O que parecia ser um simples colírio transformou-se em momentos de desespero para um homem de 50 anos em Paracatu, no Noroeste de Minas Gerais. Ao confundir o frasco com uma cola instantânea que carregava no mesmo bolso, ele aplicou o produto diretamente no olho direito e chegou a ser levado para o Hospital Municipal de Paracatu, com as pálpebras coladas.
Durante o atendimento, o erro se repetiu de outra forma. Ao tentar lavar o rosto, o paciente passou álcool líquido, pensando se tratar de água, e provocou novo susto na equipe de plantão.
De acordo com a Prefeitura de Paracatu, “a equipe médica conseguiu remover a cola e descolar as pálpebras sem complicações”. O homem recebeu alta para se recuperar em casa, mas não retornou ao hospital para a revisão prevista nesta semana.
O caso ganhou repercussão justamente no momento em que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou a suspensão da importação de colírios e géis oftálmicos produzidos pela fabricante francesa Excelvision por falhas na garantia de esterilidade. Embora os episódios não tenham relação entre si, ambos colocam em evidência os cuidados necessários com a saúde dos olhos e reforçam a importância de conferir sempre o produto antes da aplicação.
Falhas em fábrica francesa interrompem fornecimento
A medida da Agência Nacional de Vigilância Sanitária vale para todos os medicamentos produzidos pela Excelvision, após uma inspeção na planta da empresa em Annonay, na França, entre 3 e 5 de junho.
A fiscalização foi feita pela agência reguladora francesa ANSM e compartilhada com as autoridades brasileiras. O relatório aponta falhas graves nas boas práticas de fabricação, em especial na etapa que precisa garantir a esterilidade de colírios e géis oftálmicos.
Segundo a Anvisa, “a empresa não demonstrou capacidade consistente para garantir a esterilidade dos produtos fabricados”. Em produtos aplicados diretamente nos olhos, qualquer falha nesse ponto abre caminho para infecções, irritações intensas e danos à visão.
O Brasil suspende a importação dos colírios Hyabak e Thealiz Duo fabricados pela Excelvision em todos os lotes produzidos a partir de 5 de junho, data de referência da inspeção. Também fica barrada a entrada do medicamento Zonidra 20 mg/mL, em frasco de 5 mL, que tem registro no país, mas nunca foi vendido aqui.
A agência afirma que, até agora, não há produtos recentes da Excelvision disponíveis para compra nas farmácias brasileiras. A suspensão funciona como uma barreira preventiva para evitar que novos lotes entrem no mercado enquanto a situação sanitária da fábrica segue em análise.
O que muda na prática para pacientes e farmácias
A decisão afeta diretamente distribuidores, redes de farmácia e pacientes que buscam colírio lubrificante barato ou as versões mais caras indicadas por oftalmologistas para quadros crônicos de olho seco.
Na prática, nenhum lote de Hyabak e Thealiz Duo fabricado a partir de 5 de junho pode ser comercializado no país. Para quem já tem o produto em casa, a orientação é olhar com atenção a embalagem, identificar o local de fabricação e suspender o uso se o frasco tiver sido produzido pela Excelvision após essa data.
Em caso de dúvida sobre a origem, a recomendação é procurar a empresa responsável pela marca no Brasil e, diante de qualquer irritação, dor, vermelhidão intensa ou piora da visão, buscar atendimento médico imediato em pronto-socorros e serviços de oftalmologia.
O setor importador perde uma fornecedora relevante de colírio caro e de linhas especializadas, o que pode pressionar a oferta e influenciar preços em curto prazo. Outras empresas podem ocupar esse espaço, mas precisam demonstrar, diante da Anvisa, controle rígido de qualidade e esterilização.
A suspensão do Zonidra, ainda ausente das prateleiras brasileiras, antecipa um veto a uma futura entrada no mercado. O recado aos laboratórios é claro: sem comprovação robusta de qualidade, não há autorização para vender medicamentos oftálmicos no país.
Regulação mais rígida e educação em saúde no horizonte
A ação coordenada entre Anvisa e ANSM reforça a rede internacional de vigilância sobre medicamentos em circulação global. Quando uma autoridade identifica falhas graves, o efeito em cascata atinge mercados que importam da mesma fábrica.
Para a Excelvision, o desafio agora é corrigir os desvios, comprovar controle de esterilidade e convencer reguladores de que a produção voltou a ser segura. Sem isso, a suspensão pode se prolongar e reduzir o peso da empresa no mercado brasileiro de colírios lubrificantes e terapêuticos.
Para os consumidores, o episódio tende a acelerar discussões sobre rotulagem e design de frascos, tanto de colírios quanto de produtos de risco, como colas e químicos domésticos. Embalagens mais distintas, tampas com trava e avisos visuais mais claros podem evitar que um descuido transforme um tratamento simples em emergência oftalmológica.
Hospitais públicos e privados também precisam seguir atentos. A combinação de produtos potencialmente contaminados e acidentes domésticos com frascos parecidos aumenta a demanda por pronto-atendimentos especializados e por campanhas de educação em saúde.
Enquanto a Anvisa revê documentos e decide se mantém, amplia ou revoga a suspensão, pacientes que procuram nomes de colírios confiáveis devem redobrar a leitura de rótulos e conversar com o oftalmologista sobre alternativas seguras já disponíveis no país.
A disputa entre oferta, preço e segurança volta ao centro do debate. O desfecho, nos próximos meses, deve ditar não só quais produtos estarão nas prateleiras, mas também o padrão de vigilância sobre tudo o que chega perto dos olhos do brasileiro.