Crise com Michelle Bolsonaro expõe racha no PL em 2026

Saída de Michelle Bolsonaro do PL Mulher intensifica conflitos internos e complica cenário eleitoral para 2026.
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Michelle Bolsonaro sinaliza, nesta primeira semana de julho de 2026, que não quer mais disputar o Senado pelo Distrito Federal nem participar da campanha de Flávio Bolsonaro. A ex-primeira-dama rompe a vitrine que ocupava no PL, abandona o comando do PL Mulher e expõe um racha familiar e político às vésperas da eleição.

Ruptura anunciada em vídeos e em reunião reservada

A crise começa em 24 de junho, quando Michelle usa as redes sociais para acusar o enteado de tê-la “maltratado”, “desrespeitado” e “humilhado”. Ela relata que não fala com o senador desde o fim de 2025 e associa o afastamento a divergências sobre a estratégia eleitoral no Ceará, onde o PL tenta um acordo com o ex-governador Ciro Gomes, hoje no PSDB. O movimento contraria a ex-primeira-dama.

Seis dias depois, em 30 de junho, Michelle atravessa o corredor que separa a disputa doméstica da crise partidária. Em reunião presencial com Valdemar Costa Neto, em Brasília, comunica que quer deixar a presidência do PL Mulher e admite que talvez não concorra ao Senado. O presidente do PL descreve o encontro como um ponto de virada.

“Ela me disse que queria sair da presidência do partido. Eu não tenho o que fazer, que talvez não fosse candidata a senadora”, afirma Valdemar. Dois dias depois, em 2 de julho, ele transforma a avaliação interna em recado público: “Eu sinto que ela não quer participar”.

Valdemar extingue o comando nacional do PL Mulher

A saída de Michelle do posto onde organizou a ala feminina do PL provoca um gesto raro na cúpula partidária: Valdemar decide extinguir o comando nacional do PL Mulher. A estrutura montada por ela passa a existir apenas nos diretórios estaduais.

O dirigente admite a perda. “Ela fez um trabalho no PL Mulher que eu não sei se outra mulher teria condições de fazer”, diz, ao explicar por que não pretende nomear uma sucessora nacional. Na prática, reduz o espaço formal da militância feminina num partido que depende fortemente do voto de mulheres e evangélicos.

A tentativa de segurar Michelle na campanha esbarra na escalada do conflito. Valdemar passa a criticar não só a decisão de sair do PL Mulher, mas também a atuação da ex-primeira-dama nas redes. O alvo direto é o compartilhamento de um vídeo do ex-governador do Rio Anthony Garotinho, com acusações envolvendo festas ligadas ao Banco Master.

“Olha, ela fez muito mal de pôr o vídeo do Garotinho. O Garotinho não tem credibilidade”, afirma. Em seguida, endurece o tom, ainda que preserve a imagem pessoal de Michelle: “O posicionamento da presidente Michelle, e eu tenho ela no melhor conceito do mundo, foi desaprovado”.

Flávio tenta conter danos sem a principal estrela feminina

Enquanto a crise se desenrola, Flávio Bolsonaro corre para demonstrar que a campanha segue em frente. Em 1º de julho, ele organiza em Brasília um café da manhã com lideranças conservadoras, dedicado ao eleitorado feminino. O encontro, pensado para reforçar a ponte com as mulheres, acaba marcado pelas ausências.

Michelle não aparece. Outras figuras emblemáticas do bolsonarismo também ficam de fora, como as senadoras Damares Alves, Tereza Cristina e Margareth Buzetti. O vazio no salão realça o tamanho do problema que o PL enfrenta com o público que mais resiste ao projeto de Flávio.

No discurso, o senador tenta se afastar de frases que desgastam ainda mais a relação com as eleitoras. Ele reage à declaração do influenciador Paulo Figueiredo, que disse que “mulher vota muito mal”. Para Flávio, a frase é “completamente equivocada”.

Ao tratar da dificuldade da direita com as mulheres, assume parte da responsabilidade. Diz que, se as pesquisas mostram rejeição elevada, “a culpa é da minha falta de competência” e da incapacidade do campo conservador de se comunicar com esse segmento.

Nos bastidores, dirigentes admitem que o esforço esbarra num dado básico: sem Michelle Bolsonaro hoje, o PL perde o rosto mais conhecido entre mulheres evangélicas, base crucial na votação de Jair Bolsonaro em 2018 e 2022. O grupo que orbitava ao redor da ex-primeira-dama vê o movimento como um recuo estratégico do partido justamente no terreno onde a legenda é mais competitiva.

Banco Master, Garotinho e o desgaste público

A crise também se alimenta de episódios colaterais. O vídeo de Garotinho, que Michelle divulga, aborda supostas festas ligadas ao empresário Vorcaro e ao Banco Master. Valdemar atribui a circulação de “informações inverídicas” a esse material e tenta blindar o candidato.

Ele afirma que Flávio já reconhece ter errado ao procurar o empresário depois da prisão. “Não devia ter ido, ele reconhece isso”, diz. Em seguida, insiste que, quando o dinheiro foi solicitado, o Banco Master “não estava sob acusação”.

O episódio oferece munição a adversários internos e externos ao grupo Bolsonaro no PL, que veem no desgaste um espaço para avançar sobre palanques em estados estratégicos, como Rio de Janeiro e Ceará. O imbróglio cearense, origem da briga pública entre Michelle e Flávio, segue sem solução clara.

Quem perde, quem ganha com a saída de Michelle

A sinalização de desistência da candidatura ao Senado pelo Distrito Federal, confirmada por Valdemar em 2 de julho, redistribui forças no PL. A legenda perde a figura que funcionava como ponte entre o núcleo duro bolsonarista e segmentos desconfiados da retórica mais agressiva do ex-presidente.

Setores conservadores e evangélicos, que viam em Michelle uma liderança capaz de dialogar com mulheres de diferentes faixas de renda e escolaridade, avaliam a mudança como um golpe duplo: simbólico e organizacional. A extinção do comando nacional do PL Mulher fragiliza a capacidade de mobilização e de formação política desse público.

Adversários internos, por outro lado, ganham espaço. Com o enfraquecimento do “núcleo familiar” que concentrava decisões e palanques, lideranças regionais se sentem mais à vontade para reivindicar candidaturas e negociar alianças próprias. No Ceará, por exemplo, a crítica de Michelle ao movimento em direção a Ciro Gomes abre flanco para rearranjos locais.

No horizonte imediato, a disputa central está no Rio de Janeiro. Flávio promete encontrar Jair Bolsonaro nos próximos dias para definir a candidatura ao Senado no estado. Será a primeira conversa desde a saída de Michelle do PL Mulher e desde que a ex-primeira-dama expõe o conflito familiar em público.

2026 começa com pergunta em aberto para o bolsonarismo

A decisão final de Michelle sobre o Senado ainda não é anunciada por ela, mas o próprio Valdemar já coloca o partido atrás de um nome para substituí-la no Distrito Federal. “Nós estamos tocando a nossa vida”, resume, ao explicar que a campanha continua sem a ex-primeira-dama.

No curto prazo, o PL precisa encontrar uma nova referência feminina capaz de dialogar com o eleitorado que mais resiste a Flávio. No médio prazo, o bolsonarismo enfrenta uma questão de fundo: até que ponto consegue manter coesa sua base sem a presença de Michelle Bolsonaro hoje, figura que, para muitos apoiadores, simboliza uma versão menos conflitiva do projeto político da família.

Enquanto o calendário avança para outubro de 2026, a resposta a essa pergunta ajuda a definir não só o futuro da chapa bolsonarista, mas também o peso real do PL na próxima legislatura.

Michelle Bolsonaro ainda pode voltar a ser candidata ao Senado?

Ela sinaliza a Valdemar Costa Neto que não pretende disputar a vaga pelo Distrito Federal, e o partido já discute substitutos, mas nenhuma desistência formal é anunciada por ela.

O que muda no PL com o fim do comando nacional do PL Mulher?

O partido perde uma coordenação central para políticas voltadas às mulheres. A atuação passa a depender dos diretórios estaduais, com menos coerência e menos visibilidade nacional.

Como a crise afeta a imagem de Flávio Bolsonaro entre mulheres?

A ausência de Michelle enfraquece a tentativa de aproximá-lo do eleitorado feminino. Sem a ex-primeira-dama, a campanha perde sua principal ponte com mulheres e evangélicas.


Carregar Comentários