“Não temos saída”: moradores denunciam internet controlada pelo tráfico no Rio

Criminosos são acusados de impedir a atuação de operadoras, impor provedores e cobrar até R$ 154 por planos de internet; Polícia Federal investiga esquema ligado ao Comando Vermelho.
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Moradores de comunidades do Rio de Janeiro denunciam que estão sendo obrigados a contratar serviços de internet controlados pelo tráfico de drogas, sem possibilidade de escolher outra operadora. Relatos divulgados nesta terça-feira (20) mostram que criminosos cortam cabos de empresas concorrentes, impedem reparos e impõem provedores autorizados por facções. Em algumas regiões, os clientes pagam até R$ 154 por mês e enfrentam interrupções frequentes no serviço.

No Engenho da Rainha, na Zona Norte do Rio, um comerciante contou ao RJ1, da TV Globo, que operadoras tradicionais foram expulsas da região após ataques às estruturas de distribuição. Segundo ele, moradores passaram a depender de uma empresa chamada Oliver Net, apontada no relato como ligada ao tráfico, mas estão há mais de um mês sem conexão e não conseguem atendimento.

As denúncias surgem um dia depois de a Polícia Federal deflagrar a Operação Backbone, que investiga um esquema de exploração ilegal da internet pelo Comando Vermelho. A investigação aponta que o controle dos provedores se tornou uma importante fonte de arrecadação para a organização criminosa.

LEIA MAIS:

PF mira “internet do tráfico” no Rio e bloqueio de até R$ 558 milhões

Moradores relatam ameaças e falta de opção para contratar internet

No Engenho da Rainha, um comerciante relatou que empresas regularizadas deixaram de atender a região depois que criminosos passaram a destruir a infraestrutura das operadoras.

Segundo ele, os ataques incluem o corte de fios instalados nos postes, o que dificulta a manutenção dos serviços e impede que os moradores continuem utilizando empresas tradicionais.

“Antes a gente tinha a Claro, tinha várias outras operadoras que prestam serviço de internet e telefonia regularizadas. Essas operadoras foram boicotadas pelo tráfico. Eles vão nos postes, cortam as fiações, até as operadoras pararem de vir aqui fazer manutenção”, contou o comerciante ao RJ1.

O morador afirmou que a população passou a depender de um único provedor, mesmo diante de problemas na qualidade do serviço.

“Hoje a gente é obrigado a assinar uma internet chamada Oliver Net, a famosa internet do tráfico. E a gente não tem saída. Mas já faz mais de um mês que essa internet simplesmente parou de funcionar e a gente não tem para onde recorrer”, relatou.

Os moradores ouvidos pela reportagem preferiram não se identificar por medo de represálias.

Em vários bairros do RJ o tráfico de drogas assumiu o controle da oferta de internet

Planos chegam a R$ 154 e moradores denunciam cobranças extras

Em Benfica, também na Zona Norte, moradores relatam que os planos de internet custam entre R$ 104 e R$ 154, dependendo da velocidade contratada.

Além da mensalidade, há cobrança de multa de R$ 20 em caso de atraso no pagamento. Segundo os relatos, também são cobrados valores adicionais por instalação, substituição de equipamentos e manutenção.

Um morador afirmou que os consumidores perderam o direito de escolher a empresa responsável pelo fornecimento da conexão.

“Você não tem mais o direito de pedir uma internet de uma operadora legalizada. Só a operadora deles. Eles cobram para instalar o roteador, para trocar o equipamento e até para fazer manutenção. Tudo é cobrado”, denunciou.

A situação também foi relatada em Itaboraí, na Região Metropolitana do Rio, especialmente nos bairros São Joaquim e Três Pontes.

Um morador contou que sua mensalidade passou de R$ 70 para R$ 120, apesar de considerar a qualidade da conexão insatisfatória.

“Eu pagava R$ 70 de internet. Hoje pago R$ 120 por uma internet ruim. E se eu não contratar essa, não posso colocar nenhuma outra”, afirmou.

PF investiga esquema que movimentaria milhões com internet

A Operação Backbone, deflagrada pela Polícia Federal na segunda-feira (19), investiga a atuação do Comando Vermelho no controle do fornecimento de internet em comunidades dos complexos do Alemão, da Penha e do Chapadão.

Segundo a PF, integrantes armados da facção destruíam equipamentos, incendiavam caixas de distribuição e impediam funcionários de empresas concorrentes de realizar reparos.

Com as operadoras regulares afastadas, moradores e comerciantes ficavam pressionados a contratar os provedores autorizados pela organização criminosa.

As empresas que recebiam permissão para atuar nessas áreas também seriam obrigadas a pagar uma taxa mensal à facção.

A investigação identificou que, em determinado mês, os pagamentos relacionados à exploração da internet representaram mais de 40% da arrecadação do Comando Vermelho no Complexo da Penha.

Para os investigadores, o esquema transformou um serviço essencial em uma fonte de financiamento do crime organizado, ampliando também o interesse das facções pelo controle de novos territórios.

Operação prevê bloqueio de até R$ 558 milhões

A Polícia Federal deflagrou a Operação Backbone para cumprir 23 mandados de prisão preventiva e 24 de busca e apreensão, expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

A Justiça também autorizou o bloqueio de bens e valores de até R$ 558 milhões, envolvendo 40 pessoas físicas e 42 empresas investigadas. O montante representa o limite autorizado judicialmente, não o valor efetivamente apreendido.

Entre os presos estão Márcia Gama dos Santos Nepomuceno e Lucas Santos Nepomuceno, mãe e irmão do rapper Oruam. Ambos são investigados por suspeita de participação na estrutura financeira ligada ao esquema.

As investigações também apuram suspeitas de lavagem de dinheiro por meio de empresas, produtoras de eventos, imóveis de alto padrão e operações com criptoativos.

Polícia realiza operação na Vila Kennedy

Nesta terça-feira (20), a Polícia Militar realizou uma operação na Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, região sob influência do Comando Vermelho.

Além do combate ao tráfico de drogas e ao roubo de veículos, a ação teve como um dos objetivos reprimir a exploração irregular de serviços de internet na comunidade.

A Polícia Militar informou que mantém policiamento nas regiões mencionadas nas denúncias e realiza prisões quando identifica suspeitos em atividades criminosas.

A corporação também explicou que o monopólio ilegal de internet costuma funcionar de maneira discreta, o que exige investigação para identificar os responsáveis.

O que dizem as autoridades e as operadoras?

A Conexis Brasil, entidade que representa empresas de telecomunicações, afirmou que as restrições de acesso a determinadas comunidades dificultam a instalação e a manutenção dos equipamentos.

Segundo a associação, a presença de grupos criminosos também coloca em risco a segurança dos profissionais responsáveis pelos serviços.

A Polícia Civil informou que investiga organizações criminosas e milícias envolvidas na exploração irregular de provedores, com ações voltadas à identificação de lideranças, estruturas financeiras e práticas de extorsão.

As autoridades orientam que vítimas registrem ocorrências para auxiliar na identificação dos responsáveis.

Próximos passos

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) deverá avaliar medidas administrativas contra empresas investigadas, incluindo a possível cassação de autorizações e a interdição de serviços irregulares.

A Polícia Federal informou que deverão ser adotadas providências para evitar que os moradores das comunidades afetadas fiquem sem acesso à internet durante o cumprimento das decisões judiciais.

As investigações continuam para identificar todos os envolvidos, esclarecer a movimentação financeira do esquema e combater a imposição de provedores ligados a organizações criminosas.

Carregar Comentários