A morte da jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos, durante um salto de rope jump em Limeira, no interior de São Paulo, ganhou um novo capítulo quarta-feira (8). O Ministério Público de São Paulo denunciou quatro pessoas envolvidas na organização da atividade por homicídio com dolo eventual — quando se assume o risco de provocar a morte.
Segundo a denúncia, os responsáveis tinham conhecimento dos riscos da prática, mas deixaram de adotar medidas essenciais de segurança. Para os promotores, a tragédia poderia ter sido evitada caso os protocolos mínimos fossem cumpridos.
O que motivou a denúncia do Ministério Público?
Foram denunciados Maicon Fernandes Cintra, Luís Felipe Feliciano Egoroff e Vitor de Freitas Gonçalves por homicídio com dolo eventual qualificado por motivo torpe e por recurso que impossibilitou a defesa da vítima.
Já Evelyne dos Santos Gonçalves responderá, segundo o Ministério Público, pelo mesmo crime na modalidade de omissão imprópria, além de fraude processual.
Na avaliação dos promotores, o grupo assumiu conscientemente os riscos ao realizar uma atividade de alto perigo sem cumprir procedimentos considerados indispensáveis para preservar a segurança dos participantes.
O que a investigação aponta sobre a tragédia?
A denúncia afirma que os organizadores deixaram de realizar etapas consideradas fundamentais antes do salto.
Entre as principais falhas apontadas estão:
- ausência da conferência da conexão da corda de segurança;
- falta da chamada dupla checagem dos equipamentos;
- inexistência de funções claramente definidas entre os integrantes da equipe;
- exploração comercial da atividade sem atender às exigências legais.
Segundo o Ministério Público, além das falhas técnicas, havia prioridade na divulgação dos saltos nas redes sociais e na obtenção de lucro, em vez da adoção de medidas rigorosas de segurança.
Organizadora também é acusada de fraude processual
A denúncia também atribui à organizadora do evento responsabilidade por não interromper a atividade, mesmo após tomar conhecimento de uma falha operacional semelhante ocorrida anteriormente.
Além disso, o Ministério Público afirma que ela determinou a localização da câmera GoPro utilizada por Maria Eduarda e a exclusão do conteúdo registrado no equipamento.
Segundo os promotores, a intenção era dificultar a investigação. A câmera continua desaparecida.
Caso a acusação seja confirmada durante o processo, esse comportamento poderá ser analisado pela Justiça como fraude processual.
Atividade funcionava sem cumprir exigências legais, diz MPSP
Outro ponto destacado na denúncia envolve a forma como o grupo explorava comercialmente o rope jump.
De acordo com o Ministério Público, a atividade era realizada sem atender exigências previstas na legislação brasileira para operações turísticas desse tipo.
Entre as irregularidades apontadas estão:
- ausência de inscrição no Cadastro de Prestadores de Serviços Turísticos (Cadastur);
inexistência de seguro de responsabilidade civil; - falta de termos formais de ciência dos riscos e responsabilidade assinados pelos participantes.
- Na avaliação dos promotores, essas exigências já eram obrigatórias quando ocorreu o acidente.
Ministério Público pede prisão preventiva e indenização
Além da denúncia criminal, o Ministério Público pediu que os três homens permaneçam presos preventivamente.
Em relação à organizadora, os promotores solicitaram que a prisão temporária seja convertida em prisão preventiva.
O órgão também pediu que, em caso de condenação, a Justiça fixe indenização mínima de R$ 200 mil pelos danos causados à família da vítima.
Relembre como aconteceu a tragédia
Maria Eduarda Rodrigues de Freitas participou de um evento de rope jump realizado na Ponte do Esqueleto, entre Limeira e Cordeirópolis, no dia 13 de junho.
O esporte consiste em um salto de grande altura com o praticante preso por uma corda de segurança conectada a uma estrutura de ancoragem.
Segundo a investigação, no momento do salto, Maria Eduarda não estava presa à corda.
Ela foi lançada de aproximadamente 30 metros de altura em queda livre e morreu pouco depois.
Imagens gravadas no local mostram três instrutores levantando a jovem e realizando o lançamento antes da queda.
Ponte poderá ser demolida após acidente
Após a tragédia, autoridades passaram a discutir medidas para impedir novos acessos à Ponte do Esqueleto.
Representantes da Secretaria do Patrimônio da União (SPU), da Advocacia-Geral da União (AGU) e das prefeituras de Limeira e Cordeirópolis avaliaram alternativas para aumentar a segurança no local.
Entre as possibilidades analisadas estão:
- reforço dos bloqueios de acesso;
- fechamento definitivo das entradas irregulares;
- demolição da estrutura.
- Segundo as administrações municipais, as medidas buscam evitar novos acidentes enquanto uma solução definitiva é discutida.
O que acontece agora?
Com o oferecimento da denúncia, caberá ao Judiciário decidir se aceita a acusação.
Caso isso ocorra, os quatro denunciados passarão à condição de réus e responderão ao processo criminal.
Durante a ação penal, as defesas poderão apresentar seus argumentos, produzir provas e contestar as acusações. Até eventual condenação definitiva, todos têm direito à ampla defesa e ao contraditório.
Entenda o contexto
A morte de Maria Eduarda provocou forte repercussão nacional por envolver uma atividade de alto risco que, segundo o Ministério Público, era realizada sem cumprir protocolos básicos de segurança.
A investigação concluiu que os responsáveis assumiram conscientemente riscos incompatíveis com esse tipo de prática e que falhas operacionais foram determinantes para o acidente.
Além da responsabilização criminal dos envolvidos, o caso reacendeu o debate sobre a fiscalização de esportes radicais explorados comercialmente e sobre a necessidade de regras mais rígidas para garantir a segurança dos participantes.