.
Quantas pessoas na paulista hoje
Até o meio da tarde, a organização falava em um ato com dimensão “histórica”, espalhado por 12 quarteirões, mas sem divulgar números oficiais de público. Os organizadores destacavam a presença de caravanas de estudantes, sindicatos e movimentos de periferia, além de grupos de cientistas e trabalhadores da área de tecnologia.
Do alto do carro de som, Lula citou a extensão da passeata e disse que via na multidão um recado para o país. “Esse ato aqui é uma lição. Uma lição para mim, uma lição para vocês, para todos nós”, afirmou, para emendar que não basta julgar políticos: “O que estou entendendo é o seguinte: o político bom está dentro de cada um de vocês”.
Lula pede caça aos 30 milhões que não votaram
Com o adversário Flávio Bolsonaro numericamente à frente nas pesquisas — 52% a 48% dos votos válidos, segundo o Datafolha mais recente citado pela campanha — Lula usou boa parte do discurso para focar nos eleitores que não foram às urnas no primeiro turno. A abstenção passou de 21%, o equivalente a mais de 33 milhões de pessoas aptas que não compareceram.
“Nós tivemos quase 30 milhões de pessoas que não foram votar”, disse o presidente. “Temos a obrigação de conversar com as pessoas que acham que não têm mais direito de votar. Porque, se essa pessoa não quer votar por ela, tem filho, tem filha, tem neto, tem bisnetos e tem a pátria dela para cuidar. Portanto, temos que convencer as pessoas.”
Lula insistiu que a mobilização do segundo turno passa por uma espécie de corpo a corpo entre militantes e não votantes, em especial idosos e jovens desiludidos com a política. Aos universitários e secundaristas, lançou um apelo direto: “Ou vocês participam da vida política ou ela não tem conserto. Vocês têm que assumir a responsabilidade enquanto são jovens, enquanto têm disponibilidade de ir à luta. Esse país não pode perder a democracia, por pior que ela seja”.
Entenda o contexto
O ato na Paulista ocorre depois de um primeiro turno em que Lula ficou atrás de Flávio Bolsonaro e viu a campanha reconhecer dificuldades para dialogar com a juventude e com parte do eleitorado despolitizado. A avaliação interna é que a disputa deve ser decidida por uma margem estreita, o que torna cada voto — e, sobretudo, cada abstenção revertida — determinante no resultado.
A estratégia traçada pela campanha combina grandes atos de rua, como o deste domingo, com uma agenda de encontros setoriais. Estão previstos, nos próximos dias, um evento com caminhoneiros em São Paulo, atividades no Rio de Janeiro e participação em debates de TV. Paralelamente, o governo aposta em votações no Congresso, como o fim da escala de trabalho 6×1 e a PEC da Segurança Pública, para sinalizar entregas concretas ao eleitorado.
Ataque à gestão Bolsonaro na pandemia
Numa fala carregada de críticas, Lula voltou a associar Flávio Bolsonaro ao legado do pai, Jair Bolsonaro, durante a pandemia de Covid-19. O presidente mencionou as mortes por asfixia, o atraso na compra de vacinas e o desprezo pela ciência.
“Vocês sabem o que a família bolsonarista fez nesse país. Vocês sabem o que é um presidente rir de pessoas que estavam morrendo asfixiadas. Vocês viram quantas milhões de pessoas foram enterradas em sacos pretos sem poder se despedir da sua família, porque tivemos um presidente irresponsável, que duvidou da ciência, que não acreditou na medicina”, afirmou.
Segundo Lula, o segundo turno também será um julgamento desse período. A militância respondia com gritos em defesa do Sistema Único de Saúde e da vacina, enquanto lideranças religiosas ligadas à campanha buscavam dialogar com evangélicos presentes ao ato, faixa do eleitorado em que Bolsonaro pai mantém influência.
Revolução tecnológica e segurança pública
Além do tom de confronto, Lula dedicou parte do discurso a promessas para um eventual novo mandato, com foco em tecnologia, transição energética e segurança pública. Ele afirmou que o país precisa “dar um salto” na formação de mão de obra para a nova economia.
“Nosso próximo mandato é para fazer uma revolução tecnológica neste país. A gente vai ter que formar muita gente em inteligência artificial. A gente vai ter que formar muita gente para a nova indústria digital. A gente vai ter que fazer a evolução energética. A gente vai ter que fazer uma revolução na segurança pública”, declarou.
De acordo com auxiliares, o plano do governo é articular programas de capacitação em inteligência artificial e indústria digital, acoplados a políticas de inovação, e usar a transição energética como motor de investimentos. Na segurança, a ideia discutida com aliados é integrar ações da União, estados e municípios, tema que aparece também na PEC da Segurança Pública em tramitação no Congresso.
Lula aproveitou para citar projetos em análise no Legislativo, como o fim da escala 6×1, que garante mais folgas a trabalhadores, e medidas para microempreendedores individuais (MEIs). Um dos textos em discussão eleva o teto de receita bruta anual para R$ 130 mil e amplia a possibilidade de contratações, com impacto estimado em mais de R$ 50 bilhões por ano na revisão do Simples Nacional — ponto que ainda gera resistência na área econômica.
Lula volta a criticar Justiça Eleitoral
O clima do ato foi marcado também pela reação a decisões da Justiça Eleitoral que atingem canais de comunicação ligados à campanha. No microfone, Lula subiu o tom contra o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, após a suspensão do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, administrado pelo deputado André Janones (Rede-MG) e que reunia mais de 3 milhões de inscritos.
“Não é possível que um presidente [de tribunal] eleitoral não tenha um comportamento civilizado, republicano”, afirmou o presidente, dizendo perceber “muitas decisões tendenciosas” contra sua candidatura. Em outro momento, completou: “Não vamos aceitar intromissão indevida da Justiça Eleitoral”.
Lula disse que o partido vai acionar a Corte para “equilibrar o jogo” nas redes sociais, alegando bloqueio de perfis aliados. A avaliação no entorno do presidente é que a disputa digital será decisiva no segundo turno, e que qualquer restrição sobre canais de apoiadores impacta diretamente a capacidade de reação à máquina de comunicação bolsonarista.
Pela manhã, antes do ato, Lula já havia classificado a decisão que derrubou o canal como “absurda” e cobrou explicações do TSE. A determinação foi contestada pela defesa da campanha e reacendeu o debate interno sobre como diversificar as plataformas de mobilização.
Janones fala em censura e migração de canais
No palanque montado na Avenida Paulista, o deputado André Janones reforçou as críticas e chamou a decisão de censura. Ele anunciou a criação de novos canais em outras redes sociais, sobretudo no Instagram, para substituir o grupo desativado.
“Não é que se Flávio Bolsonaro for eleito, a censura vai ser instalada. A censura já começou. Só que eles vão sentir a força de 3,3 milhões de pessoas unidas. Nós não vamos nos calar. Nós vamos continuar”, afirmou Janones, sob aplausos da militância.
A equipe digital da campanha orienta apoiadores a migrarem para esses novos espaços enquanto aguarda desdobramentos jurídicos. A expectativa é de que o tema volte ao plenário do TSE nos próximos dias e que haja novas decisões sobre o limite da atuação de influenciadores e canais de campanha em aplicativos de mensagem.
Agenda de rua e votações no Congresso
Antes de subir ao carro de som, Lula falou com jornalistas sobre a agenda da semana. Ele disse que a votação do projeto que extingue a escala 6×1 está combinada com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, para quarta-feira, e cobrou que a oposição assuma posição pública.
“Já está conversado com o Alcolumbre. Já está marcada a data da votação. Portanto, a única coisa que a oposição pode fazer é o seguinte: demonstrar se vão ter coragem de votar contra ou a favor. O que eles não podem é tentar protelar para enganar o povo depois das eleições. É agora. Agora é a hora da verdade”, declarou. Em seguida, citou diretamente o PL de Flávio Bolsonaro: “O PL tem que dizer se ele é favorável aos trabalhadores descansarem mais ou quer que os trabalhadores continuem trabalhando mais”.
Lula mencionou ainda que a PEC da Segurança Pública deve avançar no Congresso, definindo o papel da União e dos municípios no combate ao crime organizado. Aliados avaliam que a aprovação de propostas na área pode ajudar a neutralizar o discurso de endurecimento penal defendido por Flávio Bolsonaro.
Na campanha de rua, além do ato deste domingo, o comitê de Lula programou encontros com caminhoneiros em São Paulo, eventos no Rio e novas caminhadas em capitais onde o desempenho foi abaixo do esperado no primeiro turno. A ordem é manter a militância nas ruas até a véspera da votação, com foco nos locais de maior abstenção.
Outros atos pelo país reforçam mobilização
Enquanto a Paulista concentrava as atenções, cidades como Campinas, Belo Horizonte, Juiz de Fora e Florianópolis também registraram atos pró-Lula. Em todos, o tom foi o mesmo: defesa da democracia, críticas à família Bolsonaro e apelos para que ninguém falte às urnas no segundo turno.
Em Belo Horizonte, um bandeiraço puxado pelo bloco “Sou Vermelho” ocupou o hipercentro e a Feira Hippie, monitorado por equipes de trânsito e segurança da prefeitura. Em Campinas, a “Marcha pela Democracia” atravessou o Centro na hora do almoço. Em Juiz de Fora, apoiadores marcharam do Parque Halfeld até a Praça da Estação, com bandeiras e cartazes.
A campanha vê nesses atos simultâneos uma forma de manter a base mobilizada e mostrar capilaridade nacional, num momento em que tenta reduzir a vantagem de Flávio Bolsonaro nas pesquisas e transformar a energia das ruas em votos na urna.