Daniel Ortega anunciou no domingo, 19, que a Nicarágua não terá mais eleições. O presidente, no poder desde 2007, fala diante de milhares de apoiadores em Manágua e explicita em público aquilo que vinha praticando na prática: o desmonte completo da disputa política no país.
O discurso, feito na Praça da Fé durante as celebrações da Revolução Sandinista de 1979, marca uma ruptura aberta com qualquer aparência de democracia. Ao eliminar o voto como mecanismo de alternância, Ortega transforma formalmente seu governo em um regime de partido único, centrado nele e na esposa, a vice Rosario Murillo.
Discurso que sepulta o voto
Em tom de desafio, Ortega declara que seu objetivo é impedir a volta da oposição ligada aos Estados Unidos e aos antigos aliados da dinastia Somoza, derrubada há 45 anos. Ele fala a um público mobilizado pela Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) e não esconde a intenção de se perpetuar no poder.
“Não haverá mais eleições aqui para que eles [a oposição] tentem tomar o governo e o poder”, afirma. Em seguida, reforça o recado: “Os dias em que partidos apoiados pelos ianques [Estados Unidos] e pelos somosistas voltariam ao poder acabaram. Nunca mais”.
O anúncio ocorre depois de uma escalada de medidas autoritárias. As eleições de novembro de 2021 já tinham sido classificadas como “ilegítimas” por Estados Unidos, União Europeia, Canadá e Costa Rica, após a prisão de todos os principais candidatos opositores. Agora, Ortega abandona até a fachada do processo eleitoral controlado.
Da revolução ao poder absoluto
Ortega é o rosto mais conhecido da revolução que derrota Anastasio Somoza em 1979. Em 1981, a direção da Frente Sandinista o elege coordenador do Conselho de Administração da Reconstrução Nacional, órgão que conduz a transição pós-ditadura.
“Daniel Ortega aproveitou sua personalidade discreta para se posicionar como o homem da Frente Sandinista no Conselho de Administração que foi instalado após a derrubada de Somoza”, analisa o jornalista Fabián Medina, autor de um perfil biográfico do mandatário. Em 1984, ele vence a eleição e governa até 1990.
Derrotado nas urnas em 1990, 1996 e 2001, Ortega retorna ao poder em 2007, já em outro figurino. Abandona o discurso revolucionário clássico, se apresenta como líder de “paz e reconciliação nacional” e monta alianças com velhos adversários para mudar regras do jogo e baixar a barreira de vitória em primeiro turno.
Medina lembra que o controle interno do partido é peça-chave dessa trajetória. “Já nos anos 1990 ele manteve o controle, eliminando dissidências e rivais internos que apareciam, de tal forma que, quando havia eleição, só restava ele”, diz. Nos últimos 37 anos, Ortega é o único candidato presidencial apresentado pela FSLN.
Repressão, prisões e mortes
A guinada abertamente autoritária se intensifica a partir de 2018, quando o governo responde com violência a protestos contra reformas da Previdência. Relatórios da Comissão Interamericana de Direitos Humanos descrevem o uso de paramilitares pró-governo, prisões arbitrárias e perseguição a opositores.
Nesse contexto, a repressão atinge estrangeiros. A médica brasileira Raynéia Gabrielle da Costa, residente em Manágua, é morta a tiros em julho de 2018. Um homem é condenado, mas depois anistiado. À época, fontes ouvidas pela imprensa brasileira o apontam como ligado ao regime de Ortega.
Desde então, jornalistas independentes, ativistas de direitos humanos e lideranças estudantis entram no alvo direto do governo. Meios de comunicação são fechados, redações invadidas, e dezenas de profissionais fogem do país para escapar de processos e ameaças.
No front político, a ofensiva é metódica. Reformas constitucionais derrubam limites de reeleição, permitem que o presidente governe por decretos com força de lei e garantem controle quase total sobre o Judiciário e o conselho eleitoral. Em 2026, Ortega dá um passo além e propõe mudanças para concentrar poder absoluto dele e de Rosario Murillo sobre os três Poderes do Estado.
Oposição desmontada e país isolado
A oposição chega a 2026 praticamente desarticulada. Lideranças são presas, colocadas em prisão domiciliar ou forçadas ao exílio. A candidata Cristiana Chamorro Barrios, herdeira do legado da ex-presidente Violeta Chamorro, é impedida de disputar a eleição de 2021 por acusações de lavagem de dinheiro e outros crimes considerados políticos por entidades internacionais.
A nova declaração de Ortega, abolindo na prática qualquer eleição futura, retira o último canal institucional de contestação. Partidos tradicionais ligados ao campo liberal, historicamente apoiados pelos Estados Unidos e por antigos somozistas, perdem de vez qualquer chance de voltar ao poder pela via do voto.
Externamente, a Nicarágua se isola. Estados Unidos, União Europeia, Canadá e Costa Rica ampliam sanções econômicas e restrições a altos funcionários do regime. Organismos internacionais discutem novas medidas para pressionar Manágua, enquanto países vizinhos lidam com o crescimento do fluxo de exilados e refugiados nicaraguenses.
No Brasil, a crise também repercute. A nota em que o PT saúda a vitória de Ortega em 2021, alvo de forte reação de aliados e adversários, acaba retirada do ar. O episódio alimenta o debate sobre os limites da solidariedade entre partidos de esquerda diante de regimes acusados de violar direitos humanos.
O que muda para os nicaraguenses
Na prática, o anúncio de 19 de julho consolida uma ditadura plena. Sem eleições competitivas no horizonte, a população perde o principal instrumento formal de expressão política. A mensagem a opositores, jornalistas e ativistas é clara: contestar o regime não terá espaço nas urnas e continuará sendo reprimido nas ruas.
O grande beneficiado é o próprio núcleo familiar no poder. Ortega e Rosario Murillo reforçam o controle sobre Executivo, Legislativo e Judiciário, além dos principais órgãos de segurança. A Frente Sandinista se converte em máquina de sustentação de um projeto personalista, distante das promessas originais de pluralismo feitas no pós-Somoza.
Setores empresariais, que durante anos convivem com o sandinismo em uma espécie de pacto pragmático, encaram um cenário de maior incerteza. Novas sanções internacionais tendem a afetar investimentos, remessas e crédito externo, com impacto direto sobre a economia nicaraguense, uma das mais pobres da América Latina.
A médio prazo, analistas temem um ciclo de tensão permanente: sociedade civil acuada, canais institucionais fechados, pressão internacional crescente e um governo disposto a usar a força para se manter. O que Ortega apresenta como blindagem contra o retorno dos “ianques” e dos “somozistas” aprofunda o que organismos de direitos humanos já descrevem como concentração extrema de poder.
O futuro imediato da Nicarágua passa, agora, pela formalização das mudanças constitucionais e pela capacidade — ou não — da comunidade internacional e da própria sociedade nicaraguense de encontrar freios a um projeto de poder que, a esta altura, já não esconde a intenção de durar indefinidamente.