A prótese peniana pode ajudar homens a recuperar a capacidade de ter ereções após a cirurgia de retirada da próstata, especialmente quando medicamentos e outros tratamentos não apresentam resultados satisfatórios. O procedimento é uma alternativa para pacientes que desenvolveram disfunção erétil grave após o tratamento do câncer de próstata, condição que pode afetar a vida sexual e o bem-estar emocional.

Um dos exemplos é o aposentado Antônio César Ramella, de 74 anos, que passou por uma cirurgia para retirar a próstata em 2019. Embora o tratamento tenha eliminado o tumor, ele perdeu a capacidade de ter ereções. Depois de seis anos tentando diferentes alternativas, decidiu colocar uma prótese peniana inflável, em maio de 2025. Em entrevista à Folha de S.Paulo, publicada nesta terça-feira (3), contou que o implante permitiu retomar sua vida sexual.
A discussão ganha importância durante o Novembro Azul, campanha de conscientização sobre a saúde masculina. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar 77.920 novos casos de câncer de próstata por ano entre 2026 e 2028. Além do tratamento da doença, especialistas destacam a importância de acompanhar possíveis consequências físicas e emocionais da cirurgia.
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Por que a cirurgia da próstata pode causar disfunção erétil?
A retirada completa da próstata, procedimento conhecido como prostatectomia radical, é uma das opções de tratamento para determinados casos de câncer de próstata.
Durante a operação, os médicos precisam trabalhar próximos aos nervos e vasos sanguíneos responsáveis pelo mecanismo da ereção. Essas estruturas podem sofrer lesões, mesmo quando a cirurgia é realizada com técnicas que procuram preservar a função sexual.
Segundo o urologista Gustavo Marquesine, coordenador do departamento de andrologia, reprodução e sexualidade da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), o comprometimento dos nervos pode ser temporário ou permanente.
Em alguns pacientes, a recuperação da ereção pode levar de seis meses a dois anos. Em outros, especialmente quando há lesões importantes, a função erétil não retorna espontaneamente.
As chances de recuperação dependem de diferentes fatores, incluindo idade, função sexual anterior ao tratamento, extensão do tumor, preservação dos nervos e presença de outras doenças.
As diretrizes da Associação Europeia de Urologia recomendam que os pacientes recebam orientações sobre as possíveis alterações sexuais antes do tratamento do câncer de próstata.
Como funciona a prótese peniana?
A prótese peniana é um dispositivo implantado cirurgicamente dentro dos corpos cavernosos, estruturas internas do pênis que normalmente se enchem de sangue durante uma ereção.
O implante permite obter rigidez suficiente para a relação sexual quando a ereção natural está comprometida.
Segundo a Sociedade Brasileira de Urologia, o procedimento é indicado principalmente para pacientes com disfunção erétil grave que não conseguem resultados satisfatórios com medicamentos ou outros métodos.
Existem dois modelos principais, que apresentam diferenças no funcionamento, na aparência e no custo.
Prótese maleável ou semirrígida: é formada por hastes implantadas dentro do pênis. O dispositivo mantém a região permanentemente rígida, mas permite ajustar manualmente sua posição para maior conforto no cotidiano.
Prótese inflável: utiliza cilindros internos conectados a um reservatório de líquido e a uma pequena bomba instalada na bolsa escrotal. O paciente aciona o mecanismo quando deseja obter uma ereção e pode desativá-lo posteriormente.
A versão inflável permite uma alternância entre rigidez e flacidez mais próxima do funcionamento natural, enquanto a maleável possui um mecanismo mais simples.
A escolha depende das condições de saúde, das características físicas, da capacidade de manusear o dispositivo e das preferências do paciente.
Quanto custa uma prótese peniana no Brasil?
Os valores variam conforme o tipo de dispositivo, o fabricante, o hospital e a equipe médica responsável pelo procedimento.
De acordo com informações apresentadas na reportagem da Folha de S.Paulo, os preços aproximados dos dispositivos são:
- Prótese maleável: cerca de R$ 10 mil.
- Prótese inflável: entre R$ 60 mil e R$ 80 mil.
Esses valores se referem aos dispositivos e não representam necessariamente o custo total do tratamento.
Além da prótese, o paciente pode precisar arcar com despesas hospitalares, anestesia, honorários médicos, exames e acompanhamento pós-operatório.
Os custos finais devem ser avaliados individualmente com a equipe responsável.

Plano de saúde é obrigado a cobrir a cirurgia?
A cobertura depende do modelo escolhido e das condições previstas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
De acordo com o Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde da ANS, o implante de prótese peniana semirrígida está entre os procedimentos com cobertura obrigatória nos planos que incluem assistência hospitalar, respeitadas as regras contratuais e regulatórias.
A prótese inflável não possui cobertura obrigatória específica no rol da ANS.
Isso não significa que todas as solicitações de prótese inflável sejam necessariamente negadas. A possibilidade de cobertura pode depender do contrato, da avaliação clínica e de outras condições legais.
Antes de iniciar o processo, o paciente deve consultar a operadora do plano, verificar a indicação médica e solicitar informações sobre os procedimentos autorizados.
Quando a prótese peniana é indicada?
Apesar de ajudar a recuperar a capacidade de ter ereções, o implante não costuma ser a primeira alternativa de tratamento.
Em geral, os médicos avaliam inicialmente outras opções, como medicamentos orais, dispositivos a vácuo e injeções intracavernosas, aplicadas diretamente no tecido erétil sob orientação especializada.
Esses tratamentos podem permitir a retomada da atividade sexual sem necessidade de cirurgia.
O implante passa a ser considerado quando as alternativas disponíveis não apresentam resultados satisfatórios, não podem ser utilizadas ou não são adequadas às necessidades do paciente.
O urologista Pedro Zandoná, especialista em andrologia, explicou à Folha que o procedimento não tem finalidade estética.
“A prótese não é para fins estéticos ou para melhorar a performance”.
Isso significa que o implante não é indicado para aumentar o tamanho do pênis ou melhorar o desempenho sexual de homens que possuem ereções normais.
A cirurgia também exige uma decisão cuidadosa porque modifica permanentemente os tecidos responsáveis pela ereção natural.
Quais são os riscos da cirurgia?
Como qualquer procedimento cirúrgico, a implantação de uma prótese peniana apresenta riscos.
Segundo a Mayo Clinic, instituição médica dos Estados Unidos, as possíveis complicações incluem infecções, sangramentos, problemas mecânicos no dispositivo e desgaste dos tecidos ao redor da prótese.
Em determinadas situações, pode ser necessária uma nova cirurgia para substituir ou retirar o implante.
Outro ponto importante é que a colocação da prótese altera de maneira irreversível estruturas envolvidas na ereção natural. Por isso, a retirada posterior do dispositivo não significa que o paciente conseguirá recuperar a função que tinha anteriormente.
A avaliação médica também considera doenças preexistentes, condições de cicatrização e possíveis infecções.
A decisão deve ocorrer depois de uma conversa detalhada sobre benefícios, limitações e riscos.
Como fica a vida sexual depois do implante?
A recuperação depende do tipo de prótese, da evolução da cicatrização e das condições individuais do paciente.
De maneira geral, a retomada das relações sexuais pode ser autorizada entre quatro e seis semanas após a cirurgia, conforme avaliação do urologista.
Durante esse período, é necessário seguir as orientações sobre higiene, uso de medicamentos, atividades físicas e manuseio do dispositivo.
A prótese permite obter rigidez, mas não aumenta automaticamente o desejo sexual e não recupera alterações de sensibilidade ou orgasmo que já existiam antes do implante.
No caso dos pacientes submetidos à retirada completa da próstata, a cirurgia oncológica também provoca alterações na ejaculação, já que a próstata e as vesículas seminais são removidas.
Por isso, a recuperação da ereção não significa necessariamente o retorno de todas as funções sexuais anteriores ao tratamento.
Ainda assim, para homens que convivem com disfunção erétil grave, o dispositivo pode representar uma melhora importante na intimidade e na qualidade de vida.
Novembro Azul reforça importância da saúde masculina
A discussão sobre a recuperação sexual depois do câncer de próstata ocorre durante o Novembro Azul, campanha que incentiva os homens a procurar atendimento médico e a acompanhar a própria saúde.
No Brasil, o câncer de próstata é o tipo de tumor mais frequente entre os homens quando os casos de câncer de pele não melanoma são desconsiderados.
O problema é que a doença pode evoluir sem apresentar sintomas em suas fases iniciais.
Entre os sintomas que merecem investigação estão dificuldade para urinar, presença de sangue na urina e alterações persistentes no funcionamento urinário. Essas manifestações também podem ter outras causas, e o diagnóstico depende de avaliação médica.
A decisão sobre exames de rastreamento em homens sem sintomas deve considerar idade, histórico familiar, fatores de risco e possíveis benefícios e prejuízos dos procedimentos.
A campanha também inclui ações para ampliar o acesso a consultas e exames. Em Feira de Santana, na Bahia, por exemplo, a rede municipal anunciou cerca de 5 mil vagas gratuitas para atendimentos relacionados à saúde masculina, conforme reportagem publicada pelo NC News.
Quando procurar um urologista após a cirurgia da próstata?
Homens que apresentam dificuldades para ter ou manter ereções depois do tratamento do câncer de próstata devem conversar com o urologista responsável pelo acompanhamento.
A avaliação permite identificar a intensidade da disfunção, verificar a possibilidade de recuperação dos nervos e discutir as alternativas disponíveis.
É importante que o paciente não interrompa tratamentos ou utilize medicamentos por conta própria.
Para aqueles que não conseguem recuperar a função erétil com as opções convencionais, a prótese peniana pode ser uma alternativa, desde que exista indicação médica.
O principal objetivo é permitir que o paciente, além de tratar o câncer, tenha acesso aos cuidados necessários para preservar sua saúde sexual, seu bem-estar e sua qualidade de vida.