A proposta de acabar com a escala de trabalho 6×1 pode trazer mais tempo livre aos trabalhadores, mas também elevar custos para empresas, pressionar preços e não garantir uma melhora efetiva na qualidade de vida. Essa foi uma das principais preocupações apresentadas pela economista Juliana Inhasz, doutora em Economia pela Universidade de São Paulo (USP), e pelo advogado trabalhista e empresarial Eli Alves da Silva, durante entrevista ao NC News Acontece nesta quinta-feira (15).
Os especialistas analisaram os possíveis efeitos da redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem diminuição dos salários, após a aprovação da proposta pelo Senado. Na avaliação dos entrevistados, o impacto dependerá da capacidade de adaptação de cada setor econômico e das condições financeiras dos próprios trabalhadores.
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Juliana Inhasz afirmou que a redução da jornada atende a uma demanda social legítima, especialmente pela necessidade de descanso e convivência familiar. No entanto, ressaltou que o comércio, o varejo e a indústria podem enfrentar dificuldades para manter o mesmo nível de atividade com menos horas trabalhadas.
Segundo a economista, empresas que não conseguirem compensar a redução da jornada com ganhos de produtividade poderão precisar contratar mais funcionários ou absorver custos adicionais.
“A partir do momento em que você vai diminuir as jornadas sem reduzir os salários, esse trabalhador que antes trabalhava 44 vai passar a trabalhar 42, depois vai trabalhar 40 horas semanais”, explicou.
Juliana destacou que os efeitos não serão iguais para todos os setores. Enquanto algumas empresas poderão reorganizar suas atividades e produzir a mesma quantidade em menos tempo, outras poderão enfrentar aumento de despesas e repassar parte desses custos aos consumidores.
“Em alguns setores, a gente vai conseguir ter esse resultado. E, eventualmente, até ganhos de produtividade. Pessoas vão conseguir produzir mais. Em outros, não. E, nesses em que a gente não conseguir ter esse ganho de produtividade, os preços vão poder subir”, afirmou.
Trabalhador pode usar folgas para complementar a renda
Outro ponto levantado durante a entrevista foi a possibilidade de trabalhadores utilizarem os dias adicionais de descanso para exercer outras atividades remuneradas, em vez de aproveitar o tempo livre com a família.
O advogado Eli Alves da Silva relatou conversas com funcionários de supermercados que consideravam procurar outro trabalho caso passassem a ter mais dias de folga.
“Agora eu vou trabalhar em outro lugar para trabalhar mais um dia ou dois e aumentar minha renda”, relatou o advogado, ao reproduzir o que ouviu desses trabalhadores.
Para Eli, a discussão sobre qualidade de vida precisa considerar o nível dos salários no Brasil. Ele argumentou que a redução do tempo de trabalho, isoladamente, não resolve a dificuldade financeira de quem depende de uma renda complementar.
“Uma coisa é o Brasil real e a outra coisa é o Brasil legal”, resumiu.
Juliana concordou com a preocupação e afirmou que o problema estrutural está relacionado à baixa produtividade da economia e à renda insuficiente de parte da população.
“A gente está fazendo um paliativo, a gente está tratando um sintoma do problema, de fato, e não o problema em si. O nosso problema é renda baixa que vem de baixa produtividade”, declarou.
Adaptação das empresas e segurança jurídica
Durante a entrevista, Eli Alves da Silva também abordou o período de adaptação previsto na proposta. Segundo a explicação apresentada pelo advogado, a mudança seria implementada gradualmente, com uma etapa inicial de 42 horas semanais antes da redução integral para 40 horas.
O especialista ressaltou que a transição exigirá reorganização de escalas, especialmente em atividades que precisam funcionar durante todos os dias da semana, como comércio, restaurantes, hospitais e transporte.
Ele também demonstrou preocupação com possíveis disputas jurídicas relacionadas à aplicação das novas regras e defendeu uma discussão mais aprofundada sobre os efeitos da proposta para empregadores e empregados.
Na avaliação de Juliana, seria necessário considerar as diferenças entre os setores produtivos para evitar que uma regra uniforme provoque impactos desproporcionais.
“O ideal teria sido discutir melhor essas propostas. É pensar em formas de levar em conta as grandes diferenças que os setores têm”, afirmou.
Redução da jornada não significa mudança imediata
Os especialistas destacaram que a aprovação da proposta no Senado não representa uma alteração imediata na rotina dos trabalhadores. A aplicação das novas regras depende das etapas legislativas e das condições previstas no texto definitivo.
Juliana alertou que a população não deve interpretar a votação como uma mudança automática na semana de trabalho.
“Ninguém vai deixar de trabalhar 44 horas na próxima semana, esse é um fato”, afirmou.
O debate no NC News Acontece evidenciou dois desafios que devem acompanhar a discussão sobre o fim da escala 6×1: assegurar melhores condições de trabalho e descanso sem desconsiderar os efeitos econômicos da mudança sobre empresas, preços e renda das famílias.