Tharek Majide Bannout, apontado pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) como integrante de um esquema de lavagem de dinheiro investigado na Operação Carbono Oculto, recebeu auxílio emergencial do governo federal durante seis meses na pandemia de Covid-19. Segundo informações divulgadas nesta quinta-feira (29), o empresário aparece ligado a 14 empresas, entre padarias, postos de combustíveis e uma holding.
O investigado é apontado como sócio de Mohamad Hussein Mourad, conhecido como Primo, um dos principais alvos da operação. De acordo com a investigação, Tharek teria participado de mecanismos de ocultação de bens e blindagem patrimonial de uma organização suspeita de fraudes no setor de combustíveis.

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Investigado recebeu auxílio emergencial durante seis meses
O auxílio emergencial foi criado em 2020 para garantir renda a trabalhadores e famílias afetados pelas restrições econômicas provocadas pela pandemia. O programa tinha critérios de renda e elegibilidade, incluindo limitações relacionadas à atividade profissional e aos rendimentos dos beneficiários.
No caso de Tharek, a informação de que ele recebeu pagamentos durante seis meses chama a atenção por sua vinculação a um conjunto de 14 empresas. A reportagem que revelou o caso, porém, não detalha os valores recebidos, as datas exatas dos depósitos nem a situação cadastral de todas as empresas no momento da concessão do benefício.
Esses dados são importantes para determinar se houve alguma irregularidade específica no recebimento dos recursos. A condição de sócio de empresas, isoladamente, não comprova fraude no programa.
Quem é Tharek Majide Bannout?
Tharek é descrito pelos investigadores como uma pessoa próxima ao núcleo empresarial ligado a Primo e a Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco. Ambos são apontados pelo MPSP como personagens centrais da estrutura investigada na Operação Carbono Oculto.
A ligação familiar também aparece na apuração. A irmã de Tharek é casada com um advogado que é primo de Mohamad Mourad.
Segundo o Ministério Público, o empresário teria ajudado a dar aparência de regularidade a negócios utilizados pela organização investigada. Entre 2023 e 2024, ele passou a integrar o quadro societário de pelo menos sete postos de combustíveis em São Paulo.
Tharek também aparece associado a uma empresa que, conforme a acusação, teria sido utilizada para ocultar veículos empregados nas atividades das usinas do Grupo Itajobi, incluindo o transporte de cana-de-açúcar e etanol.
Investigação aponta uso de padarias com vários CNPJs
Outro ponto investigado é a utilização de diferentes empresas no mesmo endereço comercial. A prática foi identificada em estabelecimentos associados ao grupo, incluindo padarias na capital paulista.
Em uma das situações descritas na apuração, duas empresas operavam no endereço da Padaria Iracema. Posteriormente, foi identificado um terceiro CNPJ relacionado ao mesmo estabelecimento.
Durante compras realizadas no local, foram emitidos comprovantes fiscais com registros empresariais diferentes, apesar de as transações ocorrerem no mesmo comércio.
Segundo os investigadores, estruturas desse tipo podem ser usadas para dificultar a identificação dos responsáveis pelas receitas e pelo patrimônio de uma atividade econômica.
Como funcionaria o esquema de empresas-espelho?
O mecanismo descrito na investigação é conhecido como uso de empresas-espelho. Nele, diferentes pessoas jurídicas são registradas para operar atividades semelhantes ou no mesmo endereço.
De acordo com a apuração, a suspeita é de que a estrutura permitisse transferir o faturamento entre empresas quando uma delas acumulava débitos tributários ou passava a enfrentar fiscalização.
Esse tipo de organização também poderia dificultar o rastreamento dos recursos e a identificação de quem efetivamente controlava os negócios.
A existência de mais de um CNPJ em determinado endereço, por si só, não configura crime. No caso investigado, o Ministério Público analisa o conjunto das movimentações empresariais e financeiras para apurar possíveis fraudes.
Qual é a ligação com a Operação Carbono Oculto?
A Operação Carbono Oculto foi deflagrada em agosto de 2025 para investigar suspeitas de lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, adulteração de combustíveis e ocultação patrimonial.
As autoridades identificaram uma rede de empresas que abrangia postos de combustíveis, distribuidoras, usinas, fundos de investimento e instituições financeiras.
Segundo os investigadores, a estrutura empresarial também teria sido utilizada para movimentar recursos associados ao Primeiro Comando da Capital (PCC). As relações atribuídas aos investigados com a facção são contestadas pelas defesas.
Mohamad Mourad e Beto Louco foram denunciados pelo Ministério Público em setembro de 2026 por lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. Ambos permanecem foragidos, segundo as informações divulgadas nesta semana.
Esquema investigado teria movimentado R$ 54 bilhões
As investigações estimam que a rede empresarial associada aos principais alvos da Carbono Oculto movimentou aproximadamente R$ 54 bilhões entre 2019 e 2024.
Desse montante, ao menos R$ 8,4 bilhões são relacionados pelos investigadores a suspeitas de fraudes fiscais e lavagem de dinheiro.
As apurações também identificaram a utilização de fundos de investimento e estruturas financeiras para dificultar a identificação dos beneficiários finais das operações.
A operação teve desdobramentos posteriores, com novas investigações sobre movimentações financeiras suspeitas e irregularidades em postos de combustíveis.
O que dizem as defesas dos investigados?
Na apuração divulgada nesta quinta-feira, a defesa de Tharek Majide Bannout foi procurada, mas preferiu não se manifestar.
Os advogados de Mohamad Hussein Mourad negam que ele tenha vínculos com o PCC e contestam as acusações apresentadas pelos investigadores.
A defesa de Roberto Augusto Leme da Silva também rejeita a associação de seu cliente à facção criminosa e afirma que pretende responder às acusações.
O recebimento do auxílio emergencial por Tharek é uma informação revelada no contexto das investigações, mas não equivale, por si só, a uma conclusão judicial de fraude no benefício.
As autoridades continuam apurando as movimentações financeiras e as relações empresariais dos investigados para determinar eventuais responsabilidades criminais.