Inflação de junho surpreende e mercado aposta em corte da Selic

IPCA de junho fica abaixo do esperado, impulsionando expectativas de redução da taxa Selic em agosto.
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

A inflação oficial desacelerou em junho e mudou o humor do mercado brasileiro nesta sexta-feira, 9. O IPCA sobe 0,16% no mês, bem abaixo da projeção de 0,31%, e reforça a aposta de que o Banco Central corta a taxa Selic no início de agosto.

Inflação mais fraca reabre espaço para juros menores

O dado divulgado pelo IBGE reduz a pressão inflacionária imediata e dá fôlego à economia, hoje travada por juros de 14,25% ao ano. Em 12 meses até junho, a inflação acumulada fica em 4,64%, inferior aos 4,80% projetados por analistas.

Os números vêm depois de uma alta de 0,58% em maio e alimentam a percepção de que o ciclo de flexibilização monetária pode continuar. No jargão do mercado, a “surpresa benigna” de inflação abre espaço para mais um corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica.

Em relatório a clientes, o diretor da consultoria Wagner Investimentos, José Faria Júnior, resume o sentimento predominante nas mesas de operação. “Sem dúvida, o número (do IPCA) reforça a percepção de que o Copom seguirá cortando a Selic. Em agosto nos parece certo”, escreve.

Curva de juros recua e apostas mudam na B3

Na B3, a reação é imediata. As taxas dos contratos futuros de juros, os DIs, recuam de forma consistente já na abertura dos negócios. O movimento reflete a revisão das apostas para a trajetória da taxa Selic hoje e nos próximos anos.

Às 9h34, o DI para janeiro de 2028 marca 13,855% ao ano, uma queda de 19 pontos-base em relação ao ajuste anterior, de 14,04%. No trecho mais longo da curva, o contrato para janeiro de 2035 cai para 14,28%, recuo de 15 pontos-base frente aos 14,431% da véspera.

As opções de Copom negociadas na bolsa também mostram uma guinada. Na atualização mais recente, da quarta-feira, 5 de julho, os derivativos indicam 72% de probabilidade de corte de 0,25 ponto na reunião de agosto, contra apenas 26,9% de chance de manutenção da Selic em 14,25%.

Três semanas antes, em 17 de junho, o quadro é o oposto: 27,5% de probabilidade de corte e 67% de manutenção. A inflação de junho consolida essa inversão de expectativas e fortalece a tese de continuidade dos cortes graduais.

Selic mais baixa: quem ganha e quem perde

Um novo ajuste para baixo da taxa básica, ainda que modesto, tende a aliviar o custo do crédito para famílias e empresas. Em linhas gerais, a taxa Selic hoje serve de referência para tudo: do rotativo do cartão de crédito aos financiamentos de longo prazo.

Setores mais sensíveis aos juros, como construção civil, mercado imobiliário, indústria automotiva e varejo, costumam ser os primeiros a sentir o alívio. Crédito imobiliário, empréstimos para compra de veículos e capital de giro tendem a ficar gradualmente mais baratos conforme a curva de juros recua.

Para o investidor conservador, que concentra recursos em aplicações atreladas à Selic ou a títulos do Tesouro e CDBs pós-fixados, o cenário é diferente. A perspectiva de juros menores pressiona o rendimento futuro desses produtos e incentiva parte do público a buscar alternativas, como papéis prefixados ou atrelados à inflação.

Os movimentos na taxa Selic acumulada, na tabela de juros futuros e nas projeções para 2026 passam a orientar decisões de investimento e planejamento financeiro de longo prazo, tanto de pessoas físicas quanto de empresas.

Alimentos, petróleo e o limite do ciclo de cortes

A boa notícia da inflação de junho não resolve, porém, todas as incertezas no radar do Comitê de Política Monetária do Banco Central. Faria Júnior faz um alerta no mesmo relatório. “A dinâmica dos preços dos alimentos e do petróleo determinarão a expansão do ciclo de corte”, afirma.

Os dois itens seguem no centro das atenções. Choques em alimentos por clima adverso ou problemas nas safras podem reacender a inflação doméstica. No front externo, o petróleo Brent gira em torno de US$ 76 por barril, em meio a um cenário geopolítico ainda instável no Oriente Médio.

Tensões entre Estados Unidos e Irã mantêm o mercado atento ao fluxo de navios-tanque pelo Estreito de Ormuz, rota crucial para o transporte de gás natural liquefeito e petróleo. Qualquer interrupção relevante nessa região tende a pressionar as cotações das commodities e, em última instância, os preços ao consumidor no Brasil.

O Banco Central monitora esses riscos para calibrar o ritmo e a duração dos cortes. Um cenário de alimentos e petróleo comportados favorece uma trajetória mais longa de redução da taxa Selic hoje banco central. Uma reversão, ao contrário, pode levar o Copom a desacelerar ou interromper o ciclo.

Próximos passos do Copom e o olhar até 2026

A reunião do Copom no início de agosto ganha peso após o IPCA de junho. A sinalização mais provável, na avaliação de analistas, é pela manutenção de cortes graduais, em doses de 0,25 ponto, com discurso ainda cauteloso.

O mercado passa a revisar tabelas de projeção da taxa Selic 2026, tentando antecipar o nível de juros neutro, aquele que nem estimula nem freia a economia. Boa parte das casas trabalha com a hipótese de uma Selic em patamar significativamente inferior aos 14,25% atuais ao longo dos próximos anos, caso a inflação siga convergindo para a meta.

A trajetória exata depende de variáveis que ainda estão em aberto: evolução dos preços administrados, política fiscal, crescimento global e, sobretudo, o comportamento de alimentos e petróleo. O dado de junho, porém, marca um ponto de inflexão relevante e fortalece a leitura de que o Brasil entra numa fase de juros em queda.

Nas próximas semanas, cada indicador de inflação, cada dado de atividade e cada movimento nas commodities deve ser escrutinado por investidores e pelo próprio Banco Central. A decisão de agosto pode definir, na prática, se o ciclo de cortes ganha tração ou permanece em marcha lenta, com efeitos diretos sobre o mercado financeiro, o crédito e o bolso do consumidor.

 

Carregar Comentários