O advogado Willer Tomaz, amigo do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), entrou na Justiça do Distrito Federal para tentar impedir que o atacante Richarlison, do Tottenham e da seleção brasileira, publique novos conteúdos sobre uma disputa envolvendo uma ilha em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. O pedido inclui a aplicação de multas de R$ 50 mil por publicação, além de uma indenização de R$ 200 mil por danos morais. As informações foram reveladas pelo UOL nesta quarta-feira (21).
A ação foi apresentada em 29 de julho pelo advogado e por sua empresa, WT Administração de Bens e Imóveis. Em 13 de agosto, a Justiça rejeitou o pedido de urgência para restringir as manifestações do jogador. Na decisão, o magistrado alertou para o risco de censura prévia, já que a solicitação pretendia alcançar conteúdos futuros, ainda não publicados. Apesar da negativa, o processo continua em tramitação.
A disputa envolve os direitos de ocupação de um imóvel de luxo localizado na Ilha Comprida, em Angra dos Reis. Richarlison afirma ter investido aproximadamente R$ 10 milhões na propriedade e acusa Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz de terem se beneficiado de uma manobra judicial que resultou na perda da posse. O senador nega envolvimento com o imóvel, enquanto o advogado sustenta que sua empresa adquiriu os direitos de maneira regular.
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Na ação apresentada ao Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), Willer Tomaz solicita uma medida judicial conhecida como tutela inibitória. Esse instrumento permite que a Justiça determine a interrupção ou prevenção de determinadas condutas consideradas ilícitas.
No caso de Richarlison, o advogado pretende impedir que o jogador publique, compartilhe, republique ou comente conteúdos que afirmem ou sugiram que a propriedade de Angra dos Reis tenha sido tomada de maneira irregular.
A solicitação não se limita às publicações já realizadas. O pedido busca alcançar futuras manifestações do atleta em diferentes redes sociais, independentemente do formato utilizado.
Tomaz também pede a aplicação de multa mínima de R$ 50 mil por publicação que eventualmente descumpra a ordem judicial solicitada, além de outros R$ 50 mil por dia em que o conteúdo permanecer disponível.
Além das penalidades financeiras relacionadas às postagens, o advogado solicita uma indenização de R$ 200 mil por danos morais.
Na argumentação apresentada ao tribunal, a defesa de Tomaz sustenta que as manifestações de Richarlison divulgam informações falsas sobre a disputa e provocam danos à reputação do advogado.

Justiça rejeita pedido e alerta para risco de censura prévia
Ao analisar a solicitação de urgência, o juiz Giordano Resende Costa considerou que uma ordem destinada a impedir publicações futuras e ainda não determinadas poderia representar uma restrição indevida à liberdade de expressão.
O magistrado observou que a Constituição Federal protege a manifestação do pensamento e estabelece limites à censura prévia.
Na decisão, o juiz afirmou que o pedido de proibição de conteúdos futuros “aproxima-se perigosamente da restrição prévia à manifestação do pensamento”.
O entendimento apresentado distingue a possibilidade de responsabilização por manifestações consideradas ilegais da imposição de uma proibição genérica antes mesmo da publicação de novos conteúdos.
Isso significa que eventuais alegações de ofensa à honra, divulgação de informações falsas ou danos à imagem podem ser examinadas judicialmente, mas não justificam automaticamente uma ordem ampla de silêncio sobre fatos ainda em discussão.
A decisão rejeitou a concessão imediata da medida solicitada. O mérito da ação, incluindo os pedidos de indenização, ainda poderá ser analisado no decorrer do processo.
Juiz questiona tentativa de proteger interesses de Flávio Bolsonaro
Outro ponto destacado na decisão judicial envolve a presença do nome de Flávio Bolsonaro nas manifestações questionadas por Willer Tomaz.
Segundo a reportagem do UOL, o magistrado observou que parte relevante dos conteúdos apresentados no processo se concentra na associação do senador à disputa pelo imóvel.
Diante disso, o juiz levantou a questão de saber se a ação estaria sendo utilizada para defender interesses de uma terceira pessoa, e não apenas os direitos do próprio advogado.
O Código de Processo Civil estabelece limites para que alguém reivindique, em nome próprio, direitos pertencentes a terceiros, salvo nas situações autorizadas pela legislação.
O questionamento feito pelo magistrado não representa uma conclusão de que Flávio Bolsonaro tenha participado da ação ou solicitado a restrição das publicações.
Também não significa que o senador tenha cometido alguma irregularidade na disputa pela propriedade. Trata-se de uma questão jurídica levantada durante a análise do pedido apresentado por Tomaz.
Richarlison afirma ter perdido R$ 10 milhões na disputa
A controvérsia começou após uma negociação envolvendo um imóvel de alto padrão na Ilha Comprida, em Angra dos Reis, durante a pandemia de Covid-19.
Richarlison afirma que participou da aquisição de direitos sobre a propriedade entre 2020 e 2021, ao lado de parceiros comerciais, incluindo seu então empresário Renato Velasco.
Segundo o jogador, o investimento total chegou a aproximadamente R$ 10 milhões. Ele sustenta que perdeu o acesso ao imóvel e que não recebeu o dinheiro de volta.
O atacante também afirma que Flávio Bolsonaro demonstrou interesse em comprar a propriedade, mas que a proposta não foi aceita.
Na versão apresentada por Richarlison, uma sequência de decisões judiciais teria permitido que a empresa ligada a Willer Tomaz obtivesse a posse do imóvel.
Em vídeo divulgado no sábado (17), o jogador voltou a relatar o episódio e acusou o senador e o advogado de terem se beneficiado da situação.
“Eu não quis vender a ilha para ele. Como não quis, os caras pegaram na mão grande lá na Justiça”, declarou Richarlison.
O atleta também pediu publicamente que a Polícia Federal investigue as circunstâncias da disputa.
As declarações representam a versão do jogador e não constituem comprovação de fraude, interferência política ou prática de crime pelos envolvidos.
Publicações de Richarlison motivaram ação judicial
Antes de publicar um vídeo diretamente em seu perfil, Richarlison já havia se manifestado sobre a disputa em comentários feitos em publicações de outras pessoas nas redes sociais.
Uma dessas manifestações ocorreu em 1º de julho, quando o jogador comentou uma publicação de uma advogada sobre o caso.
Na ocasião, o atacante afirmou ter investido aproximadamente R$ 10 milhões na propriedade e disse que continuava sem recuperar o dinheiro.
Segundo o UOL, Willer Tomaz também questionou uma interação do jogador em uma publicação do deputado federal Marcelo Freixo (PT-RJ), relacionada a outro episódio envolvendo o advogado.
Essas manifestações foram utilizadas na ação judicial como parte da argumentação de que Richarlison estaria divulgando conteúdos prejudiciais à imagem de Tomaz.
Em setembro, o advogado acrescentou novos documentos ao processo, incluindo outras manifestações do atleta relacionadas à propriedade.
O tribunal tentou notificar Richarlison naquele mês, mas a tentativa não teve sucesso, conforme a reportagem.
Procurado pelo UOL, o jogador afirmou que não tinha conhecimento da existência da ação até ser informado pela reportagem.
O que diz Willer Tomaz sobre as acusações?
Willer Tomaz nega que a ação judicial tenha como objetivo impedir Richarlison de se manifestar livremente sobre qualquer assunto.
Segundo o advogado, a intenção é interromper a divulgação de informações que ele considera falsas a respeito da negociação e dos direitos sobre o imóvel em Angra dos Reis.
Tomaz afirma que sua empresa adquiriu regularmente os direitos de ocupação da área e que a disputa já foi examinada em diferentes instâncias judiciais.
O advogado também sustenta que Richarlison não figurou pessoalmente como parte no processo judicial referente à propriedade e questiona a documentação relacionada aos investimentos alegados pelo jogador.
Após a divulgação do vídeo, Tomaz desafiou o atacante a apresentar documentos anteriores a julho de 2022 que comprovassem sua ligação com o imóvel, acompanhados dos comprovantes do valor que afirma ter pago.
O advogado declarou que, caso os documentos comprovassem os direitos alegados, estaria disposto a transferir ao jogador os direitos sobre o bem sem cobrança.

Flávio Bolsonaro nega envolvimento com a ilha
O senador Flávio Bolsonaro nega ter participado de qualquer negociação irregular envolvendo o imóvel de Angra dos Reis.
Em manifestação anterior, sua assessoria afirmou que o parlamentar não comprou, vendeu ou intermediou a propriedade e que não possui vínculo com o imóvel.
A defesa do senador sustenta que seu nome apareceu no processo apenas porque foi indicado como testemunha por uma empresa ligada ao jogador.
Flávio e Willer Tomaz reconhecem publicamente que mantêm uma relação de amizade, mas negam que essa proximidade represente participação irregular do parlamentar na disputa.
Até o momento, as informações disponíveis não demonstram que Flávio Bolsonaro seja proprietário do imóvel ou que tenha sido condenado por qualquer irregularidade relacionada à disputa.

Disputa pela posse chegou ao Superior Tribunal de Justiça
O conflito sobre a propriedade não começou com as manifestações recentes de Richarlison nas redes sociais.
A disputa judicial envolve empresas que reivindicaram direitos de ocupação sobre o imóvel localizado na Ilha Comprida.
Em 2023, a Sport 70 Intermediação de Negócios, ligada ao ex-empresário do jogador, apresentou uma ação contra a empresa de Willer Tomaz para discutir os direitos relacionados à propriedade.
O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro proferiu decisão favorável à empresa de Tomaz. Posteriormente, a controvérsia chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Em maio de 2025, o STJ manteve o entendimento favorável à empresa do advogado, segundo as informações divulgadas sobre o processo.
No fim de 2025, a Sport 70 desistiu das reivindicações apresentadas na ação, que acabou sendo extinta.
O histórico judicial é utilizado por Tomaz para sustentar a regularidade da posse. Richarlison, por outro lado, continua questionando publicamente as circunstâncias em que perdeu o imóvel e o investimento que afirma ter realizado.
É importante distinguir a posse e os direitos de ocupação da propriedade formal do terreno, especialmente em áreas que podem envolver direitos administrados pela União.
Caso também foi levado ao Ministério Público Federal
Após a repercussão das declarações de Richarlison, um coletivo de advogados apresentou uma representação ao Ministério Público Federal (MPF), solicitando a análise das circunstâncias da disputa pelo imóvel.
O documento levanta suspeitas relacionadas à possível utilização de influência ou de mecanismos administrativos em benefício de interesses particulares.
Entre os nomes associados à iniciativa estão juristas que defendem o esclarecimento das decisões e dos procedimentos relacionados à propriedade.
A apresentação da representação não significa que as suspeitas tenham sido comprovadas nem que exista uma condenação criminal dos citados.
Caberá aos órgãos competentes avaliar a documentação apresentada e decidir se existem elementos suficientes para a adoção de novas providências.
O que pode acontecer agora?
A ação apresentada por Willer Tomaz contra Richarlison continua em tramitação no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios.
Embora a Justiça tenha rejeitado a restrição imediata às publicações, os pedidos formulados pelo advogado ainda poderão ser examinados durante o andamento do processo.
O tribunal deverá avaliar as alegações de danos à imagem, os conteúdos apresentados pelas partes e os limites legais para eventual responsabilização por manifestações feitas nas redes sociais.
Paralelamente, a disputa sobre o imóvel poderá continuar gerando novos questionamentos caso sejam apresentados documentos ou informações ainda não analisados pelas autoridades.
Por enquanto, a principal decisão conhecida no processo contra Richarlison é a negativa do pedido urgente para impedir novas publicações. A controvérsia sobre a propriedade permanece marcada por versões divergentes do jogador e do advogado, enquanto Flávio Bolsonaro nega qualquer participação irregular no episódio.