O árbitro brasileiro Raphael Claus, 46, expulsou o atacante Folarin Balogun aos 15 minutos do segundo tempo e mudou o roteiro de Estados Unidos x Bósnia, na última terça-feira, 01. A vitória americana por 2 a 0, que garante vaga nas oitavas do Mundial de Seleções, sai de cena. A decisão do juiz vira o centro da discussão em Santa Clara e na imprensa dos EUA.
Expulsão em jogo controlado no placar
O Levi’s Stadium, na Califórnia, assiste a um jogo que parecia sob controle dos americanos. Balogun, principal referência do ataque, já havia marcado o primeiro gol. A Bósnia reage com mais força física do que futebol.
No início da etapa final, o atacante disputa uma bola com o zagueiro Tarik Muharemovic. Na sequência, pisa no tornozelo do adversário. Claus inicialmente trata o lance como falta comum. O chamado do árbitro de vídeo muda tudo.
Após ir ao monitor, o brasileiro vê replays em diferentes ângulos. Sai de campo com o cartão vermelho na mão. Balogun deixa o gramado, atônito, enquanto o estádio se divide entre vaias e aplausos irônicos. A seleção dos EUA, com um a menos, recua, segura o resultado e confirma o 2 a 0 que a coloca nas oitavas, contra a Bélgica, em 6 de julho, em Seattle.
Claus distribui ainda dois cartões amarelos, um para o zagueiro bósnio Radeljic e outro para o técnico Sergej Barbarez, punido por reclamações e por deixar a área técnica. Marca 19 faltas, assinala dois impedimentos e acrescenta 10 minutos de acréscimo, em razão de paralisações, confusões e parada para hidratação.
VAR sob escrutínio e críticas nos EUA
O cartão vermelho se transformou em caso de arbitragem poucas horas depois. A página de Raphael Claus na Wikipedia ganha uma nova seção, sob o título de controvérsia. “Durante a Copa do Mundo de 2026, Raphael mostrou um cartão vermelho controverso ao jogador da seleção dos Estados Unidos, Folarin Balogun, que muitos consideraram excessivo ou ilegítimo”, registra a atualização.
A enciclopédia colaborativa pode ser editada por qualquer usuário, mas o texto ilustra o clima em torno do árbitro. Colunas, análises e programas esportivos passam a discutir não a atuação americana, e sim a decisão do brasileiro.
No USA Today, a jornalista Nancy Armour ataca com dureza. Para ela, Claus falha em conter a agressividade contra os americanos e não está preparado para um jogo desse nível. “O árbitro brasileiro Raphael Claus perdeu o controle da partida na vitória dos EUA por 2 a 0 contra a Bósnia e Herzegovina, falhando em coibir a agressividade física contra jogadores americanos (…). Se você não está à altura da tarefa, e está claro que Claus não estava, então você não deveria estar aqui”, escreve.
O New York Post destaca o papel das imagens na mudança de interpretação. “Ao vivo, o lance pareceu mais desajeitado do que intencional, o tipo de colisão que acontece dezenas de vezes ao longo de uma partida. A câmera lenta, porém, mostrou uma história diferente, e o árbitro alterou a decisão para falta grave”, descreve o jornal.
Na ESPN americana, o foco recai sobre o protocolo do VAR. O especialista em arbitragem Dale Johnson questiona até a necessidade da revisão. “O VAR baseou sua recomendação ao árbitro em replays em câmera lenta e imagens estáticas, o que não está de acordo com os protocolos do VAR”, afirma.
Arbitragem brasileira em vitrine mundial
A atuação de Claus ganhou ainda mais peso pelo contexto da carreira. O paulista trabalha em seu segundo Mundial. Em 2022, apita dois jogos na fase de grupos no Catar, incluindo a goleada da Inglaterra por 6 a 2 sobre o Irã. Em 2026, já havia comandado a vitória da Espanha por 4 a 0 sobre a Arábia Saudita, sem sobressaltos.
O duelo em Santa Clara, porém, projeta o nome do árbitro de outra forma. A comissão de arbitragem o escala ao lado dos assistentes Rodrigo Figueiredo e Danilo Manis, formando um trio brasileiro observado com lupa. Torcedores daqui e de fora comentam não só os cartões, mas a forma de comunicação.
Nas redes sociais brasileiras, o inglês de Claus ao falar no microfone para todo o estádio vira motivo de elogios e memes. Há quem diga que o domínio do idioma “emociona”. Ao mesmo tempo, a postura em campo é taxada de “passiva” e “tolerante demais” com faltas duras, ainda que o árbitro tenha optado por apenas dois amarelos antes do vermelho decisivo.
A partida também expõe o árbitro brasileiro a um tipo de julgamento instantâneo que se intensifica com a tecnologia. Lances revistos em câmera lenta, recortados em vídeos curtos e compartilhados viralizam em segundos, o que potencializa discordâncias sobre a fronteira entre jogada imprudente e violência digna de expulsão.
Estados Unidos sem artilheiro e VAR na linha de frente
A decisão de Claus pesa sobre a campanha americana. Balogun, autor do primeiro gol na noite de Santa Clara e peça central do ataque, está suspenso para o confronto com a Bélgica, nas oitavas, em 6 de julho. A comissão técnica dos Estados Unidos precisa redesenhar o setor ofensivo justamente no mata-mata, diante de um adversário que já o eliminou em 2014.
Entre os bósnios, a leitura é oposta. Mauricio Pochettino, que dirige a seleção, vê exagero na expulsão e reforça o argumento da falta de intenção. “Para mim? Nunca foi lance para cartão vermelho. Vendo depois na TV, não houve intenção. Foi uma jogada normal de futebol que aconteceu por acidente. Nunca é algo intencional”, diz, em entrevista repercutida pelo San Francisco Chronicle.
No plano institucional, a partida coloca sob holofotes o próprio sistema de arbitragem por vídeo. A forma como o VAR chama o árbitro ao monitor, a dependência de imagens congeladas e a influência da câmera lenta reabrem discussões que a entidade organizadora tenta pacificar desde a adoção da ferramenta.
Para a arbitragem brasileira, o episódio é ambíguo. Claus e seus assistentes ganham visibilidade inédita, com o nome citado em jornais como USA Today, New York Post e emissoras como ESPN. Ao mesmo tempo, enfrentam desgaste imediato e podem ter a escalação em jogos decisivos reavaliada pela comissão do torneio, a depender do relatório interno sobre a atuação no Levi’s Stadium.
O impacto ultrapassa o trio em campo. Clubes, jogadores e torcedores passam a observar com mais desconfiança o grau de rigor em partidas decisivas do Mundial. Qualquer entrada forte, qualquer revisão na cabine, vira teste da credibilidade do sistema. A noite de 1º de julho encerra com os Estados Unidos classificados, a Bósnia eliminada e um árbitro brasileiro no centro de um debate que está longe de terminar.
A comissão de arbitragem do torneio agora analisa o desempenho de Claus, como faz com todos os juízes após cada partida. Dessa avaliação podem sair tanto novas nomeações para fases avançadas quanto uma presença mais discreta nas rodadas seguintes. Enquanto isso, a seleção americana tenta reorganizar seu ataque sem Balogun, e o VAR segue, mais do que nunca, no banco dos réus.