Expedição cria réplica digital do navio de Shackleton no Ártico

Equipe internacional mapeia destroços históricos no Mar do Labrador, ampliando o conhecimento sobre expedições polares.
Redação NC News
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Uma expedição internacional liderada pelo canadense John Geiger passou três dias, em julho deste ano, mapeando em detalhe os destroços do navio Quest, no Mar do Labrador. O objetivo é criar uma réplica digital permanente do antigo barco de Ernest Shackleton, afundado em 5 de maio de 1962 no Ártico canadense.

Do naufrágio esquecido ao laboratório digital

O trabalho marca um passo decisivo na forma como o mundo lida com naufrágios históricos. Em vez de novas missões arriscadas e caras, pesquisadores passam a acessar versões digitais fiéis do fundo do mar. O Quest, esmagado por blocos de gelo depois de quatro décadas caçando focas no Ártico, torna-se agora um caso de estudo para arqueólogos, biólogos e historiadores.

Os destroços foram localizados pela primeira vez em 2024, pela Expedição Shackleton Quest, também liderada pela Royal Canadian Geographical Society (RCGS). Naquele momento, a equipe obtém apenas imagens de sonar de varredura lateral, suficientes para confirmar a posição do naufrágio, mas não seus detalhes. Geiger decide voltar com tecnologia mais precisa e uma equipe reforçada.

“Ver o navio de Shackleton e pensar que Shackleton estava naquele convés há um século. No início, havia muita escuridão, mas de repente a proa surge à medida que você se aproxima. É incrível”, diz Geiger, CEO da RCGS e líder da missão. A frase resume o apelo emocional e científico que move o grupo.

Equipe de elite e tecnologia canadense no fundo do mar

O time reúne alguns dos nomes mais respeitados da exploração subaquática. O caçador de naufrágios David Mearns coordena a busca e a interpretação das imagens. A arqueóloga marinha Cora Annamaiya Norling, do Njord Center, ligado ao Museu Nacional da Dinamarca, cuida da leitura histórica dos vestígios. A ecologista bentônica Kirstin Meyer-Kaiser, do Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI), observa os ecossistemas que se formam sobre o casco. O diretor de pesquisa da RCGS, Antoine Normandin, o historiador e autor Jan Chojecki, de “The Quest Chronicle”, e o historiador Geir Kløver, diretor do Museu Fram, completam a equipe central.

No mar gelado do Labrador, eles operam veículos subaquáticos equipados com câmeras e sensores de alta resolução. A peça-chave é o sistema de fotogrametria subaquática Voyis, desenvolvido no Canadá. A tecnologia registra milhares de imagens sobrepostas e transforma tudo em um modelo tridimensional preciso do naufrágio, visível em qualquer tela, de um laptop em terra firme a um grande museu.

Na primeira descida, os especialistas se deparam com um obstáculo moderno: grandes redes de pesca enroscadas no casco, obscurecendo partes importantes do Quest. As estruturas confirmam o impacto humano contínuo sobre o fundo do mar, mesmo em áreas remotas do Ártico. As imagens produzidas ajudam a mapear esses riscos e alimentam o debate sobre a proteção desses sítios.

Shackleton, Scott e a Era Heroica sob nova luz

O Quest carrega peso simbólico raro na história da exploração polar. Ernest Shackleton, um dos maiores exploradores antárticos, morre a bordo do navio em 1922, aos 47 anos, no início de sua última expedição rumo ao sul. Antes disso, ele comandara a epopeia do Endurance, que fica dois anos preso no gelo do Mar de Weddell, episódio que entra para o imaginário como uma das maiores histórias de sobrevivência coletiva.

Depois da morte de Shackleton, o Quest é vendido a uma família norueguesa e passsa 40 anos caçando focas em águas geladas, muitas delas canadenses. Em 1962, ao fim de mais uma temporada no Mar do Labrador, é esmagado por blocos de gelo e afunda em 5 de maio. Por décadas, o naufrágio permanece distante dos radares científicos, tratado quase como nota de rodapé na biografia do explorador.

A expedição atual recoloca o navio no centro da chamada Era Heroica da exploração antártica, período do início do século 20 marcado por disputas entre potências e por expedições de alto risco. Ainda em julho, o navio de pesquisa segue rumo ao nordeste, em direção à Groenlândia, para examinar um segundo naufrágio emblemático: o Terra Nova, último navio de Robert Falcon Scott, rival de Shackleton.

Scott chega ao Polo Sul em 1912, cinco semanas depois de Roald Amundsen, e morre no retorno, com quatro companheiros. O Terra Nova também atua como navio de caça às focas em águas canadenses, criando um elo histórico com o Quest e reforçando o papel do Canadá na logística da exploração polar.

Do Titanic ao futuro dos naufrágios digitais

A missão no Labrador dialoga com outra história de fundo do mar que fascina o público há mais de um século: o naufrágio do Titanic, no Atlântico Norte. O submersível tripulado Alvin, operado por pesquisadores norte-americanos, é o primeiro veículo desse tipo a visitar os destroços do transatlântico, há cerca de 40 anos. A visita marca uma virada na exploração em grandes profundidades.

Pesquisadores relatam que grande parte da estrutura do Titanic ainda se mantém reconhecível, com proa, trechos de convés e vigias visíveis, embora o mastro principal esteja caído. O casco se cobre de corais rosados, e cardumes de bacalhau, peixe-vermelho e peixe-lobo transformam o naufrágio em recife artificlal, espécie de ilha metálica para a fauna do fundo do mar.

A experiência acumulada no Titanic abre caminho para o modelo adotado agora no Quest. Em vez de depender apenas de mergulhos esporádicos e caros, as equipes produzem um arquivo digital permanente, que pode ser revisitado a qualquer momento. O acesso remoto reduz o impacto direto sobre os destroços e a fauna que os cerca, ao mesmo tempo que amplia o alcance educacional e científico.

Para a arqueologia marinha, a história marítima e a ecologia bentônica, o ganho é imediato. Detalhes do casco, marcas de impacto do gelo, deformações estruturais e a própria ocupação biológica passam a ser medidos com rigor. A indústria de tecnologia subaquática ganha um laboratório real para testar sensores, câmeras e softwares, enquanto o turismo de exploração precisa se adaptar a um cenário em que a proteção de sítios históricos ganha mais peso.

Especialistas veem na iniciativa um modelo para futuros protocolos internacionais sobre naufrágios. Réplicas digitais de alta qualidade tendem a influenciar regras de preservação, licenciamento de mergulhos turísticos e cooperação entre países. Ao mesmo tempo, reforçam o interesse público por histórias como as de Shackleton e Scott, agora contadas com a precisão de um escaneamento milimétrico do fundo do mar.

Nos próximos anos, a expectativa é que outros naufrágios icônicos, inclusive no Atlântico Sul e em costas brasileiras, passem por processos semelhantes de mapeamento. A pergunta deixa de ser apenas onde estão os destroços, mas como garantir que continuem acessíveis, íntegros e vivos na memória coletiva, mesmo a milhares de metros abaixo da linha d’água.

 

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