Tarifaço dos EUA pode sobretaxar mais de 4 mil produtos em 37,5%

Confederação Nacional da Indústria projeta que eventuais sanções combinadas da gestão de Donald Trump podem afetar diretamente quase US$ 15 bilhões em exportações, encarecendo insumos vitais para a própria cadeia produtiva americana.
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As ameaças de retaliação comercial do governo norte-americano contra o Brasil ganharam contornos ainda mais graves nesta segunda-feira (6). Uma nova e detalhada projeção divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontou que um eventual acúmulo das tarifas punitivas em discussão em Washington pode fazer com que 4.187 categorias de produtos brasileiros exportados sejam penalizadas com uma taxa altíssima de 37,5%.

O peso da medida seria avassalador para a balança comercial nacional, atingindo frontalmente operações comerciais avaliadas em cerca de US$ 14,9 bilhões em exportações — o que representa uma fatia considerável da economia e geração de empregos na indústria de base.

A matemática da sobretaxa: Como chegar aos 37,5%?

O cálculo preocupante feito pela CNI leva em conta o acúmulo sistêmico de diferentes frentes punitivas que o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) e o governo Trump estão promovendo simultaneamente contra os exportadores do Brasil.

Todos os produtos listados pela Confederação já estão sofrendo, desde o início do ano, a imposição de uma tarifa adicional temporária e linear de 10% baseada na Seção 122 da legislação comercial americana, medida que segue vigente pelo menos até o dia 24 de julho.

Nesta semana de tensão extrema, o USTR realiza em Washington duas pesadas audiências públicas que debatem a imposição de mais dois agravantes ao pacote:

  • Investigação Seção 301 (A principal): Um inquérito aberto em julho de 2025 que foca especificamente no Brasil, apontando restrições no comércio digital e ambiental, com sugestão de sobretaxa agressiva de 25%.
  • Investigação Global (Trabalho): Uma apuração genérica sobre alegações de trabalho forçado em que o Brasil foi inusitadamente arrolado, sugerindo a taxação suplementar de 12,5%.
  • Caso a gestão Trump aplique o pacote completo proposto sem conceder isenções e exceções, haverá um severo acréscimo de 27,5 pontos percentuais sobre as mercadorias, elevando a taxação total do produto que cruza a fronteira norte-americana para sufocantes 37,5%.

Prejuízo de mão dupla e inflação americana

A linha de defesa da indústria brasileira aposta pesado na teoria do “tiro no pé” econômico. Do total bilionário de bens ameaçados pelas sobretaxas, a expressiva marca de 62% constitui-se de bens intermediários — ou seja, peças cruciais e insumos brutos que abastecem os rigorosos processos de fabricação das próprias fábricas instaladas dentro dos EUA.

O presidente da CNI, Ricardo Alban, destacou que entre os principais itens que poderão amargar a tarifa de 37,5%, o Brasil atua hoje, sem concorrentes de peso com logística próxima, como o principal fornecedor primário do mercado norte-americano em 11 vastas categorias.

“O aumento das tarifas compromete uma relação comercial construída ao longo de décadas e prejudica empresas dos dois países. Estamos falando de cadeias produtivas altamente integradas, nas quais muitos produtos brasileiros são essenciais para a indústria norte-americana”, explicou o líder patronal. O setor adverte que sufocar o insumo brasileiro resultará irremediavelmente no encarecimento do produto final para o consumidor local e em aumento da inflação americana.

Defesa de peso nos palanques de Washington

Para tentar barrar ou ao menos mitigar a catástrofe fiscal, a diplomacia corporativa entrou pesado em cena. A CNI confirmou que será representada nos difíceis painéis das audiências públicas de terça-feira (7) por um dos maiores pesos-pesados da articulação global: o embaixador Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O cenário nos bastidores técnicos aponta certa vantagem aos argumentos do setor produtivo. Dos 80 oradores devidamente inscritos para falar na disputada audiência da Seção 301 (onde também estará presente o senador Flávio Bolsonaro), 66 irão proferir discursos contrários à imposição imediata da medida restritiva norte-americana.

O inquérito que pauta a audiência concluiu preliminarmente, em junho, que as práticas brasileiras relativas ao comércio digital, preferência de tarifas, acesso ao mercado de etanol, defesa da propriedade intelectual e falhas no combate ao desmatamento são duramente restritivas e desleais ao livre comércio com os Estados Unidos. O USTR determinou o prazo de 15 de julho para o anúncio de um acordo bilateral oficial ou para a imposição irrevogável das barreiras da era Trump.

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