A investigação sobre a chocante tentativa de sequestro de um menino em Guaianases, que viralizou nas redes sociais após ser interrompida por um pedestre, ganhou contornos de filme de terror. O Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) identificou os dois corpos encontrados com marcas de extrema violência no bairro Colônia, também na Zona Leste de São Paulo: trata-se de Carolyn, a mãe da criança, e de seu ex-companheiro, Hamilton, apontado como o mentor intelectual do rapto.
A apuração dos bastidores revela uma trama de vingança familiar e “justiça” paralela. Segundo a Polícia Civil, Hamilton planejou retirar o garoto da guarda de Carolyn após o término do relacionamento, motivado pela suspeita e denúncia de que o menino vinha sofrendo graves maus-tratos em casa. Para executar a ação, ele contratou um comparsa chamado Lucas, capturado na última sexta-feira (19) pelas forças de segurança na região central da capital paulista.

Como o plano de rapto deu errado e terminou em linchamento?
O crime, ocorrido na Rua Moreira Neto, foi flagrado por câmeras de segurança. Hamilton e Lucas pegaram um táxi e deram as coordenadas do trajeto ao motorista. Ao avistarem o menino andando de bicicleta na calçada, Lucas desceu do veículo, agarrou a criança pelos braços e tentou empurrá-la à força para dentro do banco traseiro. A ação foi frustrada por um pedestre herói, que percebeu o desespero do menor e partiu para o confronto físico contra o agressor.
Ao notar a situação, o motorista do táxi agiu rápido, desligou o motor do carro e retirou a chave do contato, impedindo a fuga dos criminosos. Uma multidão de moradores enfurecidos cercou o veículo imediatamente. Hamilton e Lucas foram arrancados do automóvel e duramente espancados por populares no meio da rua. Enquanto Lucas conseguiu escapar por um milagre e se esconder, Hamilton e Carolyn desapareceram nas horas seguintes.
A linha de investigação do DHPP e o Tribunal do Crime
Os corpos de Carolyn e Hamilton foram localizados dias depois com sinais claros de tortura, espancamento e asfixia mecânica (enforcamento ou estrangulamento). A principal linha de trabalho do DHPP é que o casal tenha sido capturado e executado pelo “tribunal do crime” — sessões clandestinas de julgamento promovidas pela facção criminosa PCC que domina o tráfico de drogas na região.
A lógica da facção: No código de conduta imposto pelos criminosos nas periferias de São Paulo, crimes envolvendo abuso ou sequestro de crianças são tratados com tolerância zero. A polícia investiga se a facção interceptou o casal para aplicar sua punição sumária e cruel, eliminando Hamilton pelo rapto e Carolyn pelos supostos maus-tratos contra o próprio filho.
O forte relato do comparsa preso no Centro de SP
A confirmação da violência das ruas veio do próprio comparsa. Lucas foi localizado por policiais militares em patrulhamento na Rua Apa, no bairro da Santa Cecília, no Centro. Abordado pelos agentes, ele não ofereceu resistência e admitiu a participação na tentativa de rapto. A sua confissão foi gravada na íntegra pela câmera corporal fixada na farda de um dos policiais, revelando o pânico que ele sentia de ser caçado pelas pessoas.
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O esconderijo no esgoto: “Eu estava escondido porque a população tentou me matar. Foi uma caminhada que ninguém teve ciência de qual eram as ideias. Eu fiquei um dia, quase dois dias dentro de um córrego, tá ligado. Consegui sair ontem à noite. Eu vim para cá para isso mesmo. Só não ia me entregar na delegacia nunca”, desabafou o suspeito, que preferiu a prisão à morte nas ruas.

O que acontece agora e o destino da criança?
Lucas permanece preso preventivamente e responderá pelo crime de tentativa de sequestro e cárcere privado de vulnerável, além de ser peça-chave para ajudar os delegados a identificarem os executores do casal.
Os investigadores do DHPP realizam diligências na Zona Leste para colher depoimentos de testemunhas e analisar as imagens de segurança de comércios do bairro Colônia, buscando identificar os veículos utilizados para transportar Carolyn e Hamilton até o local da desova. A criança alvo da disputa foi acolhida pelo Conselho Tutelar e recebe acompanhamento psicológico intensivo, enquanto a Justiça estuda o repasse de sua guarda definitiva para parentes biológicos aptos e seguros.
Entenda o Contexto
A eclosão de episódios envolvendo linchamentos e a atuação do “tribunal do crime” em bairros periféricos reflete o grave fenômeno da sensação de ausência do Estado e da segurança pública tradicional no dia a dia da população das classes C e D. Quando imagens de crimes envolvendo vulneráveis (como crianças e idosos) ganham repercussão massiva nas redes sociais, o clamor público por vingança muitas vezes atropela os ritos do devido processo legal e do direito de defesa. O papel do DHPP neste caso é duplo e complexo: além de punir os responsáveis pela tentativa de sequestro inicial, o Estado precisa investigar e prender os autores do homicídio do casal, reafirmando que o monopólio da aplicação da justiça e das penas pertence exclusivamente ao Poder Judiciário, sob o risco de permitir que a barbárie coordene a rotina das comunidades.