PF encontra sala secreta em hangar de amigo de Flávio Bolsonaro e aponta pagamento para apagar notícias

Investigadores localizaram máquina de contar dinheiro e malas em compartimento oculto de hangar usado por empresas de Willer Tomaz; mensagens também indicam contratação de serviço para retirar da internet referências à relação do advogado com o candidato à Presidência
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

A Polícia Federal (PF) identificou uma sala reservada, equipada com uma máquina de contar dinheiro, em um hangar utilizado por empresas do advogado Willer Tomaz, amigo do senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL). A descoberta ocorreu durante uma operação no Aeroporto Internacional de Brasília e ganhou novos detalhes nesta quarta-feira (21). Em outra frente de investigação, a PF também encontrou registros de pagamentos feitos pelo advogado para retirar da internet notícias que mencionavam sua relação com o parlamentar.

O compartimento estava escondido atrás de um painel de madeira e de uma porta metálica aparentemente blindada. No interior, os agentes encontraram malas vazias, prateleiras e equipamentos associados à contagem e ao armazenamento de dinheiro. Nenhuma quantia em espécie foi localizada na sala durante a inspeção.

As descobertas fazem parte de investigações que examinam suspeitas de lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio e movimentações financeiras envolvendo Willer Tomaz. O advogado nega irregularidades e afirma que a estrutura encontrada no hangar era utilizada em atividades legítimas de transporte de valores.

O advogado Willer Tomaz é investigado pela Polícia Federal em apurações sobre suspeitas de irregularidades financeiras — Foto: Divulgação/Willer Tomaz Advogados Associados.
LEIA TAMBÉM

Flávio Bolsonaro é alvo de 2º inquérito no STF

PF encontra sala escondida atrás de painel de madeira

A descoberta ocorreu durante diligências relacionadas à Operação Sem Desconto, que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio em um esquema que teria beneficiado o senador Weverton Rocha (PDT-MA).

Em 7 de agosto, policiais federais cumpriram mandados de busca e apreensão em hangares utilizados por empresas ligadas a Willer Tomaz no aeroporto de Brasília. Após a primeira vistoria, os investigadores receberam uma denúncia anônima sobre a existência de um compartimento que não havia sido localizado.

Os agentes retornaram ao endereço e identificaram alterações na estrutura de um dos ambientes. Atrás de um painel de madeira, encontraram uma porta metálica de grande porte, descrita no relatório policial como aparentemente blindada.

Dentro da sala havia divisórias internas, malas vazias e uma máquina destinada à contagem de cédulas. Segundo os investigadores, a organização do espaço era compatível com um ambiente preparado para guardar valores.

A PF, porém, não encontrou dinheiro em espécie no compartimento. A existência dos equipamentos, isoladamente, não comprova que o local tenha sido utilizado para armazenar recursos ilícitos.

 

Operação apreendeu quatro aeronaves ligadas ao advogado

Durante a operação, a Polícia Federal também apreendeu quatro aeronaves vinculadas a empresas de Willer Tomaz, entre aviões e helicópteros.

Os investigadores recolheram documentos relacionados às operações das empresas, incluindo registros de passageiros e diários de bordo. O objetivo é identificar usuários das aeronaves e verificar se os deslocamentos têm relação com os fatos investigados.

A apuração também busca esclarecer a possível utilização de estruturas empresariais e serviços de aviação para movimentação ou ocultação de patrimônio.

O material apreendido ainda depende de análise, e não há conclusão definitiva de que as aeronaves ou o compartimento encontrado tenham sido empregados em atividades criminosas.

 

PF aponta pagamento para retirar notícias sobre ligação com Flávio Bolsonaro

Outra descoberta divulgada nesta semana envolve mensagens e documentos que, segundo a Polícia Federal, mostram que Willer Tomaz contratou serviços para remover ou dificultar a localização de notícias que mencionavam sua relação com Flávio Bolsonaro.

De acordo com reportagem publicada pelo g1 na terça-feira (20), os investigadores identificaram a contratação de uma empresa chamada Seu Nome Novo de Novo, especializada em serviços relacionados à reputação digital.

Entre os conteúdos mencionados estavam reportagens sobre vínculos entre o advogado e o senador, uma disputa envolvendo uma mansão e encontros com representantes do setor de cassinos em Las Vegas.

A investigação aponta que o objetivo dos serviços era retirar links do alcance de pesquisas realizadas na internet ou impedir que determinadas notícias continuassem aparecendo em mecanismos de busca.

A contratação de serviços de reputação digital, por si só, não constitui crime. A relevância dos registros para a investigação depende do contexto, da finalidade dos pagamentos e de eventual relação com outras condutas apuradas.

Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz, investigado pela Polícia Federal, mantêm relação de amizade — Foto: Reprodução/Redes sociais.

Advogado afirma que buscou retirada de conteúdos desatualizados

Willer Tomaz contestou a interpretação apresentada sobre os serviços contratados.

Segundo sua versão, as medidas estavam relacionadas a pedidos judiciais direcionados ao Google para a exclusão de conteúdos considerados desatualizados dos resultados de pesquisa.

A defesa sustenta que o procedimento tinha fundamento no direito de questionar a exposição de informações antigas na internet e nega que a iniciativa represente tentativa de ocultar irregularidades.

O fato de uma notícia deixar de aparecer em um mecanismo de busca não significa necessariamente que tenha sido excluída do site responsável por sua publicação.

 

Qual é a ligação de Willer Tomaz com Flávio Bolsonaro?

Willer Tomaz mantém uma relação de proximidade pessoal com Flávio Bolsonaro, que disputa o segundo turno da eleição presidencial contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), marcado para domingo (25).

O advogado e o senador são citados em um inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, e investiga suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas relacionadas a empresas do setor de apostas.

A investigação teve origem na Justiça Federal do Rio Grande do Sul e foi encaminhada ao Supremo após o surgimento de informações envolvendo o parlamentar, que possui foro por prerrogativa de função.

Entre os elementos examinados pela PF estão registros de encontros, viagens e documentos bancários associados a estruturas empresariais ligadas ao advogado.

Os investigadores identificaram, por exemplo, informações sobre o cadastramento de Flávio como usuário master de uma conta bancária relacionada à empresa Alcazar Holdings, de propriedade de Willer Tomaz.

O significado desse registro e a eventual existência de movimentações financeiras vinculadas ao senador ainda são objetos de apuração. O documento, isoladamente, não comprova que Flávio tenha movimentado recursos ou participado de operações ilegais.

Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam a existência de vínculo financeiro ou societário entre eles.

Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz aparecem juntos durante viagem à África do Sul, em março de 2025 — Foto: Reprodução.

 

Movimentações em casas de apostas também são investigadas

As investigações envolvendo o advogado ganharam repercussão após a divulgação de informações sobre suas movimentações em plataformas de apostas esportivas.

Uma nota técnica do Ministério da Fazenda apontou que Willer Tomaz realizou operações que somaram aproximadamente R$ 5 bilhões em apostas ao longo de 2025.

O montante corresponde ao volume acumulado de apostas e pode incluir valores reutilizados em diferentes operações. Portanto, não significa que o advogado tenha desembolsado ou perdido R$ 5 bilhões.

Os órgãos de fiscalização também identificaram depósitos e saques de valores elevados em plataformas do setor, o que motivou questionamentos sobre a origem dos recursos e os mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro.

As suspeitas continuam sob investigação e não representam comprovação de crime.

O que diz a defesa de Willer Tomaz?

Em manifestação divulgada à imprensa, Willer Tomaz afirmou que a sala-cofre e os equipamentos encontrados no hangar integram a estrutura operacional de empresas de aviação que atendem clientes do setor de transporte de valores.

Segundo o advogado, a existência de ambientes protegidos, malas e máquinas contadoras de cédulas é compatível com esse tipo de serviço e não representa indício de irregularidade.

A defesa também destacou que os agentes não encontraram dinheiro no compartimento e rejeitou a hipótese de que o espaço fosse utilizado para guardar recursos de origem ilícita.

Em relação às investigações financeiras, Tomaz afirma que seus recursos têm origem lícita e contesta as suspeitas levantadas pelos investigadores.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, nega participação em movimentações financeiras irregulares e afirma não manter sociedade ou conta bancária conjunta com o advogado.

Investigações continuam no STF

A Polícia Federal ainda analisa documentos, registros de movimentações financeiras e materiais apreendidos nas operações envolvendo Willer Tomaz.

As apurações sobre a sala encontrada no hangar e sobre os serviços contratados para retirar notícias da internet surgiram em contextos investigativos distintos, embora envolvam o mesmo advogado.

No caso que menciona Flávio Bolsonaro, a investigação tramita no Supremo Tribunal Federal e busca esclarecer a natureza dos vínculos identificados pelos investigadores e a origem de movimentações financeiras consideradas suspeitas.

Até o momento, os elementos divulgados não representam uma condenação nem demonstram, por si só, que Flávio Bolsonaro tenha participado de eventuais irregularidades atribuídas ao advogado.

Polícia Federal analisa documentos e registros apreendidos em investigações que envolvem o advogado Willer Tomaz — Foto: Divulgação/Polícia Federal.
Carregar Comentários