PF e MP revelam casos extremos de tortura no RS e no MA

Autoridades investigam e prendem suspeitos em casos graves de tortura envolvendo vítimas vulneráveis no RS e no Maranhão.
Redação NC News
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Na última quinta-feira, 2, a Justiça brasileira reage a dois casos extremos de violência. No Rio Grande do Sul, a Polícia Federal prende nove suspeitos de torturar bebês, crianças, adolescentes e animais e vender vídeos na internet. No Maranhão, a Justiça recebe denúncia contra uma empresária e um policial acusados de torturar uma doméstica grávida de seis meses, em Paço do Lumiar.

Operação no RS expõe rede que lucrava com sofrimento

A ofensiva da PF no interior gaúcho mira um esquema que transforma tortura em mercadoria digital. A investigação identifica ao menos dois bebês, uma criança e um adolescente em cerca de 80 vídeos apreendidos no celular de um dos investigados. As cenas mostram episódios de asfixia e sufocamento, sem registro de mortes, segundo a polícia.

A operação se concentra em Bagé, Candiota e Canoas, todas no Rio Grande do Sul. Sete presos estão em Bagé, um em Candiota e outro em Canoas. Entre os detidos, dois são militares que prestaram serviço obrigatório ao Exército. Eles não estão em atividade no momento dos crimes e, segundo a nota oficial, agem em “contexto estritamente particular”.

No total, a PF cumpre 12 mandados de busca e apreensão e nove de prisão preventiva, decretadas por 30 dias pela 2ª Vara Criminal da Comarca de Bagé. Os nomes dos suspeitos não são divulgados. A investigação aponta episódios reiterados de violência física e psicológica, sem motivação sexual, praticados contra crianças, adolescentes e animais domésticos.

O delegado federal Ronaldo Reis explica que o ponto de partida surge por acaso, durante outra apuração. “Na verdade, as investigações se iniciaram a partir de um celular de um dos investigados. Existia um propósito financeiro por parte de alguns investigados, que gravavam os vídeos mediante algum tipo de pagamento”, afirma.

As imagens, de acordo com a PF, são produzidas para comercialização e compartilhadas em plataformas digitais com usuários de outros estados. A polícia trabalha com a hipótese de divisão de tarefas entre os suspeitos, com funções de produção, registro e envio do material para compradores.

As vítimas ainda são identificadas. Nos casos já localizados, os responsáveis legais não sabiam dos abusos. A PF prepara nova etapa de oitivas com familiares e sobreviventes para entender o contexto familiar e possíveis falhas de proteção. Não há, até agora, indicação de que parentes tenham participado das agressões.

Os presos podem responder por tortura, maus-tratos a animais e organização criminosa. A nota do Exército promete colaboração integral com a investigação e anuncia procedimentos internos contra os dois militares detidos. A postura busca conter danos à própria imagem em meio a um caso que atinge frontalmente a noção de disciplina e respeito à dignidade humana, valores reiterados no comunicado.

Doméstica grávida é torturada no MA por suspeita falsa de furto

No Maranhão, o Ministério Público leva à Justiça um episódio que expõe a vulnerabilidade de trabalhadoras domésticas e de mulheres grávidas. A empresária Carolina Sthela Ferreira dos Anjos e o policial Michael Bruno Lopes Santos são denunciados por tortura, tentativa de homicídio qualificado e tentativa de aborto contra Samara Regina Dutra Soares, 19 anos, doméstica grávida de seis meses.

Os fatos ocorrem em abril de 2026, na casa da empresária em Paço do Lumiar, na região metropolitana de São Luís. Samara é contratada verbalmente, de forma temporária, para serviços domésticos. Após a patroa não encontrar um anel, a jovem passa a ser acusada de furto.

Na manhã de 17 de abril, segundo a denúncia assinada pela promotora Nahyma Ribeiro Abas, Carolina e Michael submetem a trabalhadora a uma sessão prolongada de agressões físicas e psicológicas. O objetivo, descreve o MP, é arrancar uma confissão à força sobre o suposto roubo da joia.

O policial, armado, dá uma coronhada na testa da jovem e a arrasta pelos cabelos. Samara é obrigada a permanecer de joelhos, sob a mira da arma, enquanto sofre ameaças. Os acusados falam em dopá-la e levá-la, escondida em um carro, até um sítio, onde seria executada, conforme relata a Promotoria.

O anel, mais tarde, reaparece em um cesto de roupas, esquecido pela própria empresária. “O anel foi localizado posteriormente em um cesto de roupas, evidenciando que o objeto jamais havia sido furtado, mas esquecido pela própria patroa”, registra a acusação.

Mesmo assim, a violência continua. Com o objeto em mãos, Carolina passa a golpear a vítima com socos e tapas, enquanto Michael a imobiliza. A jovem, segundo o MP, se curva sobre o próprio ventre para tentar proteger o feto em meio às agressões.

Laudos periciais apontam perda auditiva e outras lesões em Samara. Exames de corpo de delito, registros de chamadas à Polícia Militar e áudios captados pela Polícia Civil embasam a denúncia. Nos arquivos, a empresária admite a brutalidade. “Dei tanto nessa mulher que até hoje minha mão tá aqui inchada”, diz em uma das gravações. Em outro momento, ao ser questionada sobre a extensão das agressões, afirma que a vítima “não era nem para ter saído viva”.

Com esse conjunto de provas, o MP pede que Carolina e Michael sejam levados a julgamento pelo Tribunal do Júri. A Promotoria solicita ainda a manutenção das prisões preventivas e diligências complementares, alegando alto interesse social no caso. Ambos seguem presos, e as defesas são procuradas, mas não se manifestam até o momento descrito na denúncia.

Pressão sobre Justiça, segurança e políticas de proteção

Os dois casos, revelados ou formalizados no mesmo 2 de julho, pressionam diferentes frentes do sistema de Justiça. No Rio Grande do Sul, a PF terá de aprofundar o rastreamento digital para identificar compradores, redes de compartilhamento e possíveis cúmplices em outros estados. O desafio inclui preservar provas, proteger as vítimas e evitar a reexploração das imagens.

Famílias de crianças e adolescentes retratados nos vídeos passam a ter direito à proteção especial, atendimento psicológico e eventual reparação. A polícia, por sua vez, encara o avanço de um mercado clandestino de violência extrema, que usa a internet para lucrar com sofrimento de seres humanos e animais.

No Maranhão, o processo criminal pode se tornar um caso emblemático de violência contra trabalhadoras domésticas, ainda marcadas por relações informais e assimétricas. A denúncia também reforça a pauta da proteção de gestantes contra agressões que colocam em risco a vida da mulher e do feto.

Organizações de direitos humanos acompanham com atenção ambos os processos. O desfecho no Tribunal do Júri, em Paço do Lumiar, e as eventuais condenações no Rio Grande do Sul tendem a influenciar debates sobre penas para tortura, atuação das forças de segurança e políticas de prevenção.

Os próximos meses devem trazer novas audiências, perícias complementares e eventuais denúncias adicionais, caso surjam mais vítimas ou envolvidos. A forma como o sistema de Justiça responde a esses episódios extremos ajudará a definir se a exposição pública da violência se converte em responsabilização efetiva e em reforço duradouro às redes de proteção de crianças, mulheres, trabalhadores domésticos e animais.

 

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