Operação Ouroboros prende presidente do Instituto Rio Metrópole

MPRJ realiza operação contra fraude e lavagem de dinheiro envolvendo altos valores no Instituto Rio Metrópole.
Redação NC News
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O Ministério Público do Rio de Janeiro prendeu, nesta quinta-feira (9), o presidente do Instituto Rio Metrópole, Davi Perini Vermelho, o Didê, e outros quatro envolvidos em um esquema de corrupção que desvia R$ 86 milhões de contratos da autarquia estadual.

Esquema mira R$ 86 milhões em contratos ilegais

A Operação Ouroboros expõe uma engrenagem de fraude que atinge o coração do planejamento metropolitano do Rio. Os promotores afirmam que contratos ilegais somam R$ 86 milhões, dinheiro público que deveria financiar estudos, obras e serviços para a região metropolitana.

Segundo o MPRJ, “o Ministério Público do Rio (MPRJ) iniciou nesta quinta-feira (09) a Operação Ouroboros, contra um esquema de corrupção no Instituto Rio Metrópole (IRM)”. A autarquia é responsável por projetos estratégicos de mobilidade, urbanismo e desenvolvimento integrado, como o plano diretor da região e estudos de transporte que impactam milhões de pessoas.

Parte expressiva desses recursos, em vez de chegar a projetos e serviços, circula em espécie. Promotores apontam que “parte desse dinheiro foi sacado por uma ex-fiscal do IRM, conhecida como ‘Mulher da Mala’, que tinha, inclusive, escolta”. A imagem de malas de dinheiro saindo de um órgão técnico de Estado resume a gravidade do caso.

Como funcionava a engrenagem de desvio

A denúncia do Grupo de Atuação Especializada de Defesa da Integridade e Repressão à Sonegação Fiscal atinge 11 pessoas por organização criminosa, corrupção passiva, fraude em licitação e lavagem de dinheiro. Seis mandados de prisão são expedidos, além de nove de busca e apreensão. Até o início da manhã, cinco suspeitos estão presos, incluindo Didê e a gestora de contratos Amanda Íthala Santos da Paschoa.

O Ministério Público descreve uma rede que mistura dirigentes do IRM, advogados públicos, empresários e operadores financeiros. No centro do desenho aparece o diretor de planejamento e projetos, Mauricio Silva Knoploch, pai do deputado estadual Alexandre Knoploch (PL). Segundo a investigação, “Mauricio Silva Knoploch é apontado como articulador do direcionamento das licitações em favor das contratadas”.

As licitações são moldadas para favorecer empresas específicas, que depois repassam parte dos valores a uma entidade de fachada, o Instituto BIO. A ponte entre o dinheiro público e o caixa paralelo é Caroline Soares Barros, ex-fiscal de contratos do IRM e presidente do BIO.

Caroline acumula a função técnica de fiscalização com o comando da entidade usada para lavar recursos. As investigações indicam que ela é a “Mulher da Mala” citada pelos promotores, responsável por sacar valores em espécie e transportar o dinheiro desviando-se do sistema bancário.

Após a saída de Caroline, entra em cena Amanda Íthala, nora de Mauricio Knoploch. “Amanda Íthala Santos da Paschoa sucedeu Caroline na fiscalização, além de ter atestado a execução dos contratos, o que deu respaldo aos pagamentos”, afirma o Ministério Público. Na prática, a assinatura da gestora chancela medições e libera faturas que, segundo a acusação, não correspondem à realidade dos serviços.

O esquema conta ainda com apoio interno no controle de gastos e na segurança das operações em espécie. Franquis Dias Nepomuceno, diretor de Desenvolvimento Metropolitano Integrado do IRM e delegado da Polícia Civil, exerce papel-chave nos bastidores. De acordo com a investigação, “Franquis Dias Nepomuceno atuava como ordenador de despesas e realizava o controle de fato do grupo RioForte, responsável pela escolta armada do dinheiro”.

A RioForte opera como um braço de segurança paralelo. A atuação descrita pelos promotores inclui a proteção armada da “Mulher da Mala” durante o transporte de grandes quantias em espécie, numa tentativa de dar aparência de profissionalismo a uma operação criminosa.

Na esfera jurídica, os contratos suspeitos ganham uma espécie de blindagem. O procurador do Estado Marcelo Lopes da Silva, responsável pela Procuradoria-Geral do IRM, é acusado de sustentar o arranjo. Segundo a denúncia, “Marcelo Lopes da Silva é procurador do Estado, à frente da Procuradoria-Geral do IRM, acusado de emitir pareceres que deram cobertura jurídica às contratações e ao reajuste irregular do contrato”.

Empresas, fachada e circulações de dinheiro

O caminho do dinheiro passa por diferentes empresas privadas. A R. Peotta, de Roberto Accioly Peotta e Roberto Peotta, é uma das contratadas pelo IRM. De acordo com o Ministério Público, a companhia repassa parte dos valores ao Instituto BIO, que atua como lavanderia financeira.

Outros integrantes completam a cadeia. Leilson, ligado à RioForte, responde por operações ligadas à escolta do dinheiro. Gerson e Hélio, da Engeconsult, dão suporte ao esquema, segundo a acusação, garantindo que as empresas favorecidas se encaixem nas licitações dirigidas.

Enquanto alguns dos suspeitos estão atrás das grades, outros cumprem medidas cautelares como monitoramento eletrônico e proibição de sair do país. O Judiciário tenta equilibrar a preservação da investigação com garantias individuais, em um caso que atinge figuras com trânsito no meio político e técnico.

Impacto na gestão metropolitana e pressão por mudanças

O Instituto Rio Metrópole nasce para coordenar políticas públicas em uma região onde vivem mais de 12 milhões de pessoas. Seu papel inclui integrar transporte, habitação, saneamento e uso do solo entre o Rio e as cidades vizinhas.

O bloqueio de R$ 86 milhões em contratos fraudulentos atinge diretamente essa missão. Quando o dinheiro que deveria financiar estudos, mapas de risco, projetos viários e programas de urbanização some em malas, o efeito recai sobre o cotidiano de quem passa horas em ônibus lotados, enfrenta enchentes anuais ou mora em áreas sem infraestrutura básica.

Especialistas em gestão pública ouvidos ao longo de outras operações apontam que esquemas desse tipo empobrecem o Estado em duas frentes. Falta dinheiro para investir e sobra desconfiança sobre qualquer projeto público. A cada escândalo, a confiança na capacidade do poder público de planejar o futuro metropolitano se desgasta.

A Operação Ouroboros tende a ampliar a pressão por transparência no IRM e em outras autarquias. Governos estaduais de diferentes gestões vêm apostando em institutos, agências e fundos especiais para tocar projetos complexos, muitas vezes com regras mais flexíveis de contratação. O caso reacende o debate sobre controles internos, publicidade de contratos e responsabilidade de dirigentes indicados politicamente.

O que vem depois das prisões

Com 11 denunciados e seis mandados de prisão expedidos, a investigação entra agora na fase de análise detalhada de documentos, quebras de sigilo e rastreamento de bens. O material coletado nas nove buscas e apreensões pode revelar novas conexões, contratos paralelos e empresas de fachada ainda não mapeadas.

Promotores não descartam desdobramentos em outros órgãos e contratos. A apuração sobre o IRM expõe um modelo sofisticado de fraude, que combina influência política, postos-chave na máquina pública, pareceres jurídicos sob medida e empresas dispostas a participar da engrenagem.

No curto prazo, o governo estadual precisa recompor a direção do Instituto Rio Metrópole e revisar contratos em andamento. A continuidade de projetos estratégicos, como planos de mobilidade e estudos urbanos, depende de uma limpeza rápida e de novos mecanismos de controle.

A médio e longo prazo, o impacto será medido na capacidade do Estado de recuperar recursos desviados, punir os responsáveis e reconstruir a credibilidade de suas instituições. A pergunta que se impõe, para além das prisões de hoje, é se o sistema de licitações e fiscalização vai mudar o suficiente para impedir que a próxima “Mulher da Mala” surja em outro gabinete.

 

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