PF mira deputada Tayla Peres em operação contra lavagem de dinheiro

Operação em Boa Vista investiga lavagem de dinheiro envolvendo deputada Tayla Peres com apreensão de valores em reais e dólares.
Redação NC News
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A Polícia Federal deflagra nesta sexta-feira (26/06/2026) a Operação Testa de Ferro, que mira um esquema de lavagem de dinheiro com revenda de veículos em Boa Vista e tem como um dos alvos a deputada estadual Tayla Ribeiro Peres da Silva (Republicanos). Agentes cumprem 16 mandados de busca e apreensão em 11 endereços ligados à parlamentar e à família dela, incluindo a casa de Tayla, o gabinete na Assembleia Legislativa de Roraima (Ale-RR) e imóveis de parentes.

Dinheiro em envelopes e prisão por corrupção eleitoral

Na residência da deputada, os policiais encontram ao menos R$ 240 mil em dinheiro vivo, parte em reais, parte em dólares. O valor está distribuído em 50 envelopes, alguns com R$ 1 mil cada, segundo a investigação. A PF apreende R$ 64 mil em espécie e mais US$ 34 mil, o equivalente a dezenas de milhares de reais.

Um irmão da parlamentar é preso por corrupção eleitoral e levado à sede da PF em Boa Vista para prestar esclarecimentos. A corporação não divulga o nome dele. A prisão amplia o alcance do caso, que passa a envolver não só suspeitas de lavagem de dinheiro, mas também de irregularidades em disputas nas urnas.

Os investigadores apontam que o grupo usava a compra e venda de carros para dar aparência legal a recursos sem origem comprovada. “Os suspeitos usavam ‘laranjas’ para esconder bens e a origem do dinheiro ilícito”, afirma a PF. As transações com automóveis, muitas vezes sem justificativa econômica aparente, serviriam para maquiar o patrimônio real dos envolvidos.

Assembleia tenta blindar imagem institucional

A movimentação de viaturas da PF na Ale-RR, por volta das 8h20, provoca alerta no ambiente político local. Funcionários relatam acesso controlado às dependências do prédio durante a ação. Em nota, a Assembleia corre para delimitar os danos.

“A Assembleia Legislativa do Estado de Roraima esclarece que a Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão em um único gabinete parlamentar, no âmbito de investigação de caráter estritamente particular e não institucional”, diz o comunicado oficial. A Casa afirma não ser alvo da apuração e declara ter dado suporte aos agentes.

Ao justificar a restrição de entrada no prédio, a direção da Assembleia argumenta que a medida visa apenas resguardar a operação policial. “O acesso às dependências da Casa foi temporariamente restrito durante a execução da ação policial, com o objetivo de preservar a integridade da operação e garantir a segurança de todos”, registra a nota, que ressalta se tratar de “procedimento padrão” e nega intenção de impedir o trabalho da imprensa.

O acesso total ao prédio é liberado após o fim da diligência, ainda na manhã desta sexta. A Ale-RR procura marcar distância do caso, mas não evita o desgaste político de ter uma de suas parlamentares na mira da PF.

Trajetória política e desgaste no Republicanos

Natural de Boa Vista, Tayla Peres tem 31 anos, é formada em Direito e cumpre o segundo mandato como deputada estadual. Ela entra na Assembleia em 2019, eleita com 2.608 votos pelo PRTB, e é reeleita em 2022 já pelo Republicanos, com 7.292 votos. Ao longo da trajetória, preside o Procon Assembleia e a Comissão de Defesa do Consumidor.

Em 2023, a deputada ganha projeção ao disputar a eleição suplementar para o governo de Roraima como vice na chapa do também deputado Soldado Sampaio, do mesmo partido. A chapa, porém, termina entre as menos votadas e não ameaça os favoritos.

A deflagração da Operação Testa de Ferro atinge em cheio o Republicanos no estado, que tenta consolidar espaço na política local. O envolvimento direto de uma de suas principais figuras na Assembleia, somado à prisão do irmão por corrupção eleitoral, reforça a percepção de fragilidade no discurso de moralidade defendido pela sigla.

Até a última atualização desta reportagem, Tayla Peres não se pronuncia publicamente sobre as acusações. A assessoria da parlamentar é procurada, mas não responde. O silêncio aumenta a pressão por explicações, sobretudo diante da apreensão de grandes quantias em espécie e da suspeita de uso de “laranjas” para ocultar patrimônio.

Esquema de lavagem e impacto no mercado de veículos

A PF apura que o núcleo investigado movimenta recursos por meio de revendas de carros, transferências sucessivas de propriedade e negócios fechados acima ou abaixo do valor de mercado. O modelo é conhecido por especialistas em combate à lavagem de dinheiro: operações aparentemente comuns de compra e venda escondem a injeção de recursos ilícitos na economia formal.

As transações suspeitas seriam feitas em série, sem relação clara com a renda declarada dos envolvidos. Em alguns casos, veículos são registrados em nome de terceiros sem vínculo direto com o dinheiro, os chamados “laranjas”. O objetivo é diluir rastros e afastar o risco de bloqueio de bens em nome dos verdadeiros donos.

A escolha do setor automotivo não é casual. O comércio de veículos, sobretudo nas faixas de preço usadas e seminovos, trabalha com grande volume de dinheiro em espécie e contratos informais, o que facilita a circulação de valores sem controle rígido. Em Boa Vista, o caso lança desconfiança sobre parte do mercado e tende a motivar aumento de fiscalização em lojas e revendas.

Empresários do ramo ouvidos reservadamente demonstram preocupação com o efeito reputacional. O temor é que negócios regulares sejam colocados sob suspeita generalizada, afastando clientes e encarecendo o crédito. A presença de dinheiro vivo, em reais e dólares, em endereço ligado a uma autoridade eleita reforça a percepção de que a lavagem de dinheiro encontrou ambiente propício no setor.

Pressão por transparência e próximos passos

O avanço da investigação promete repercussões em várias frentes. Na política, a situação de Tayla Peres pode virar alvo de pedidos de cassação na Ale-RR, caso a PF apresente elementos robustos ligando a deputada ao esquema de lavagem ou a eventuais crimes eleitorais. Adversários já monitoram o caso para explorar o desgaste em futuras disputas locais.

No plano institucional, a Assembleia tende a ser pressionada a reforçar mecanismos de controle interno sobre o uso de gabinetes, assessores e verbas de mandato. Embora não seja alvo formal da operação, a Casa lida com o impacto de ver seu prédio incluído em mandados de busca e apreensão. O episódio volta a expor a fragilidade das barreiras entre interesses privados e estruturas públicas no estado.

Na esfera judicial, os próximos passos incluem a análise detalhada do material recolhido nos 16 mandados, o rastreamento de movimentações financeiras e o interrogatório de investigados e testemunhas. O volume de dinheiro encontrado sugere, para investigadores, um esquema de proporções relevantes. A tendência é que a Operação Testa de Ferro tenha desdobramentos, com a identificação de novos alvos e a possível abertura de inquéritos paralelos sobre outras práticas suspeitas.

Organizações da sociedade civil e órgãos de controle veem no caso a chance de endurecer a fiscalização sobre lavagem de dinheiro e corrupção eleitoral em Roraima. A forma como a PF e a Justiça Federal conduzem o processo pode servir de referência para outras apurações na região Norte, em um ambiente político marcado por disputas intensas e estruturas frágeis de transparência.

Enquanto a análise dos envelopes e dos documentos apreendidos avança, a principal incógnita recai sobre a extensão do envolvimento da deputada Tayla Peres e de seu círculo mais próximo. A resposta a essa pergunta deve definir não apenas o futuro político da parlamentar e do Republicanos em Roraima, mas também o alcance das mudanças que o caso pode provocar no controle do dinheiro que circula na política e no mercado de veículos do estado.

A deputada pode perder o mandato?

Sim. Se a investigação comprovar envolvimento em lavagem de dinheiro ou corrupção eleitoral, a Procuradoria pode pedir a cassação do mandato à Assembleia, que decide politicamente.

A Assembleia Legislativa é investigada?

Até agora, não. A PF afirma que a apuração tem caráter particular. A própria Assembleia diz em nota que não é alvo da operação e apenas cumpriu o mandado.

O que acontece com o dinheiro e os carros apreendidos?

Os valores e bens ficam sob custódia da Justiça Federal durante a investigação. Se houver condenação, podem ser declarados produto de crime e destinados ao poder público.


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