A fábrica da BYD em Camaçari, na Bahia, volta ao centro de uma nova crise trabalhista poucos meses após o escândalo envolvendo trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão. Agora, a montadora chinesa enfrenta denúncias de assédio moral e sexual, além de uma campanha salarial marcada por protestos, paralisação de funcionários e tensão com a Polícia Militar.
Nesta segunda-feira (13), o Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari entrega oficialmente à empresa a pauta de reivindicações da categoria. A expectativa é que as primeiras negociações entre sindicato e montadora comecem já na próxima semana.
O que motivou a nova mobilização?
Além da campanha salarial, o movimento ganhou força por causa de denúncias feitas por trabalhadores contra lideranças da fábrica.
Segundo o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari, Júlio Bonfim, funcionárias relataram formalmente episódios de assédio moral e sexual envolvendo gestores chineses e brasileiros.
Embora o sindicato afirme ter recebido as denúncias, ainda não foram divulgados o número de casos, quando os episódios teriam ocorrido nem se as reclamações já foram formalmente encaminhadas aos órgãos de investigação.
Mesmo assim, a entidade informou que pretende levar o assunto ao Ministério Público e discutir medidas específicas de combate ao assédio durante as negociações com a empresa.
Quais são as reivindicações dos trabalhadores?
A pauta apresentada à BYD reúne reivindicações econômicas e também mudanças nas condições de trabalho.
Entre os principais pedidos estão:
- reajuste salarial de 15%;
- aumento do vale-alimentação para R$ 850;
- redução do custo do plano de saúde;
- maior acesso do sindicato aos trabalhadores dentro da fábrica;
- criação de políticas permanentes de prevenção ao assédio moral e sexual.
- Segundo o sindicato, essas medidas são consideradas prioritárias diante do crescimento da operação da montadora no Brasil.
Assembleia terminou em clima de tensão
A assembleia realizada na última quinta-feira (9) terminou com um clima de forte tensão.
De acordo com o sindicato, três viaturas da Polícia Militar chegaram ao local durante a reunião dos trabalhadores.
A entidade afirma que cerca de 14 policiais armados permaneceram próximos à entrada da fábrica, situação que teria intimidado parte dos funcionários.
Vídeos divulgados nas redes sociais mostram dirigentes sindicais criticando a presença da corporação e orientando os trabalhadores a não entrarem na unidade enquanto as viaturas permanecessem no local.
Segundo o sindicato, os funcionários do primeiro turno deixaram a fábrica após a assembleia. Os demais turnos trabalharam normalmente ainda naquele dia, e o primeiro grupo retomou as atividades na manhã seguinte.
Sindicato vai discutir atuação da Polícia Militar
Além da negociação salarial, representantes do sindicato têm uma reunião marcada com o comando da Polícia Militar da Bahia.
Segundo a entidade, o objetivo é discutir a atuação dos policiais durante a assembleia e evitar que situações semelhantes ocorram em futuras mobilizações.
O sindicato afirma reconhecer a importância da corporação para a segurança pública, mas considera inadequada a presença de policiais durante uma assembleia sindical.
Caso reacende debate após escândalo do trabalho escravo
A nova mobilização acontece poucos meses depois de a fábrica da BYD ganhar repercussão nacional por causa de uma investigação envolvendo trabalhadores chineses empregados na construção do complexo industrial.
Durante fiscalizações realizadas no fim de 2024, autoridades resgataram trabalhadores que, segundo o Ministério Público do Trabalho, estavam submetidos a condições degradantes, jornadas exaustivas e outras irregularidades que caracterizariam trabalho em condições análogas à escravidão.
As investigações apontaram problemas como alojamentos precários, retenção de documentos, descontos elevados nos salários e restrições à liberdade dos trabalhadores.
Posteriormente, o Ministério Público do Trabalho moveu uma ação civil pública contra empresas responsáveis pelas obras do complexo.
As partes firmaram posteriormente um acordo de R$ 40 milhões destinado ao pagamento de indenizações e reparações. A BYD contestou as acusações e afirmou que não tolera qualquer violação da legislação brasileira ou dos direitos humanos.
Protestos já haviam ocorrido neste ano
Esta não é a primeira mobilização registrada na unidade em 2025.
Meses atrás, trabalhadores terceirizados denunciaram problemas relacionados às condições de trabalho, incluindo dificuldades de acesso à água, alimentação, transporte, banheiros e vestiários.
Na ocasião, a BYD informou que acompanhava as empresas contratadas e afirmou que diversas melhorias já haviam sido implementadas.
Agora, diferentemente dos protestos anteriores, a mobilização é liderada diretamente pelo sindicato que representa os empregados da própria montadora.
O que diz a BYD?
Até a publicação desta reportagem, a BYD não havia se manifestado sobre as novas denúncias de assédio moral e sexual nem sobre as reivindicações apresentadas pelo sindicato.
Também não houve posicionamento oficial da Polícia Militar da Bahia sobre as críticas relacionadas à atuação da corporação durante a assembleia.
O que acontece agora?
A pauta de reivindicações será oficialmente entregue à empresa nesta segunda-feira, abrindo a negociação da campanha salarial de 2026.
Segundo o sindicato, as primeiras reuniões entre representantes dos trabalhadores e da montadora devem ocorrer já na próxima semana.
Além das questões salariais, a expectativa é que as denúncias de assédio e as condições de trabalho estejam entre os principais temas das negociações.
Entendo o contexto
A BYD instalou em Camaçari (BA) sua principal fábrica no Brasil, considerada estratégica para a produção nacional de veículos elétricos e híbridos.
Nos últimos meses, porém, o complexo passou a enfrentar uma série de crises trabalhistas. Primeiro, vieram as investigações sobre trabalhadores encontrados em condições análogas à escravidão durante as obras da fábrica. Agora, denúncias de assédio moral e sexual e novas reivindicações trabalhistas voltam a colocar a empresa sob pressão.
As negociações salariais que começam nesta semana devem definir não apenas questões econômicas, mas também medidas relacionadas ao ambiente de trabalho e à relação entre a empresa e seus funcionários.