A sala de aula, espaço de aprendizado e formação, também se tornou um ambiente de medo para muitos professores brasileiros. Ameaças, xingamentos, intimidações e agressões físicas fazem parte da rotina de educadores e afetam a segurança e a saúde emocional dos profissionais.
Uma pesquisa do Centro do Professorado Paulista (CPP), realizada em 2025 com 1.144 professores, mostra a dimensão do problema: 65% dos entrevistados afirmaram já ter sofrido algum tipo de agressão no ambiente escolar. Além disso, 74% disseram não se sentir seguros em sala de aula.
A violência verbal é a mais frequente, responsável por 71% dos relatos de agressão, seguida pela violência psicológica e moral, com 58%. Os entrevistados também mencionaram violência institucional e física.
O cenário é reforçado por dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em levantamento de 2024, 47% dos professores brasileiros afirmaram que a intimidação ou o abuso verbal por parte dos alunos é uma fonte importante de estresse. A média internacional é de 18%.
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Diretor relata humilhação ao tentar impedir agressão
A violência contra educadores não se resume a episódios de agressão física. O diretor de uma escola pública, identificado como Antônio, relata ter sido alvo de ofensas na semana passada, quando tentou intervir em um conflito entre estudantes.
Segundo ele, nove alunos do ensino médio estavam prestes a agredir um estudante do nono ano do ensino fundamental. O diretor interveio com a ajuda do pai de outro aluno, que aguardava a filha na saída da escola.
Durante a tentativa de conter os estudantes mais agitados, Antônio afirma ter sido abordado aos gritos por um dos envolvidos, que repetiu palavrões diante de outras pessoas.
“Falou várias vezes, várias vezes, para todo mundo ouvir, uma coisa desmoralizante”, relatou.
O diretor afirma que ficou extremamente abalado com o episódio e diz que o estudante já tinha histórico de agressividade contra outros alunos e funcionários da unidade.
Antônio também cita outros casos de violência que presenciou ou dos quais tomou conhecimento ao longo da carreira, incluindo o de um professor que sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) em meio a um quadro de estresse e o de outro educador que teve o braço quebrado por um aluno.
“Não está nada fácil ser professor no estado de São Paulo”, afirmou.
Intimidação também afeta o ensino
A violência contra professores pode ter consequências que vão além do sofrimento individual. Um levantamento de 2025 do Observatório Nacional da Violência contra Educadoras e Educadores, vinculado à Universidade Federal Fluminense (UFF), ouviu 3.012 profissionais de diferentes níveis de ensino.
Segundo o estudo, nove em cada dez educadores tiveram contato direto ou indireto com situações de perseguição, intimidação ou censura. Entre os entrevistados, 58% relataram tentativas de intimidação, enquanto 41% disseram ter enfrentado questionamentos agressivos sobre seus métodos de trabalho.
A pesquisa também identificou situações em que professores foram orientados a evitar determinados assuntos em sala de aula. O receio de represálias pode comprometer a liberdade de ensinar e limitar o acesso dos estudantes a diferentes conhecimentos e perspectivas.
Diretor cobra políticas públicas e autonomia das escolas
Para Antônio, o enfrentamento da violência exige ações em diferentes frentes. Ele defende maior participação das famílias na formação dos jovens e mais autonomia para que as escolas construam estratégias de prevenção com os próprios estudantes e a comunidade.
Entre as medidas sugeridas estão atividades culturais, teatro, música e iniciativas interativas capazes de fortalecer os vínculos entre alunos, professores e funcionários.
O diretor também critica a falta de políticas públicas voltadas a esse objetivo e alerta para o desgaste dos profissionais diante de situações recorrentes de indisciplina, ofensas e assédio moral.
No âmbito federal, o Ministério da Educação instituiu, em 2026, a Política Nacional de Educação em Direitos Humanos nas Instituições de Ensino, que inclui medidas de proteção e defesa dos profissionais da educação.
O desafio, porém, está em transformar as diretrizes em ações efetivas nas escolas, com acolhimento aos educadores, canais de denúncia e mecanismos de prevenção. A violência compromete não apenas a segurança de quem ensina, mas também o ambiente necessário para que os estudantes aprendam.