O primeiro sindicato de juízes do país entra em confronto direto com o Supremo em 2026, enquanto um tribunal de contas gaúcho aprova um extra de cerca de R$ 16 mil mensais para seus conselheiros. No centro da disputa estão os chamados penduricalhos, verbas indenizatórias que empurram remunerações muito acima do teto constitucional.
Sindicato inédito desafia Supremo e critica Flávio Dino
Registrado em janeiro de 2026, o Sindimagis nasce de uma articulação que começa em plena pandemia, em grupos de Instagram e WhatsApp chamados de Mobilização Nacional. Em quatro meses de existência real, a entidade já se coloca como contraponto às associações tradicionais da magistratura e tenta ocupar espaço no debate sobre supersalários.
À frente do sindicato, a juíza do trabalho substituta Cyntia Cordeiro, do TRT-5, sustenta que a ofensiva contra penduricalhos distorce o problema. “As verbas indenizatórias pagas a magistrados acima do teto constitucional, também chamadas de penduricalhos, são direitos e não devem ser vistas sob a pecha de privilégios”, afirma.
Ela direciona as críticas ao ministro do Supremo Flávio Dino, relator da ação que suspende parte desses pagamentos. “O ministro Dino está atuando na maneira que se espera, porque ele é um político. Ele tem um projeto político e pretende se candidatar à Presidência da República”, diz. Para Cordeiro, o ministro busca a imagem de “novo caçador de marajás, o novo [Fernando] Collor”.
A criação do sindicato, com natureza jurídica distinta das associações como AMB, Ajufe e Anamatra, permite que a entidade se apresente como representante formal de toda a categoria, filiada ou não. O artigo 8º da Constituição, lembra Cordeiro, reserva essa prerrogativa aos sindicatos. Essa mudança de cenário amplia o peso político da magistratura organizada justamente no momento em que o Supremo tenta impor limites mais claros à remuneração de servidores do topo da carreira de Estado.
STF cria teto temporário de R$ 78,9 mil e empurra tema ao Congresso
Em março de 2026, o Supremo toma uma decisão que, na prática, redesenha o mapa dos supersalários. Ao julgar ações sobre penduricalhos, a corte mantém o teto constitucional baseado no subsídio de ministro, hoje em R$ 46,3 mil, mas autoriza que verbas indenizatórias ultrapassem esse limite em até 70%.
O resultado é um teto temporário de R$ 78,9 mil, segundo editorial de O Globo: “Na prática, o STF estabeleceu em março um novo teto salarial, de R$ 78,9 mil, ao permitir que as verbas indenizatórias ultrapassem em até 70% o limite constitucional de R$ 46,4 mil”. A diferença de centavos não altera a mensagem política: a corte tenta conter excessos sem desmontar benefícios já consolidados.
Ministros exigem que essas parcelas estejam previstas em lei federal específica e cobram do Congresso uma regulamentação definitiva, com mais transparência. Também fica no papel a conta de quanto o teto estaria hoje se tivesse sido corrigido desde 2003 pela inflação oficial: R$ 63,6 mil, 37% acima dos atuais R$ 46,3 mil.
Para Cyntia Cordeiro, o STF mira a base e poupa o topo. Ela afirma que todos os ministros já receberam verbas que agora deixam de chegar a juízes de primeira instância e acusa o tribunal de tentar desviar a atenção de escândalos internos. “Privilégio é ter milhões para investir em resort”, diz, em referência a negócios privados atribuídos a integrantes da corte. Na visão dela, o debate real deveria alcançar também essas fontes de renda e planos políticos de ministros.
Penduricalhos e a disputa por moralidade no serviço público
O embate sobre penduricalhos não é apenas contábil. Expõe a tensão entre o discurso de combate a privilégios e a defesa corporativa de direitos acumulados. Cyntia distingue o que considera reconhecimento devido de benefícios sem base legal. “Privilégio é receber aquilo que você não faz jus”, afirma. Ela sustenta que muitas verbas indenizatórias decorrem de direitos não pagos no tempo correto, e não de aumentos disfarçados.
Críticos, porém, apontam a distância entre a realidade de magistrados e a do restante do funcionalismo e do setor privado. Para eles, a multiplicação de parcelas indenizatórias, auxílios e gratificações cria uma folha paralela que esvazia o sentido do teto constitucional. O Supremo, ao admitir um teto flexível até R$ 78,9 mil, é acusado de ceder à pressão das cúpulas do Judiciário, do Ministério Público e de órgãos de controle, mesmo ao impor algumas amarras.
O STF tenta equilibrar essas forças ao manter o teto formal de R$ 46,3 mil, condicionar pagamentos a leis específicas e empurrar a regulamentação para o Legislativo. Na prática, porém, a decisão deixa amplo espaço para manobras administrativas, enquanto Estados e órgãos autônomos correm para adequar ou ampliar sua própria lista de benefícios.
TCE-RS cria gratificação de 35% e reacende debate sobre supersalários
Em junho de 2026, o Tribunal de Contas do Rio Grande do Sul oferece um exemplo concreto desse movimento. Amparado em resoluções do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e inspirado em normas do Tribunal de Contas da União, o TCE-RS aprova uma nova verba indenizatória para sua cúpula.
A resolução institui a “Gratificação por Exercício Cumulativo de Jurisdição, Atribuição ou Ofício” para conselheiros, conselheiros substitutos e membros do Ministério Público de Contas. “A gratificação por exercício cumulativo de jurisdição, atribuição ou ofício será paga pro rata temporis (proporcional ao tempo), e corresponderá a 35% do subsídio do membro designado, sendo paga a cada 30 dias”, diz o texto. O percentual equivale hoje a um acréscimo mensal de cerca de R$ 16 mil para cada beneficiado.
A medida pode alcançar até 17 pessoas no tribunal. A norma insiste na natureza indenizatória da parcela. “A gratificação tem natureza indenizatória, não se incorpora ao subsídio, não gera efeitos para quaisquer parcelas futuras e não se converte em vantagem permanente”, registra a resolução.
A corte gaúcha argumenta que apenas replica práticas já adotadas no Judiciário e no Ministério Público, sem inovar. O efeito político, porém, vai além das paredes do TCE-RS. A nova gratificação é usada por críticos como exemplo de como, mesmo após a decisão do STF, as brechas para penduricalhos seguem abertas, pressionando o gasto público e alimentando a percepção de privilégios na elite do funcionalismo.
Quem ganha, quem perde e o que vem pela frente
No curto prazo, magistrados e membros de tribunais de contas preservam espaço para recompor rendas por meio de verbas indenizatórias, ainda que sob escrutínio maior. Órgãos como CNJ, CNMP e TCU seguem ditando referências normativas que são copiadas em estados e municípios, criando um mosaico de benefícios difícil de mapear mesmo para especialistas.
O lado perdedor fica com o controle orçamentário e a confiança da opinião pública. Cada novo penduricalho, ainda que tecnicamente justificado, reforça a impressão de um teto constitucional relativo e de um sistema que se ajusta para proteger o topo. A reação organizada de juízes, agora com um sindicato nacional, sinaliza que futuras tentativas de corte enfrentarão resistência mais articulada.
O próximo movimento está nas mãos do Congresso, chamado pelo STF a disciplinar com mais clareza o que pode ou não ficar fora do teto. A pauta envolve não só números, mas também a definição do que o país aceita como remuneração justa para quem ocupa o andar de cima do serviço público. Enquanto esse debate não se encerra, a disputa em torno dos penduricalhos tende a se tornar ainda mais intensa, com novos capítulos em tribunais, conselhos e assembleias legislativas.
O que é penduricalho?
No debate sobre o serviço público, penduricalho é o apelido dado a verbas extras, em geral indenizatórias, que se somam ao salário e podem estourar o teto.
Quais são os penduricalhos dos juízes?
São parcelas como auxílios e gratificações indenizatórias, pagas por funções acumuladas ou direitos atrasados, que se somam ao subsídio e, em alguns casos, ultrapassam o teto.
Qual o sentido da palavra penduricalho?
No uso comum, penduricalho é algo que se acrescenta a outra coisa, muitas vezes em excesso; no debate salarial, virou sinônimo de adicionais controversos.
Qual é o sinônimo de penduricalho?
Em linguagem corrente, podem ser usados termos como adereço, apêndice ou acessório; no contexto de salários, fala-se em extra, adicional ou benesse.