O Paraguai era apresentado como exemplo. Agora precisa explicar o que aconteceu. A crise do Ueno Bank colocou Santiago Peña no centro de um escândalo institucional que terminou com sua destituição da Presidência nesta sexta-feira (6). O episódio também atinge a imagem de um modelo econômico frequentemente apresentado como alternativa ao Brasil e cria um novo cenário para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva nas relações com investidores internacionais.
O Paraguai vive uma crise que merece atenção de Brasília. O problema não está apenas na saída de Santiago Peña, nem na intervenção do Banco Central sobre o Ueno Bank. O que está em discussão é a relação entre poder político, interesses empresariais, dinheiro público e capacidade de fiscalização do Estado. O episódio ganhou dimensão nacional quando o Banco Central paraguaio identificou problemas graves de solvência no Ueno Bank, instituição que chegou a reunir aproximadamente 3 milhões de clientes e administrar cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos.
A situação se tornou ainda mais delicada porque Peña teve participação acionária em uma empresa ligada ao grupo controlador do banco até 2025. O ex-presidente nega irregularidades e afirma que não tinha participação direta na instituição financeira. Ainda assim, seus vínculos empresariais passaram a integrar o centro das investigações e do debate político.
Crise do Ueno Bank deixa quase 3 milhões sem acesso ao dinheiro e ameaça governo do Paraguai
Da crise bancária à destituição de Santiago Peña
O ex-presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, também entrou no foco das controvérsias. Antes de assumir o comando da autoridade monetária, ele havia dirigido uma instituição ligada ao Ueno. A proximidade entre os personagens ampliou os questionamentos sobre a independência da fiscalização. A autoridade monetária, por sua vez, afirmou que Carvallo não participou das decisões relacionadas à intervenção no banco.
Em 5 de novembro, Peña anunciou sua renúncia, justamente quando a Câmara dos Deputados discutia um pedido de impeachment. A saída, porém, não foi concluída. A Câmara aprovou a abertura do processo por 78 votos, enquanto o Congresso não finalizou a votação sobre a renúncia.
Nesta sexta-feira (6), o Senado deu continuidade ao julgamento político. Peña solicitou mais 72 horas para preparar sua defesa, mas o pedido foi rejeitado por 39 votos a 3. Seus advogados compareceram ao Congresso e questionaram a regularidade do procedimento.
Ao final do julgamento, os 44 senadores presentes votaram pela destituição de Santiago Peña, encerrando seu mandato presidencial. O vice-presidente Pedro Alliana, também integrante do Partido Colorado, deverá assumir o governo e concluir o mandato previsto até agosto de 2028.
O detalhe mais importante está na resistência de parlamentares em simplesmente aceitar a renúncia do presidente. A discussão envolvia também as consequências jurídicas e políticas de sua saída, inclusive a possibilidade de Peña assumir uma cadeira de senador vitalício, condição que poderia lhe garantir prerrogativas parlamentares.
Ao optar pelo impeachment, o Congresso impediu que o ex-presidente tivesse acesso a essa condição. A destituição, entretanto, não representa uma condenação criminal. As suspeitas relacionadas ao Ueno Bank continuam sujeitas à investigação e à análise das autoridades judiciais.
A rapidez do processo e seus efeitos institucionais também poderão ser objeto de questionamentos jurídicos, como anteciparam os advogados de Peña.
O NC News acompanhou o avanço da crise e explicou como o Senado paraguaio retomou o julgamento político após o pedido de renúncia e a solicitação de mais prazo para a defesa.
O modelo paraguaio sob pressão
Durante os últimos anos, o Paraguai foi apresentado por setores empresariais como uma alternativa competitiva ao Brasil. A combinação de carga tributária menor, incentivos à produção, custos operacionais mais baixos e regras específicas para a indústria de exportação atraiu empresas brasileiras interessadas em transferir parte de suas operações.
O regime de maquila é um dos exemplos dessa política. A legislação paraguaia prevê tributação única de 1% sobre o valor agregado no país ou sobre o valor da fatura de exportação, prevalecendo o maior montante, conforme as regras aplicáveis.
Esse ambiente ajudou a consolidar a imagem de um país favorável aos investimentos e à expansão empresarial.
Mas existe uma diferença entre oferecer condições competitivas ao setor privado e garantir que o sistema de fiscalização funcione.
Um país pode ter impostos menores, burocracia reduzida e regras mais favoráveis à produção. Nada disso elimina a necessidade de instituições independentes, transparência e controle sobre a movimentação de recursos públicos.
É justamente nesse ponto que a crise do Ueno Bank atinge a reputação paraguaia.
O problema não é o liberalismo econômico em si, nem a presença de empresários no ambiente político. A questão aparece quando relações entre agentes públicos e interesses privados levantam dúvidas sobre a fiscalização, a concessão de crédito e a proteção do dinheiro de depositantes e instituições estatais.
O caso também mostra que reduzir a presença do Estado não significa dispensar sua responsabilidade.
Na atividade financeira, a supervisão é indispensável. Sem ela, o risco pode deixar de ser apenas empresarial e alcançar aposentadorias, recursos públicos e a confiança de toda a sociedade.
A crise financeira já produziu consequências concretas. Milhões de clientes enfrentaram restrições para movimentar suas contas, enquanto autoridades iniciaram procedimentos para organizar o ressarcimento dos depósitos garantidos.
O NC News também detalhou como o colapso do Ueno Bank bloqueou saques, afetou correntistas e provocou uma crise de confiança no sistema financeiro paraguaio.
O desgaste da direita conservadora e a derrota de Trump
A crise também chega em um momento desfavorável para o Partido Republicano de Donald Trump nos Estados Unidos.
Nas eleições de meio de mandato realizadas em 3 de novembro, os democratas conquistaram a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado. O resultado representa uma derrota expressiva para Trump e reduz sua capacidade de conduzir a agenda legislativa nos dois últimos anos de mandato, quando a nova composição do Congresso assumir, em janeiro de 2027.
No Paraguai, Santiago Peña representa uma direita conservadora, vinculada ao Partido Colorado e alinhada a uma agenda econômica liberal.
Sua trajetória não deve ser confundida automaticamente com todas as correntes da direita internacional ou com a extrema direita. Ainda assim, o desgaste de governos conservadores e de lideranças próximas ao campo trumpista pode produzir consequências políticas e simbólicas.
A imagem de eficiência econômica, estabilidade e segurança institucional passa a ser questionada quando uma crise financeira alcança o próprio núcleo do governo.
É preciso separar os acontecimentos.
A derrota republicana nos Estados Unidos não provocou a crise paraguaia, assim como a situação de Peña não determina o futuro da direita latino-americana.
Mas os dois episódios mostram que governos identificados com determinadas agendas políticas também estão sujeitos à cobrança do eleitorado e à pressão das instituições.
No caso americano, a vitória democrata representa uma alteração concreta no equilíbrio de poder entre a Casa Branca e o Legislativo.
Como mostrou o NC News na análise sobre a perda da maioria republicana no Congresso dos Estados Unidos, a nova composição poderá dificultar a aprovação de projetos do governo Trump e ampliar a fiscalização parlamentar sobre suas decisões.
No Paraguai, a consequência foi mais imediata: a crise bancária alcançou o presidente e terminou com sua destituição.
A oportunidade de Lula e o recado ao mercado
Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o episódio pode abrir uma oportunidade diplomática e econômica, mas exige cautela.
O Brasil tem uma relação estratégica com o Paraguai. Comércio bilateral, investimentos, integração regional, segurança de fronteira e, principalmente, Itaipu fazem parte de uma agenda que não pode ficar subordinada às disputas políticas internas de Assunção.
A crise também pode oferecer ao governo brasileiro a oportunidade de conversar com empresários que enxergam o Paraguai como destino preferencial para investimentos.
O objetivo não deve ser desqualificar o modelo do país vizinho, mas demonstrar que competitividade econômica e segurança institucional precisam caminhar juntas.
O Brasil tem problemas conhecidos. Juros elevados, carga tributária, insegurança jurídica, burocracia e dificuldades fiscais continuam pesando sobre as decisões empresariais.
Não adianta usar a crise paraguaia como argumento para esconder essas questões.
O desafio de Lula é apresentar condições concretas para atrair capital, melhorar o ambiente de negócios e recuperar a confiança de investidores nacionais e estrangeiros.
Há também um componente diplomático. Uma crise institucional no Paraguai pode afetar a previsibilidade das relações bilaterais e exige diálogo com as forças políticas responsáveis pela continuidade do governo.
A sucessão presidencial não significa necessariamente uma mudança de orientação econômica. Pedro Alliana pertence ao mesmo Partido Colorado de Peña e integra o campo político que continuará à frente do Executivo.
Por isso, não é possível afirmar que a crise produzirá automaticamente uma migração de investimentos para o Brasil. O comportamento do capital dependerá das condições econômicas concretas, das respostas institucionais e da percepção de risco dos investidores.
A oportunidade brasileira, portanto, não está simplesmente na dificuldade enfrentada pelo vizinho, mas na possibilidade de demonstrar previsibilidade econômica, capacidade institucional e segurança para novos negócios.
O que está em jogo além da queda de Peña
O caso Ueno Bank deixa uma questão que interessa a toda a América Latina: até onde vai a liberdade econômica quando os mecanismos de fiscalização não conseguem acompanhar a expansão dos interesses privados?
O Paraguai construiu uma imagem de estabilidade e atração de investimentos. Essa reputação agora passa por um teste importante.
A recuperação da confiança dependerá da proteção aos depositantes, da transparência sobre os recursos públicos envolvidos e da apuração independente das possíveis irregularidades.
A destituição de Peña encerra uma etapa da crise política, mas não resolve automaticamente os problemas financeiros que a provocaram.
A população ainda precisa de respostas sobre a recuperação dos depósitos, a responsabilidade pela fiscalização e a destinação dos recursos públicos mantidos na instituição.
Para Lula, a oportunidade existe, mas não será conquistada apenas pela fragilidade do vizinho.
O mercado não escolhe um país somente pela orientação ideológica de seu presidente. Observa previsibilidade, retorno, estabilidade, regras e capacidade de proteger investimentos.
A crise paraguaia mostra que um ambiente favorável aos negócios pode perder credibilidade quando as relações entre governo, sistema financeiro e fiscalização deixam de oferecer garantias suficientes.
E esse talvez seja o principal recado político do episódio: não basta vender a imagem de um Estado menor ou de um governo amigo do mercado. É preciso demonstrar que as instituições funcionam, inclusive quando os interesses investigados alcançam pessoas próximas ao poder.
Próximos passos
Com a destituição de Santiago Peña, o Paraguai entra em uma nova etapa política. O vice-presidente Pedro Alliana deverá assumir a Presidência, enquanto as autoridades financeiras e judiciais continuarão trabalhando para esclarecer as irregularidades investigadas no Ueno Bank.
O desafio imediato será garantir a recuperação dos depósitos, preservar a estabilidade do sistema financeiro e estabelecer a responsabilidade dos envolvidos, respeitando o devido processo legal.
Para o Brasil, o acompanhamento da transição será importante para preservar as relações comerciais, a cooperação bilateral e os compromissos compartilhados entre os dois países.
A queda de um presidente é um acontecimento político. A reconstrução da confiança nas instituições, porém, será o teste mais duradouro para o Paraguai.