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Governo prevê alta de até 40% nos casos de dengue e quer retomar vacina do Butantan

Ministério da Saúde teme avanço da doença com a chegada do El Niño; imunizante brasileiro está suspenso desde junho após registros de eventos adversos graves que continuam sob investigação.
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O Ministério da Saúde prevê que os casos de dengue no Brasil poderão aumentar entre 20% e 40% em 2027. A estimativa foi apresentada nesta quarta-feira (4) pelo ministro Alexandre Padilha, que também manifestou interesse em retomar a vacinação com o imunizante desenvolvido pelo Instituto Butantan. A aplicação da vacina está suspensa desde junho, após o registro de 42 episódios de reações adversas que motivaram uma investigação sobre sua segurança.

O possível crescimento das infecções está relacionado à influência do fenômeno climático El Niño, que pode favorecer condições para a proliferação do mosquito Aedes aegypti. Outro fator apontado pelo governo é o aumento da população suscetível aos diferentes sorotipos do vírus, depois de dois anos consecutivos de redução no número de casos.

Apesar da intenção de retomar a vacinação, ainda não existe uma data definida para que a Butantan-DV volte a ser aplicada pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A decisão dependerá dos resultados das análises conduzidas pelo Ministério da Saúde, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e por especialistas. Até lá, o governo mantém a utilização da vacina Qdenga, destinada a crianças e adolescentes de 10 a 14 anos na rede pública.

Ministério da Saúde suspende vacina da dengue do Butantan após registro de duas mortes

Dengue pode crescer até 40% no Brasil em 2027

A projeção apresentada pelo Ministério da Saúde indica que o próximo ano poderá registrar um aumento expressivo das infecções por dengue e outras arboviroses.

Segundo Alexandre Padilha, a combinação de fatores climáticos e epidemiológicos exige que estados e municípios reforcem antecipadamente as estratégias de prevenção.

O El Niño é um fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, capaz de alterar os padrões de temperatura e chuva em diferentes regiões do planeta.

No Brasil, essas mudanças podem favorecer a formação de ambientes propícios à reprodução do Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, da chikungunya e da zika.

O ministro também destacou que a redução das infecções nos últimos dois anos pode ter deixado mais pessoas suscetíveis a determinados sorotipos do vírus.

Isso ocorre porque a infecção por um sorotipo não garante proteção duradoura contra os outros três.

A estimativa de crescimento entre 20% e 40% representa uma projeção, e não uma confirmação de que o aumento ocorrerá nessa proporção.

Fiocruz aponta risco de crescimento ainda maior em algumas regiões

Estudos do sistema InfoDengue, desenvolvido com participação da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), reforçam a preocupação das autoridades sanitárias.

Um relatório divulgado no início de outubro estimou aproximadamente 1,5 milhão de casos prováveis de dengue em 2027, sem considerar os possíveis efeitos adicionais do El Niño.

Em um cenário de El Niño forte, os pesquisadores identificaram a possibilidade de aumentos expressivos na transmissão da doença, com diferenças importantes entre as regiões brasileiras.

No Sul, o crescimento projetado chega a 138,2%.

No Centro-Oeste, a estimativa é de aumento de 98,4%, enquanto o Sudeste poderia registrar avanço de 84,9%.

Para o Norte, o modelo aponta crescimento de 68,9%. Já no Nordeste, a projeção é de 49,1%.

Esses percentuais correspondem a um cenário específico de modelagem para o período entre setembro de 2026 e o início de 2027. Portanto, não representam previsões fechadas para todo o próximo ano.

A intensidade real da transmissão dependerá de fatores como as condições climáticas, a circulação dos diferentes sorotipos, a imunidade da população e a eficácia das medidas de combate ao mosquito.

Por que a vacina contra a dengue do Butantan foi suspensa?

A vacinação com a Butantan-DV foi interrompida preventivamente em 8 de junho de 2026, após o sistema de monitoramento identificar 42 registros de eventos adversos que exigiam investigação.

Entre os episódios estavam três ocorrências graves, incluindo duas mortes.

É importante destacar que a ocorrência desses problemas após a vacinação não comprova que tenham sido causados pelo imunizante.

O Ministério da Saúde e a Anvisa informaram que a suspensão foi adotada por precaução, para permitir uma avaliação aprofundada dos registros e identificar possíveis fatores de risco.

Até a interrupção da estratégia, aproximadamente 501 mil doses haviam sido administradas no país.

A vacinação contemplava profissionais da Atenção Primária à Saúde e moradores de localidades selecionadas para a aplicação inicial do imunizante.

Entre os municípios participantes estavam Botucatu, em São Paulo; Nova Lima, em Minas Gerais; e Maranguape, no Ceará, além da região de Araguaína, no Tocantins.

A decisão de suspender temporariamente a aplicação não cancelou automaticamente o registro sanitário da vacina nem significa que sua eficácia tenha sido invalidada.

Ministro quer retomar vacinação com imunizante brasileiro

Durante entrevista à imprensa nesta quarta-feira, Alexandre Padilha afirmou que o governo deseja voltar a utilizar a vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan.

O ministro explicou que as autoridades sanitárias continuam analisando os registros de eventos adversos e que qualquer decisão sobre o retorno dependerá das conclusões técnicas.

A intenção é que o imunizante possa voltar a integrar a estratégia nacional de combate à dengue em 2027, caso sua segurança seja considerada adequada para a população contemplada.

A Butantan-DV apresenta uma característica importante: o esquema de vacinação é realizado em dose única.

A vacina recebeu aprovação da Anvisa no fim de 2025 para pessoas de 12 a 59 anos.

Antes da suspensão, o Ministério da Saúde havia anunciado a aquisição de 3,9 milhões de doses, por aproximadamente R$ 367,9 milhões.

Também existiam planos de ampliar a produção para até 60 milhões de doses por meio de uma parceria internacional com a empresa chinesa WuXi Vaccines.

A fabricação nessa estrutura, entretanto, depende de autorizações regulatórias.

A retomada da vacinação não está confirmada e poderá ocorrer apenas depois das avaliações de segurança e de uma nova orientação das autoridades sanitárias.

Qdenga continua disponível pelo SUS

Enquanto a aplicação da Butantan-DV permanece suspensa, o Sistema Único de Saúde continua oferecendo a vacina Qdenga, produzida pela farmacêutica Takeda.

Atualmente, a estratégia nacional contempla crianças e adolescentes de 10 a 14 anos.

Diferentemente do imunizante do Butantan, a Qdenga exige duas doses, com intervalo de três meses.

O Ministério da Saúde informou que não está discutindo, neste momento, a ampliação da faixa etária atendida pela vacina no SUS.

O registro sanitário da Qdenga permite sua utilização em pessoas de 4 a 60 anos, mas a oferta pelo sistema público segue critérios próprios, definidos conforme as prioridades epidemiológicas e a disponibilidade de doses.

A suspensão da vacina do Butantan não afeta o uso da Qdenga.

Quem iniciou o esquema com a Qdenga deve seguir as orientações do serviço de saúde para receber a segunda dose no intervalo recomendado.

Brasil registra queda nos casos de dengue em 2026

A preocupação com 2027 surge depois de um período de redução no número de infecções.

Segundo dados do Ministério da Saúde consultados nesta quarta-feira, o Brasil acumula 489.197 casos prováveis de dengue em 2026.

Também foram registradas 368 mortes pela doença, além de outras 116 que permanecem sob investigação.

Os números são inferiores aos observados em anos anteriores, especialmente em 2024, quando o país enfrentou uma das maiores epidemias de dengue de sua história.

Naquele ano, o Ministério da Saúde registrou 6.321 mortes pela doença.

A redução observada em 2026, entretanto, não elimina o risco de novas epidemias.

A circulação de diferentes sorotipos, as condições ambientais e o aumento das temperaturas podem favorecer novos períodos de transmissão intensa.

Por isso, as autoridades defendem a manutenção das ações de vigilância, mesmo quando os indicadores apresentam queda.

Como se proteger da dengue antes do período de maior transmissão?

A principal medida de prevenção continua sendo o combate aos criadouros do mosquito Aedes aegypti.

O inseto utiliza recipientes com água parada para depositar seus ovos. Por isso, é importante eliminar objetos que possam acumular água e manter os reservatórios devidamente fechados.

Entre os cuidados recomendados estão limpar calhas, verificar ralos, manter caixas-d’água tampadas, descartar pneus e recipientes abandonados e evitar o acúmulo de água em vasos de plantas.

O uso de repelentes registrados na Anvisa, conforme as instruções do fabricante, também pode ajudar a reduzir o contato com o mosquito.

Os sintomas mais comuns da dengue incluem febre alta, dor de cabeça, dores musculares, dor atrás dos olhos, náuseas e manchas vermelhas na pele.

Sinais como dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramentos, tontura ou dificuldade para respirar exigem avaliação médica imediata.

Pessoas com suspeita de dengue devem evitar a automedicação, especialmente com ácido acetilsalicílico e anti-inflamatórios, que podem aumentar o risco de complicações.

Próximos passos

O Ministério da Saúde deverá intensificar o monitoramento epidemiológico e apoiar estados e municípios na preparação para um possível aumento de casos em 2027.

A pasta também pretende apresentar, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), marcada para novembro na Turquia, medidas de adaptação do SUS aos impactos das mudanças climáticas.

Entre as iniciativas discutidas estão melhorias na estrutura das unidades de saúde e a ampliação da capacidade de resposta a emergências climáticas.

Em relação à Butantan-DV, a expectativa do governo é concluir as avaliações necessárias para definir se a vacinação poderá ser retomada, em quais condições e para quais públicos.

Até que exista uma nova decisão, a aplicação do imunizante brasileiro permanece suspensa.

A combinação de vigilância epidemiológica, vacinação conforme as orientações vigentes e eliminação dos criadouros do mosquito será fundamental para reduzir os riscos de uma nova epidemia de dengue no país.

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