André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal, está no centro das duas investigações mais sensíveis da Corte em 2026 e aciona o governo Lula desde 6 de julho para preservar seus bastidores. Ele relata os inquéritos sobre fraudes bilionárias em aposentadorias do INSS e o chamado Caso Master, que apura crimes financeiros ligados ao extinto Banco Master, enquanto a Polícia Federal se prepara para entregar os primeiros relatórios ao STF.
Pressão sobre delegados da PF acende alerta no Supremo
As investigações avançam em ritmo acelerado às vésperas das eleições de 2026 e envolvem parlamentares aliados tanto do Planalto quanto do entorno do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em paralelo, uma ordem do Ministério da Justiça para recolher delegados cedidos a órgãos da administração pública provoca reação silenciosa no Supremo. Entre mais de 50 órgãos notificados, o tribunal é poupado, o que permite a permanência de quatro delegados da PF em gabinetes de ministros, dois deles com Mendonça.
No STF, a leitura é de que a medida abre margem para interferência política no andamento de inquéritos que miram aliados do governo e do bolsonarismo. O gesto de poupar a Corte, enxergado como recuo tático, é visto como consequência direta do recado de Mendonça ao Planalto de que a retirada dos delegados colocaria em risco a continuidade das apurações. Um interlocutor resume o peso de suas decisões: “O ministro prende e solta quando estão preenchidos os requisitos do artigo 312 do Código de Processo Penal”.
O Ministério da Justiça e a cúpula da PF tentam desidratar o conflito em público. Em café da manhã com jornalistas, o diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, afirma que ainda avalia a necessidade de chamar de volta os delegados cedidos ao Supremo. “É uma avaliação que o ministério está fazendo ainda. Por enquanto não há essa definição, até porque há uma necessidade de fazer uma análise da posição estratégica”, diz. Em outra frente, o diretor-executivo da PF, William Murad, rechaça a ideia de paralisia dos inquéritos durante o período eleitoral. “Esse tipo de abordagem, sim, é para fins eleitoreiros, não condiz com a realidade”, afirma.
Fraudes no INSS atingem aposentados e cercam aliados de Lula
A Operação Sem Desconto, braço mais visível das apurações sobre o INSS, expõe uma engrenagem que drena recursos de aposentados em todo o país. A investigação aponta descontos indevidos em benefícios, em nome de serviços não contratados, e mira uma rede que envolve despachantes, intermediários, empresas e organizações da sociedade civil. Até agora, a PF deflagra nove operações de busca e apreensão, realiza 27 prisões preventivas e conclui a análise de 40% do material apreendido.
O caso deixa o Planalto desconfortável por outro motivo. O governo Lula é acusado, nos bastidores do Supremo, de pressionar pelo arquivamento de menções ao empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente. Uma das peças centrais dessa frente é a empresária Roberta Luchsinger, herdeira de um ex-acionista do Credit Suisse e amiga de Lulinha, alvo de busca e apreensão e de quebra de sigilo por decisão de Mendonça.
Investigadores apuram se Roberta atua como ponte entre Lulinha e Antônio Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, apontado como operador de fraudes no sistema previdenciário. Em relatório enviado ao STF no fim de 2025, a PF relata que o filho do presidente, “em tese, poderia atuar como sócio oculto” do “Careca”, hipótese que ele nega. A eventual denúncia depende de manifestação do procurador-geral da República, Paulo Gonet, que acompanha o avanço das diligências.
Caso Master e a rota do dinheiro até o entorno de Flavio Bolsonaro
O outro flanco sob relatoria de Mendonça, o Caso Master, mistura alta finança, política e cultura. A investigação mira supostos crimes financeiros ligados ao extinto Banco Master e lançou luz, desde maio de 2025, sobre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que tenta salvar o próprio destino jurídico ao mesmo tempo em que arrasta o nome do senador Flavio Bolsonaro para o inquérito.
Vorcaro busca, sem sucesso até agora, uma delação premiada. A PF e a Procuradoria-Geral da República rejeitam a proposta sob o argumento de que “não existe interesse técnico”, segundo define o diretor-geral Andrei Rodrigues. A avaliação interna é de que o ex-banqueiro oferece pouco em troca de benefícios penais, ao mesmo tempo em que tenta anular provas já reunidas sobre suas movimentações financeiras.
O caso se expande para além das operações bancárias. Em outra frente, Mendonça recebe pedidos de investigação sobre o suposto desvio de emendas parlamentares para o financiamento do filme biográfico de Jair Bolsonaro, Dark Horse. A PF rastreia cerca de R$ 2 milhões em emendas destinadas ao Instituto Conhecer Brasil, ligado à produtora do longa, e tenta identificar o caminho do dinheiro público até a obra que exalta o ex-presidente. Nessa trilha surgem nomes de parlamentares como o senador Flavio Bolsonaro, o deputado Mario Frias, do PL do Rio, e o deputado petista Lindbergh Farias.
A ofensiva judicial ameaça atingir aliados de polos opostos em plena pré-campanha eleitoral. O presidente do STF, Edson Fachin, acompanha de perto os desdobramentos e já determina a redistribuição de partes do caso, numa tentativa de equilibrar a carga entre gabinetes e blindar o tribunal de acusações de perseguição seletiva.
Mendonça entre a biografia, a política e o risco de explosão eleitoral
Evangélico e ex-ministro da Justiça e da Advocacia-Geral da União no governo Bolsonaro, André Mendonça chega ao Supremo em 2021, indicado pelo então presidente. Advém daí o rótulo de “terrivelmente evangélico” que o acompanha desde a sabatina no Senado e alimenta desconfianças no PT. No plenário, porém, o ministro tenta se firmar como árbitro técnico em casos que cruzam o destino político de Lula e do clã Bolsonaro.
No entorno de presos dos casos INSS e Master, advogados apostam que Mendonça deve flexibilizar parte das prisões preventivas quando a PGR apresentar as primeiras denúncias, previstas para começar a chegar em julho. A estratégia das defesas é insistir que, com o fim da fase de inquérito e o início da ação penal, medidas alternativas, como tornozeleira eletrônica, são suficientes. Interlocutores do ministro rebatem e garantem que não haverá “soltura automática” após as denúncias, reforçando que cada decisão seguirá o critério do artigo 312 do Código de Processo Penal.
As investigações redesenham, na prática, o mapa de riscos para a eleição de 2026. Atingem aposentados que cobram ressarcimento de descontos indevidos, chacoalham o sistema financeiro com o legado do Banco Master e ameaçam expor o uso de verba pública em projetos culturais de interesse eleitoral. O ambiente de desconfiança mútua empurra Mendonça para uma posição delicada: qualquer gesto seu será lido como favor a Lula ou ao bolsonarismo.
O ritmo dos próximos meses depende da velocidade da PF em concluir a análise dos 60% restantes do material da Operação Sem Desconto e dos relatórios finais do Caso Master. Com as denúncias nas mãos do STF, Mendonça e seus colegas terão de definir quem vira réu, quem segue preso e quem responde em liberdade. No auge da campanha, cada decisão poderá alterar alianças, inflamar palanques e, no limite, redefinir a narrativa de combate à corrupção que tanto governo quanto oposição tentam reivindicar para si.
Qual é a igreja do ministro André Mendonça?
André Mendonça é pastor e ligado à Igreja Presbiteriana, denominação histórica do protestantismo reformado no Brasil.
O que houve com André Mendonça hoje?
Ele atua como relator das investigações sobre fraudes no INSS e o Caso Master e alerta o governo Lula contra a remoção de delegados da PF que atuam no STF.
Qual ministro do STF foi indicado por Bolsonaro?
André Mendonça é um dos ministros indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para o Supremo Tribunal Federal, onde toma posse em 2021.
Quais cargos André Mendonça ocupou antes de ser ministro do STF?
Antes de chegar ao STF, ele é advogado da União de carreira, chefiou a Advocacia-Geral da União e foi ministro da Justiça no governo Bolsonaro.
Por que André Mendonça alertou o governo Lula sobre a remoção de delegados da PF?
Ele teme que a retirada de delegados da PF cedidos ao STF prejudique as investigações sensíveis sob sua relatoria e abra espaço para interferência política.
Como André Mendonça está envolvido nas investigações sobre fraudes no INSS e o Caso Master?
Como relator no STF, ele decide sobre buscas, quebras de sigilo, prisões preventivas e ações da PF, além de analisar denúncias da Procuradoria-Geral da República.