Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, revelam conversas com Antonio Rueda, presidente nacional do União Brasil, sobre uma negociação de R$ 320 milhões envolvendo o Banco de Brasília (BRB). Os diálogos, divulgados nesta quarta-feira (4), mostram discussões sobre a venda de 49% da BRB Financeira a um grupo de investidores ligado ao empresário José Ricardo Lemos Rezek, próximo de Rueda.
As revelações surgem em meio ao agravamento da crise financeira do banco estatal. Além das investigações sobre operações com o Banco Master, o BRB enfrenta uma cobrança do Banco Central por medidas de recuperação patrimonial. O órgão regulador teria alertado a diretoria sobre a possibilidade de responsabilização pessoal em caso de intervenção. Paralelamente, a Justiça do Distrito Federal rejeitou um pedido do Grupo Casas Bahia para transferir R$ 30,1 milhões em depósitos judiciais mantidos na instituição.
As três situações ampliam a atenção sobre a administração do banco e suas relações empresariais e políticas. Rueda afirma que sua participação em assuntos relacionados ao Banco Master ocorreu exclusivamente como advogado, dentro dos limites legais da profissão. A existência das conversas não comprova, por si só, participação em fraudes.
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Rueda e Vorcaro discutiram venda milionária da BRB Financeira
Segundo mensagens obtidas pelo jornal O Globo, Antonio Rueda e Daniel Vorcaro discutiram detalhes de um acordo para a venda de uma participação na BRB Financeira, empresa vinculada ao Banco de Brasília.
A negociação envolvia um grupo de investidores liderado por José Ricardo Lemos Rezek. A proposta previa o pagamento de R$ 320 milhões, dividido em dez parcelas anuais, pela aquisição de 49% da financeira.
O valor chamou atenção porque, segundo fontes do banco ouvidas pela imprensa, a BRB Financeira registrava lucros anuais próximos de R$ 90 milhões. Dessa forma, os resultados da própria companhia poderiam superar o valor das parcelas previstas no contrato.
As mensagens também indicam discussões sobre a estrutura de governança da empresa.
Embora o grupo de investidores não adquirisse a maioria do capital, as tratativas incluíam mecanismos para ampliar sua influência sobre decisões administrativas e financeiras.
Entre os pontos discutidos estavam a composição do conselho e a autonomia dos diretores indicados pelos novos sócios.
Mensagens mostram troca de documentos e encontros em Brasília
A documentação analisada pela Polícia Federal inclui conversas de WhatsApp e referências a reuniões presenciais realizadas em Brasília.
Em 1º de julho de 2024, poucos dias antes do anúncio público da parceria, Rueda encaminhou a Vorcaro um trecho de um acordo de acionistas relacionado à operação.
Segundo a reportagem, Vorcaro sugeriu alterações nas cláusulas para ampliar os poderes de atuação da financeira em operações de crédito.
As mensagens também mencionam Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, e Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro no Banco Master.
Em outros diálogos, Rueda e Vorcaro combinaram encontros no Lago Sul, região de Brasília conhecida por suas residências de alto padrão.
A parceria foi anunciada ao mercado em julho de 2024 e formalizada em março de 2025.
Entretanto, a operação acabou cancelada em dezembro de 2025, após questionamentos regulatórios e o avanço das investigações sobre os negócios envolvendo BRB e Banco Master.
Presidente do União Brasil nega atuação irregular
Procurado pela imprensa, Antonio Rueda afirmou que sua participação nas questões relacionadas ao Banco Master se restringiu à prestação de serviços jurídicos.
O presidente do União Brasil também sustentou que suas comunicações profissionais estão protegidas pelo sigilo previsto na legislação da advocacia.
Rueda não esclareceu, na resposta divulgada, todos os detalhes das mensagens relacionadas à negociação da BRB Financeira.
José Ricardo Lemos Rezek, por sua vez, negou ter tratado de assuntos da financeira com Rueda ou Vorcaro.
O empresário afirmou que sua participação foi exclusivamente comercial e que decidiu desistir do negócio após avaliações técnicas e de mercado.
A defesa de Daniel Vorcaro informou que não comentaria as mensagens.
Até o momento, as informações divulgadas sobre essa negociação não demonstram a existência de uma denúncia criminal formal contra Rueda ou Rezek relacionada especificamente à tentativa de aquisição da BRB Financeira.
Justiça impede retirada de R$ 30,1 milhões do BRB
Enquanto as investigações avançam, outra decisão judicial trouxe atenção à situação financeira do Banco de Brasília.
O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) rejeitou um pedido do Grupo Casas Bahia para transferir aproximadamente R$ 30,1 milhões em depósitos judiciais do BRB para outras instituições financeiras.
A decisão foi tomada em 27 de outubro pelo desembargador Leonardo Roscoe Bessa, após manifestação da Procuradoria-Geral do Distrito Federal.
Os recursos estão vinculados a um processo que discute a cobrança de ICMS e funcionam como garantia judicial.
O magistrado concluiu que não havia comprovação de risco concreto que justificasse a transferência do dinheiro.
A Justiça também destacou que a escolha da instituição responsável pelos depósitos judiciais cabe ao Judiciário, e não às partes envolvidas no processo.
Atualmente, novos depósitos judiciais do TJDFT são direcionados à Caixa Econômica Federal, enquanto valores anteriormente depositados no BRB permanecem na instituição, conforme as regras aplicáveis.
A decisão não representa uma autorização para o banco utilizar livremente os R$ 30,1 milhões, que continuam vinculados à disputa judicial.
Transferência poderia provocar novos pedidos de retirada
A Procuradoria-Geral do Distrito Federal argumentou que permitir a transferência poderia estimular solicitações semelhantes de outras empresas e pessoas com depósitos judiciais no BRB.
Na avaliação do governo distrital, uma retirada generalizada de recursos poderia aumentar a pressão sobre a liquidez da instituição financeira.
O procurador Marcos de Araújo Cavalcanti, responsável pela atuação no caso, defendeu que qualquer mudança geral na instituição depositária deveria ser decidida pelo próprio Tribunal.
A procuradora-geral do Distrito Federal, Diana Ramos, também destacou a necessidade de preservar a segurança jurídica e os interesses públicos envolvidos.
O entendimento apresentado pela Procuradoria foi acolhido pelo desembargador.
A decisão judicial, entretanto, não resolve a situação financeira mais ampla do BRB nem representa uma avaliação definitiva sobre sua capacidade de recuperação.
Banco Central cobra medidas após alerta sobre R$ 22,8 bilhões
A situação financeira do BRB também passou a ser acompanhada com maior preocupação pelo Banco Central.
Segundo informações divulgadas pelo portal Vero Notícias, o órgão regulador encaminhou um ofício ao presidente da instituição, Nelson de Souza, cobrando providências para enfrentar problemas patrimoniais associados a um montante estimado em R$ 22,8 bilhões.
O documento teria sido enviado aproximadamente três semanas antes da publicação da reportagem, em 2 de novembro.
Na comunicação, o Banco Central também teria lembrado aos administradores que a legislação prevê mecanismos de responsabilização patrimonial em determinadas situações de intervenção em instituições financeiras.
A Lei nº 6.024/1974 estabelece regras específicas sobre a responsabilidade de administradores de instituições submetidas a intervenção ou liquidação extrajudicial.
Isso não significa que os atuais diretores do BRB já tenham sido responsabilizados ou que uma intervenção tenha sido decretada.
O alerta representa, segundo a reportagem, uma cobrança por providências de recuperação e fortalecimento da gestão financeira.
O valor de R$ 22,8 bilhões mencionado na apuração também não deve ser confundido automaticamente com uma perda definitiva já reconhecida em balanço.
Crise começou com operações entre BRB e Banco Master
A deterioração da situação financeira do Banco de Brasília está relacionada às operações realizadas com o Banco Master, instituição anteriormente controlada por Daniel Vorcaro.
A Polícia Federal investiga suspeitas de irregularidades em carteiras de crédito negociadas entre os dois bancos.
Parte das operações envolvia créditos que, segundo os investigadores, não possuíam documentação suficiente para comprovar sua existência ou legitimidade.
O ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa foi indiciado no inquérito que apura essas transações.
O indiciamento representa uma conclusão da investigação policial sobre indícios de participação em crimes, mas não equivale a uma condenação judicial.
Em depoimento à Polícia Federal, Vorcaro negou ser responsável pela crise financeira do BRB.
A instituição pública, por sua vez, vem adotando medidas para recuperar ativos e recompor sua estrutura patrimonial.
O Governo do Distrito Federal também busca alternativas de financiamento para fortalecer o banco, incluindo uma operação de crédito de R$ 6,6 bilhões.
A eventual utilização de recursos públicos e as condições dessa operação ainda dependem das etapas administrativas e legais aplicáveis.
O que pode acontecer com o BRB?
O Banco de Brasília exerce funções importantes na economia do Distrito Federal, incluindo operações de crédito, serviços bancários e relacionamento financeiro com servidores públicos.
Por isso, as dificuldades enfrentadas pela instituição também provocam preocupação sobre possíveis consequências para as contas públicas.
As investigações sobre a relação com o Banco Master poderão produzir novos desdobramentos criminais e administrativos.
Ao mesmo tempo, o Banco Central continuará acompanhando as medidas adotadas para fortalecer o patrimônio e a gestão de riscos da instituição.
A recuperação financeira dependerá da capacidade do BRB de recompor recursos, recuperar créditos e atender às exigências regulatórias.
As revelações sobre a negociação da BRB Financeira acrescentam uma dimensão política ao caso, mas ainda precisam ser analisadas separadamente das suspeitas de fraude já investigadas.
Até o momento, não há comprovação de que Antonio Rueda tenha provocado o prejuízo financeiro do banco ou de que sua atuação na negociação tenha sido considerada criminosa pela Justiça.