Aliados do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) procuraram interlocutores do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para sondar a possibilidade de decisões judiciais com impacto sobre o segundo turno das eleições de 2026.
Segundo a publicação, a aproximação foi intermediada pelo deputado federal e senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP), que possui contatos em comum com Moraes. O diálogo teria ocorrido por meio de policiais próximos ao ministro, sem confirmação de uma reunião direta entre o magistrado e o candidato do PL.
A iniciativa ocorre em meio à disputa presidencial entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), marcada para ser decidida em 25 de outubro. Apesar da tentativa de aproximação, interlocutores de Derrite afirmam que não houve compromisso de abandonar a defesa de um eventual processo de impeachment contra Moraes.
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Por que aliados de Flávio Bolsonaro procuraram Alexandre de Moraes?
De acordo com a coluna de Igor Gadelha, a iniciativa partiu de integrantes do entorno de Flávio Bolsonaro interessados em saber se haveria alguma atuação do STF capaz de afetar a disputa presidencial nas próximas semanas.
A preocupação relatada pelos aliados envolve possíveis decisões judiciais durante a reta final da campanha. A movimentação representa uma tentativa de estabelecer um canal de comunicação com o entorno de Moraes, ministro que mantém uma relação de confronto político com integrantes do bolsonarismo.
Segundo a reportagem, o grupo sondou se o ministro ou o Supremo fariam algum tipo de intervenção no segundo turno. A resposta transmitida aos interlocutores teria sido negativa.
Essa informação, entretanto, foi apresentada pela coluna com base em relatos de bastidores. Não há confirmação pública de que Moraes tenha assumido qualquer compromisso sobre decisões futuras.
Além disso, o STF possui atribuições constitucionais próprias, e a atuação de seus ministros não depende de entendimentos políticos com candidatos ou partidos.
Qual foi o papel de Guilherme Derrite na aproximação?
O deputado federal e senador eleito Guilherme Derrite, do Progressistas de São Paulo, teria sido responsável por estabelecer a ponte entre integrantes da campanha de Flávio e pessoas próximas a Alexandre de Moraes.
Derrite é capitão da reserva da Polícia Militar e foi secretário da Segurança Pública de São Paulo durante o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Moraes também ocupou o comando da Secretaria da Segurança Pública paulista, entre 2015 e 2016, antes de assumir o Ministério da Justiça e, posteriormente, uma cadeira no Supremo Tribunal Federal.
A passagem dos dois pela área de segurança pública é apontada como um dos fatores que facilitaram o acesso a interlocutores em comum.
Segundo o Metrópoles, a comunicação ocorreu por intermédio de policiais próximos ao ministro. A reportagem não identifica os participantes das conversas nem detalha quando os contatos aconteceram.
Derrite é um dos aliados de Flávio na campanha presidencial. No início de outubro, participou das articulações para o segundo turno e declarou apoio à candidatura do senador.
Houve acordo para impedir o impeachment de Moraes?
Não há confirmação de qualquer acordo nesse sentido.
Segundo a apuração do Metrópoles, interlocutores de Derrite negaram que o senador eleito ou Flávio Bolsonaro tenham assumido o compromisso de impedir um eventual processo de impeachment contra Alexandre de Moraes.
O tema é relevante porque integrantes do bolsonarismo defendem o afastamento do ministro e discutem a possibilidade de ampliar a pressão política sobre o Supremo a partir da próxima legislatura.
O próprio Derrite já se manifestou publicamente a favor do impeachment de Moraes, posição que mantém relevância diante de sua eleição para o Senado.
Flávio também voltou a defender o afastamento do ministro durante a campanha. Em 8 de outubro, após criticar uma decisão judicial envolvendo Eduardo Bolsonaro, o candidato afirmou que havia apoio de dezenas de senadores à proposta.
A aproximação relatada nesta quinta-feira, portanto, não significa uma mudança formal na posição política do grupo em relação ao ministro.
Decisões recentes de Moraes entram no contexto da articulação
A tentativa de diálogo acontece depois de decisões judiciais envolvendo integrantes do campo bolsonarista.
Na segunda-feira (12), Alexandre de Moraes autorizou Flávio Bolsonaro a retomar as visitas ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em Brasília.
A autorização ocorreu após o encerramento de uma suspensão de 90 dias. O ministro manteve, entretanto, restrições que impedem o uso dos encontros para atividades político-eleitorais e a divulgação de manifestações do ex-presidente.
Flávio voltou a visitar o pai na terça-feira (13).
A coluna de Igor Gadelha também mencionou decisões relacionadas à progressão de regime de Débora Rodrigues dos Santos, conhecida como Débora do Batom, e ao arquivamento de investigações envolvendo figuras ligadas ao bolsonarismo.
Esses episódios são citados na reportagem como parte do contexto político da aproximação. Não há, porém, comprovação de que as decisões tenham sido tomadas em consequência dos contatos relatados.
Relação entre Flávio Bolsonaro e STF é marcada por divergências
O contato representa uma mudança de abordagem em relação ao discurso de confronto adotado por integrantes do bolsonarismo nos últimos anos.
Alexandre de Moraes tem sido alvo frequente de críticas de Jair Bolsonaro, de seus familiares e de aliados políticos por sua atuação em investigações relacionadas a ataques às instituições, desinformação e à tentativa de golpe de Estado.
Durante a campanha presidencial, Flávio também questionou decisões judiciais e apresentou propostas de mudanças no funcionamento do Judiciário.
Em 7 de outubro, o candidato defendeu alterações constitucionais envolvendo o Supremo, incluindo restrições a decisões individuais de ministros e mudanças nas regras de acesso à Corte.
O posicionamento demonstra que a tentativa de estabelecer uma interlocução com Moraes não representa, necessariamente, o abandono das propostas de reforma do Judiciário defendidas pelo candidato.
Ao mesmo tempo, a busca por diálogo ocorre em um período no qual decisões judiciais relacionadas à propaganda eleitoral, à divulgação de conteúdos e ao cumprimento de determinações legais podem ter repercussão política.
O STF pode interferir no segundo turno das eleições?
O Supremo Tribunal Federal tem competência para analisar questões constitucionais e processos que estejam sob sua jurisdição. Já a organização e a fiscalização do processo eleitoral são atribuições da Justiça Eleitoral, especialmente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Durante as eleições, decisões judiciais podem atingir candidatos, partidos e campanhas quando houver questionamentos sobre o cumprimento da legislação.
Isso não significa que qualquer decisão judicial com repercussão eleitoral represente uma interferência indevida na disputa.
A expressão utilizada pelos aliados de Flávio reflete uma preocupação política relatada pela imprensa. A atuação legítima do Judiciário depende das competências previstas na Constituição, das provas apresentadas e das regras processuais aplicáveis.
Não há indicação de que o contato relatado tenha alterado essas atribuições ou produzido algum entendimento formal entre a campanha e o STF.
O que acontece agora?
A articulação ocorre a dez dias do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro.
Até o momento, não foi divulgado um posicionamento oficial de Alexandre de Moraes confirmando o teor da sondagem relatada pelo Metrópoles. Também não há anúncio de acordo entre o ministro e a campanha de Flávio Bolsonaro.
O episódio evidencia uma tentativa de diálogo institucional em meio às divergências entre o bolsonarismo e o Supremo.
O principal ponto ainda sem esclarecimento público é o alcance da interlocução: a reportagem confirma relatos sobre contatos indiretos, mas não demonstra que tenha ocorrido uma negociação formal ou que decisões futuras da Corte tenham sido objeto de compromisso político.