Fraport reage a plano de segundo aeroporto na Grande POA

Concessionária do Salgado Filho intensifica pressão contra novo aeroporto em meio a crise no terminal atual.
Redação NC News
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A concessionária alemã Fraport pressiona o governo federal, desde o último dia 15, do mês de junho, para barrar o projeto de um segundo aeroporto na Grande Porto Alegre. O embate ganha força após o desabamento parcial do teto do Salgado Filho em 2 de julho, em meio à disputa sobre o futuro da infraestrutura aérea gaúcha.

Conflito aberto entre concessionária e grupo pró-novo aeroporto

O alvo da ofensiva é o Aeroporto Internacional 20 de Setembro, proposto para uma área entre Nova Santa Rita e Portão, a cerca de 25 a 27 quilômetros da capital. O projeto é defendido por empresários do Vale dos Sinos e lideranças políticas, que enxergam no novo terminal uma forma de evitar nova paralisação como a de 2024, quando o Salgado Filho ficou fechado por seis meses após a enchente que causou prejuízo estimado em R$ 3 bilhões à economia gaúcha.

Do outro lado, a Fraport tenta conter qualquer avanço. Em carta de sete páginas enviada ao Ministério de Portos e Aeroportos e à Secretaria Nacional de Aviação Civil (SAC), a empresa afirma que não há base técnica ou econômica para o 20 de Setembro e acusa o plano de desperdiçar recursos. A manifestação ocorre no momento em que o Comitê Pró-Aeroporto Internacional 20 de Setembro organiza uma ofensiva política em Brasília para incluir o projeto no Plano Nacional de Aeroportos.

O que diz a Fraport sobre o novo aeroporto

O documento, assinado pela presidente da Fraport Brasil, Andreea-Diana Pal, sustenta que o Salgado Filho está preparado para atender a demanda até o fim da concessão, prevista para 2043. A empresa assumiu o aeroporto em 2018 e destaca uma série de investimentos desde então.

Entre as obras citadas estão a ampliação da pista, de 2.280 para 3.200 metros, o aumento da capacidade anual de passageiros de 7,8 milhões para 16,2 milhões e a construção de um novo terminal internacional de cargas, com capacidade para 100 mil toneladas por ano. A Fraport lembra ainda que o fluxo de passageiros retomou o patamar pré-enchente já em 2025, com 7,5 milhões de viajantes, acima dos 7,4 milhões de 2023.

No texto enviado ao governo, Pal afirma que “a premissa de que se faz necessário um novo aeroporto como ‘alternativa’ a este não resiste ao menor senso analítico de viabilidade técnica e econômica”. A empresa argumenta que o Salgado Filho não tem restrições para operar grandes cargueiros e ainda dispõe de espaço para expansão do terminal logístico. Segundo a concessionária, o aeroporto só ficou inoperante durante a tragédia climática de 2024 e mantém nota máxima nos indicadores de qualidade de serviço.

A Fraport também insiste no impacto fiscal de um segundo terminal. Para a companhia, não há “justificativa viável que dê respaldo a um gasto de milhares de milhões de reais apenas para servir como ‘backup’ ou ‘alternativa’ ao Salgado Filho” e a construção do 20 de Setembro seria “um desperdício do recurso da União”.

Defensores veem chance de romper monopólio e evitar colapsos

O Comitê Pró-Aeroporto Internacional 20 de Setembro atua há cerca de 15 anos, mas ganha impulso após a enchente de 2024, quando a falta de uma alternativa regional expôs a dependência do Salgado Filho. O grupo é coordenado pelo ex-piloto da Varig Nelson Riet e reúne empresários do Vale dos Sinos, como o presidente do Grupo Sinos, Mário Gusmão, além de prefeitos e lideranças locais.

Na frente política, a articulação é liderada pelo presidente do PSB gaúcho, Beto Albuquerque, ex-deputado federal e hoje pré-candidato a voltar à Câmara. Ele finaliza um dossiê técnico para levar ao Ministério de Portos e Aeroportos e à SAC, com o objetivo de incluir o 20 de Setembro no planejamento federal e abrir caminho para uma concessão com capital 100% privado.

“É uma oportunidade de avanço para o Rio Grande do Sul. Não estamos falando de competir com o Salgado Filho, mas de ter uma alternativa, tanto na carga quanto em relação a outros voos”, diz Albuquerque. A proposta é que o novo aeroporto compartilhe o fluxo de passageiros e, sobretudo, de cargas, reforçando a resiliência da região diante de eventos extremos e da perspectiva de crescimento da demanda.

Riet acusa a Fraport de tentar preservar sozinha o mercado da região metropolitana. “Recebo sem surpresa a posição da Fraport. Afinal, ela está defendendo simplesmente o seu monopólio, só que monopólio não é uma coisa boa para o cliente”, afirma. Para ele, a área do Salgado Filho limita a expansão futura, enquanto a nova localização permitiria um hub logístico com mais espaço para pistas, pátios de carga e conexões rodoviárias.

Desabamento reacende debate sobre confiabilidade do terminal

Menos de três semanas após a carta da Fraport a Brasília, o Salgado Filho volta ao centro da controvérsia por outro motivo. Em 2 de julho de 2026, parte do forro do teto do terminal de check-in desaba durante chuvas intensas em Porto Alegre, exigindo o esvaziamento da área.

Segundo comunicado da concessionária, o incidente é provocado pelo rompimento de uma tubulação no terceiro piso. “Na manhã desta quinta-feira (02/07), ocorreu o rompimento de uma tubulação no terceiro piso do Aeroporto de Porto Alegre. O problema foi identificado rapidamente e as equipes atuaram na contenção do incidente e recuperação”, afirma a nota.

A Fraport diz que, por segurança, desligou a energia elétrica e isolou algumas áreas. A maior parte do terminal tem o fornecimento restabelecido a partir das 15h, e nenhum voo é cancelado em razão do problema. O fluxo de passageiros segue interrompido apenas em um corredor do terceiro piso, enquanto equipes trabalham na recomposição do forro.

O episódio, somado à memória recente da enchente de 2024, alimenta entre empresários e políticos o argumento de que depender de um único aeroporto é arriscado. Para eles, o 20 de Setembro funcionaria como seguro operacional para o transporte aéreo e de cargas, em um estado que tenta se reposicionar na rota logística nacional.

Impasse com governo e disputa de modelos de desenvolvimento

Até agora, o Ministério de Portos e Aeroportos e a SAC afirmam que não existe processo formal de análise para um segundo aeroporto na capital gaúcha. O governo Lula evita se comprometer com qualquer dos lados e repete, em público, que a prioridade é avaliar o sistema aeroportuário como um todo, à luz dos planos nacional e estadual de logística.

Dentro do Rio Grande do Sul, a disputa opõe visões de desenvolvimento. A Fraport insiste na ampliação e na otimização do Salgado Filho, com novos investimentos sob o atual contrato até 2043. O Comitê Pró-Aeroporto defende que a região não pode esperar até uma futura saturação ou novo desastre climático para agir, e aposta em um terminal financiado pela iniciativa privada.

A eventual construção do 20 de Setembro alteraria a geografia econômica da Grande Porto Alegre. Municípios entre Nova Santa Rita e Portão esperam atrair centros de distribuição, indústrias e serviços ligados à logística, turismo e comércio. Em paralelo, especialistas apontam que o projeto exigiria estudos rigorosos sobre impacto ambiental, uso do solo e conexão com rodovias e linhas de transporte coletivo.

Sem decisão à vista, o tema tende a ganhar peso na agenda política e empresarial dos próximos meses. A pressão da Fraport para manter a centralidade do Salgado Filho e a mobilização pró-20 de Setembro em Brasília colocam o governo federal diante de uma escolha que vai definir, por décadas, a forma como o Rio Grande do Sul se conecta ao restante do país e do mundo.

 

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