Um levantamento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) trouxe um retrato preocupante sobre a situação de diversas línguas indígenas faladas no Brasil. O inventário aponta que diferentes comunidades enfrentam ameaças específicas à preservação de seus idiomas, incluindo a exploração ilegal de madeira, conflitos territoriais, mudanças culturais e, em alguns casos, a atuação de igrejas neopentecostais.
Os dados fazem parte do Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL), ferramenta criada para documentar, valorizar e acompanhar a situação das centenas de línguas existentes no país. O estudo reúne diagnósticos sociolinguísticos elaborados em diferentes regiões brasileiras e busca orientar políticas públicas voltadas à proteção desse patrimônio cultural
O que o levantamento identificou
O inventário mostra que não existe uma única ameaça comum a todos os povos indígenas. Cada comunidade enfrenta desafios diferentes que afetam diretamente a transmissão da língua entre as novas gerações.
Entre os principais fatores apontados estão:
exploração ilegal de madeira em terras indígenas, invasões de territórios tradicionais, casamentos com pessoas de fora das comunidades, migração para áreas urbanas;
redução do número de falantes, influência crescente de religiões que desestimulam práticas culturais tradicionais.
Em algumas comunidades, o estudo registra que mudanças religiosas têm provocado o abandono de rituais, cantos e formas tradicionais de transmissão dos idiomas, considerados elementos fundamentais para a preservação das línguas indígenas.
Madeireiros aparecem entre as maiores ameaças
Um dos exemplos citados pelo inventário envolve o povo Karipuna, em Rondônia. Segundo o diagnóstico, a extração ilegal de madeira na Terra Indígena Karipuna compromete não apenas o território, mas também a sobrevivência cultural da comunidade.
O levantamento aponta que restam apenas cerca de dez falantes da língua Kawahiba entre os Karipuna, situação classificada como de desaparecimento da língua, já que sua transmissão entre as gerações foi interrompida.
Influência religiosa também aparece em alguns diagnósticos
Outro ponto destacado pelo inventário diz respeito à presença de igrejas neopentecostais em determinadas comunidades. Os pesquisadores identificaram casos em que processos de evangelização passaram a desencorajar o uso da língua tradicional e de práticas culturais associadas aos povos indígenas.
O levantamento, no entanto, não generaliza essa situação para todas as comunidades indígenas nem para todas as igrejas. O diagnóstico varia conforme a realidade observada em cada povo pesquisado.
Brasil possui uma das maiores diversidades linguísticas do planeta
O Iphan estima que mais de 250 línguas são faladas atualmente no Brasil, incluindo línguas indígenas, de imigração, afro-brasileiras, crioulas e de sinais. Criado em 2010, o Inventário Nacional da Diversidade Linguística é o principal instrumento federal voltado ao reconhecimento, documentação e valorização desse patrimônio imaterial.
Recentemente, o instituto lançou uma plataforma digital que reúne milhares de documentos, pesquisas, fotografias, vídeos e gravações sobre essas línguas, ampliando o acesso público às informações.
O desafio da preservação
Especialistas alertam que o desaparecimento de uma língua representa uma perda que vai muito além da comunicação. Cada idioma reúne conhecimentos tradicionais, formas próprias de compreender a natureza, histórias, memórias coletivas, práticas culturais e modos de organização social que dificilmente podem ser recuperados após sua extinção.
Por isso, o inventário busca identificar os riscos enfrentados por cada comunidade para subsidiar ações de preservação e fortalecimento das línguas indígenas em todo o país.
ENTENDA O CONTEXTO
O Brasil é considerado um dos países com maior diversidade linguística do mundo. Apesar disso, muitas línguas indígenas enfrentam um processo acelerado de redução no número de falantes.
O Inventário Nacional da Diversidade Linguística foi criado justamente para mapear essa realidade e orientar políticas de preservação.
Os diagnósticos mostram que as ameaças variam conforme cada povo, envolvendo desde conflitos territoriais e exploração ilegal de recursos naturais até mudanças sociais, culturais e religiosas. O objetivo do levantamento é fornecer informações que ajudem a proteger um patrimônio cultural considerado essencial para a história e a diversidade do país.