A Polícia Civil de Minas Gerais revelou, nesta quarta-feira (1º), novos detalhes sobre a investigação da morte do advogado Cláudio Atala Inácio, de 75 anos, e da esposa, a empresária Maria Clotilde Moreira Maciel Atala Inácio, de 76, assassinados dentro do apartamento onde moravam, no Bairro São Pedro, região Centro-Sul de Belo Horizonte.
Durante coletiva de imprensa, os investigadores divulgaram imagens de câmeras de segurança que ajudam a reconstruir a cronologia do crime e detalharam os principais elementos reunidos até agora.
As gravações mostram que Paola Stefany Neto Cirino, de 30 anos, principal suspeita do crime, chegou ao condomínio às 7h28. Nas imagens, ela aparece sozinha, vestindo um moletom azul, calça clara e carregando apenas uma bolsa bege. Após se identificar na portaria, ela aguarda a liberação do acesso e entra normalmente no edifício. Cerca de oito horas depois, às 15h32, uma nova câmera registra a saída da suspeita. Desta vez, ela aparece usando roupas completamente diferentes e carregando diversas sacolas nas mãos.
Segundo a Polícia Civil, foi justamente nesse intervalo que o casal foi morto dentro do apartamento. Ao descrever a cena encontrada pelos investigadores, o delegado Gustavo Barletta afirmou que a equipe ficou impactada com a violência do crime.
“Uma barbárie! Quando nossa equipe chegou ao apartamento, encontrou uma cena de crime extremamente violenta. A grande quantidade de sangue espalhada pelo imóvel demonstrava a intensidade da agressão sofrida pelas vítimas.”, afirma Gustavo

Ligações telefônicas ajudam a definir horário do crime
De acordo com a investigação, as primeiras horas da manhã transcorreram normalmente.
O delegado explicou que, por volta das 9h30, o filho de Cláudio telefonou para o pai e o convidou para assistir ao jogo da Seleção Brasileira. O advogado atendeu normalmente e recusou o convite.
Pouco antes das 12h30, um cunhado da vítima fez um novo contato telefônico com Cláudio, que novamente disse que permaneceria em casa porque uma diarista trabalhava pela primeira vez no imóvel e ele preferia acompanhar o serviço.
Com base nessa sequência de contatos, a Polícia Civil acredita que o crime tenha acontecido entre 12h30 e 15h, período em que não houve mais qualquer comunicação das vítimas.
Segundo o delegado, uma das linhas investigativas é que o assassinato tenha ocorrido após o advogado perceber uma possível ação criminosa dentro do apartamento e confrontar a suspeita. No entanto, ele ressaltou que essa hipótese ainda depende da conclusão dos laudos periciais e da reconstituição da dinâmica do crime.
Suspeita trocou de roupa e descartou objetos em caçamba
O delegado informou ainda que, antes de deixar o apartamento, a suspeita tomou banho e trocou de roupa. Segundo a investigação, ela passou a vestir peças que pertenciam à empresária assassinada, incluindo blusa, calça e até um par de óculos escuros.
As novas imagens divulgadas pela Polícia Civil mostram que, depois de deixar o prédio, Paola caminhou por ruas próximas carregando sacolas e outros objetos. Em determinado momento, ela para ao lado de uma caçamba de entulho e descarta parte dos materiais. As câmeras também registraram um carro de alto padrão estacionando nas proximidades da caçamba poucos minutos antes da chegada da suspeita. O veículo permaneceu parado por cerca de 15 minutos. Após descartar parte dos objetos, Paola embarcou no automóvel. Veja o vídeo:
Segundo a investigação, uma blusa de gola alta com manchas de sangue foi encontrada no local. A peça, de acordo com a polícia, era usada por baixo do moletom azul visto nas primeiras imagens do condomínio. Além da blusa, também foram recolhidas meias com vestígios de sangue, uma bolsa vazia e porta-joias sem conteúdo. Para a Polícia Civil, há indícios de que outra pessoa tenha participado da fuga, embora essa possível participação ainda esteja sendo investigada.

Segundo a Polícia Civil, parte dos objetos roubados do apartamento foi levada para o Centro de Belo Horizonte logo após o crime. A investigação aponta que a suspeita teria vendido joias, relógios e outros pertences das vítimas na região antes de seguir para Ribeirão das Neves, onde buscou o filho e, em seguida, fugiu. Os compradores desses itens ainda não foram identificados e o destino da maior parte dos bens continua sendo apurado pelos investigadores.
Até o momento apenas os dois celulares das vítimas foram recuperados. Os aparelhos foram localizados em um lote vago em Vespasiano, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Eles estavam enrolados em papel-alumínio e abandonados no terreno.
Perícia aponta 24 facadas
A perícia concluiu que o casal sofreu, ao todo, 24 golpes de faca. Os investigadores informaram que a arma utilizada foi lavada após o crime, o que pode dificultar parte dos exames periciais. Ainda não foi possível confirmar, tecnicamente, se as vítimas conseguiram reagir ao ataque.
Durante a coletiva, a Polícia Civil também esclareceu que Paola havia sido indicada para trabalhar na residência por um parente próximo das vítimas. Segundo a investigação, ela já havia prestado serviços domésticos no local cerca de um ano antes.
“Nós não acreditamos que essa tenha sido uma situação de ‘fita dada’, mas essa hipótese ainda não pode ser totalmente descartada. Normalmente, quando esse tipo de crime acontece, o autor chega ao local, pratica a ação e deixa o imóvel em seguida. Neste caso, porém, a dinâmica é diferente. Quem indicou a diarista foi um parente muito próximo das vítimas, também um idoso. Segundo os familiares, ele está profundamente abalado, chora o tempo todo e afirmou que preferia ter morrido no lugar do casal, caso soubesse quem era, de fato, a pessoa que estava indicando para trabalhar na residência.”, afirma o delegado
Dívida com apostas vai ser investigada
Outro desdobramento surgiu após a mãe de Paola afirmar que a filha acumulou uma dívida de aproximadamente R$ 40 mil após se viciar no chamado “Jogo do Tigrinho”.
Segundo ela, a família precisou recorrer a empréstimos bancários para quitar parte da dívida, enquanto a mulher era ameaçada por agiotas.
A Polícia Civil informou que essa informação passou a integrar o conjunto de elementos analisados pela investigação, mas ressaltou que ainda não há confirmação de qualquer relação entre as dívidas e o assassinato do casal.
Suspeita continua foragida
Paola Stefany Neto Cirino continua sendo procurada pela Polícia Civil.
As investigações prosseguem para esclarecer toda a dinâmica do crime, identificar se houve participação de outras pessoas e definir a motivação do duplo homicídio.
Até a publicação desta reportagem, ninguém havia sido preso.
Relembre o caso
O crime aconteceu na segunda-feira (29), mas o casal foi encontrado morto na tarde de terça-feira (30), dentro do apartamento onde morava, no quinto andar de um edifício de alto padrão no Bairro São Pedro, na região Centro-Sul de Belo Horizonte.
A morte só foi descoberta depois que o filho das vítimas estranhou a ausência do pai no escritório de advocacia onde ambos eram sócios. Sem conseguir contato com os pais, ele foi até o imóvel e encontrou os dois já sem vida.