Quando a cooperação e a inovação transformam resíduo em riqueza: a lição do RECA na valorização do cupuaçu

Há mais de 40 anos, os primeiros migrantes do Sul e Sudeste do Brasil chegaram à maior capital em extensão territorial do país. Eles vinham movidos pelo sonho de encontrar uma "nova Califórnia" e pela chance de mudar a história de suas famílias. Em uma terra virgem e glorificada por quem a oferecia, encontraram um solo que perecia, mas que, com cooperação, poderia florescer.
Redação NC News
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A Cooperativa de Reflorestamento Econômico Consorciado e Adensado (Projeto RECA) foi fundada anos após o desembarque dos migrantes, em 1989, e a escolha do nome não foi por acaso. Quando os sulistas e sudestinos chegaram a Rondônia, foram fortemente orientados a desmatar a terra para cultivar monoculturas em larga escala. Sensíveis à voz da floresta, os agricultores recusaram a orientação ao perceber que “a mata aberta significava sol constante e, por isso, a terra morria”.

“Nós somos um grupo de produtores que vieram em busca do tão sonhado pedaço de terra, numa época de demarcação. É interessante que hoje a gente trabalha com reflorestamento, mas naquela época entregavam a terra pra gente e diziam: ‘Derruba! Se você não derrubar, a gente toma a terra e dá pra outro’. Desenvolvimento significava derrubar, mas hoje desenvolvimento significa reflorestar”, conta o presidente da cooperativa.

Sistema Agroflorestal: o pilar da cooperação

A união com povos tradicionais e seringueiros que já habitavam a região foi a melhor alternativa para encontrar soluções que mitigassem a degradação do solo. O uso de plantas nativas, que já eram conhecidas na localidade e davam frutos em abundância, integradas a árvores medicinais e florestais, permitiu que o RECA se tornasse pioneiro em Rondônia no uso de Sistemas Agroflorestais (SAFs).

SAF do Reca. Foto: Acervo RECA

“Na época, a gente não conhecia essa palavra, SAF, né?! Começamos com um consórcio de frutíferas amazônicas, plantando cupuaçu, pupunha e castanha. O projeto deu muito certo, e muitos dos nossos agricultores que vieram do Sul e Sudeste não conheciam esses frutos. Eu, por exemplo, não conhecia o açaí”, relata.

Diante do avanço das mudanças climáticas e do desafio de reflorestar áreas degradadas, mantendo a produtividade agrícola e a renda, o uso de SAFs tornou-se uma das soluções mais eficazes. “Os benefícios econômicos são múltiplos. Garantem renda ao longo do tempo, com espécies de crescimento rápido, de médio prazo — como as frutíferas — e, a longo prazo, as madeireiras de alto valor agregado. As árvores desempenham um papel vital na redução da degradação, melhorando a qualidade do solo e da água”, explica a organização World Resources Institute (WRI).

O modelo aplicado pela RECA serve de inspiração para outras regiões. A Ecoporé, organização focada em restauração ecológica, implementou em 2023 um SAF na Terra Indígena Cassupá e Salamãi, em uma área de antigo campo de futebol desativado. Lá, cultivam-se andiroba, cupuaçu, castanheiras e culturas dinâmicas como banana, abacaxi e mandioca. Sheila Noele, diretora técnica da Ecoporé, destaca que ações como essa funcionam como ferramenta política de afirmação territorial: “Eles estão tirando alimento dessa área. Hoje, ninguém mais destina lixo ali; não é mais uma área abandonada. Isso só funciona com a cooperação de todos”.

SAF na TI Cassupá. Foto: Flávio Santos

Uma Epifania Estratégica

E foi a partir da cooperação que a instituição, cuja missão é “ser uma organização social, produtiva e de base familiar comunitária, referência pelo seu jeito de caminhar solidário que promove a sustentabilidade e o bem viver, respeitando a sociobiodiversidade da Amazônia”, pôde integrar a palavra inovação em seu DNA. A perspicácia de seus membros em perceber que grandes negócios nascem de ideias inovadoras também é um dos grandes motores da história da cooperativa. O cupuaçu, fruto nativo da Amazônia, é conhecido por ter uma polpa carnuda que rende deliciosos doces e sucos. Mas, como o RECA costuma ir na contramão do óbvio, percebeu que o verdadeiro sucesso do fruto estava escondido atrás da vistosa polpa branca: a semente.

Fruto do Cupuaçu. Foto: Acervo Ecoporé

Uma decisão visionária mudou o curso da história: o verdadeiro tesouro não estava no que se via, mas no que se descartava. A semente, antes um resíduo, revelou-se o ouro da cooperativa. “A gente plantava cupuaçu para polpa e quase cometeu um grande erro [de investir somente nela], porque hoje o grande negócio do cupuaçu é a semente. É dela que a gente tira a manteiga para cosméticos e produtos medicinais, e da torra nós fazemos o ‘chocolate’ de cupuaçu [cupulate]”, conta.

Caroço do cupuaçu. Foto: Acervo Ecoporé

Trabalhar com frutos da Amazônia segue sendo o carro-chefe da cooperativa, mas o cupuaçu tem um lugar de destaque. Para coroar o trabalho, a instituição mantém uma parceria comercial consolidada com a Natura, que compra a matéria-prima para produzir óleos e hidratantes corporais.

“O cupuaçu tem uma safra gigantesca aqui no RECA. São mais de 140 produtores, mais de 360 famílias envolvidas, e isso gera muito emprego no período de chuvas”, explicou Vandir da Silva Lima, gerente de produção.

Em 2026, o RECA bateu o recorde na safra do cupuaçu, com quase 700 toneladas de polpa do fruto, dado que reforça que, com a união das pessoas, o sonho pode se tornar realidade.

“E a gente fala que uma das fortalezas do RECA na história foi a junção dos conhecimentos. A gente acredita muito que o que fez dar certo foi essa união de pessoas que vieram de fora, que sabiam sobre associativismo e cooperativismo, com o conhecimento que os nativos tinham sobre a floresta”, conclui.

Caminhão carregado para entrega de óleo de cupuaçu. Foto: Thaís Nauara

Reportagem: Thaís Nauara

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