Duas mulheres morrem e ao menos 24 pessoas ficam feridas após o tombamento de um ônibus que levava 45 trabalhadores rurais na manhã de terça-feira (21), em Águas da Prata, interior de São Paulo. O veículo perde o freio em um trecho de serra da Rodovia Deputado Januário Mantelli Neto (SP-215) e tomba depois de bater no guard-rail, por volta das 6h30.
As vítimas saem de cidades vizinhas para colher cebola em Poços de Caldas, em Minas Gerais, quando a viagem de rotina pela estrada que liga os dois estados termina em tragédia.
Jovem de 19 anos e trabalhadora de 59 morrem na hora
As mortes atingem em cheio duas famílias conhecidas em municípios pequenos do interior paulista. Maria Eduarda Corrêa Ferreira, de 19 anos, moradora de Itobi, e Josefa Alexandre da Silva, de 59 anos, de Santa Cruz das Palmeiras, não resistem aos ferimentos e morrem no local.
Os corpos são levados para o Instituto Médico Legal de São João da Boa Vista. O corpo de Josefa será velado nesta quarta-feira (22), a partir das 9h, no Velório Municipal de Santa Cruz das Palmeiras. Familiares ainda aguardam a definição de horário para o enterro. No caso de Maria Eduarda, a família espera a liberação do IML para organizar o velório em Itobi.
O ônibus transporta trabalhadores de Casa Branca, Santa Cruz das Palmeiras e Itobi, cidades que dependem da safra em Poços de Caldas para complementar a renda de muitas famílias. A morte de uma jovem de 19 anos e de uma trabalhadora de 59, que provavelmente somava décadas de idas e vindas pela mesma estrada, expõe a vulnerabilidade desse grupo.
Ônibus perde freio em descida de serra
O acidente acontece em São Roque da Fartura, distrito de Águas da Prata, já na área de serra, perto da divisa com Minas Gerais. A cidade, que tem pouco mais de alguns milhares de habitantes e fica na região de São João da Boa Vista, é conhecida entre peregrinos do Caminho da Fé e turistas que buscam clima ameno, cachoeiras e trilhas. Na prática, também é um corredor de ônibus de trabalhadores rurais e caminhões entre São Paulo e o sul de Minas.
Segundo o motorista, Valdeci Lourenço de Souza, o ônibus havia passado por revisão recentemente. Ele relata que perde o freio na descida e tenta evitar que o veículo ganhe velocidade na ladeira.
“Eu pensei em jogar ali no guard-rail para ver se amenizava o impacto. Aí o ônibus virou, mas acabou machucando bastante gente. Se descesse para baixo, seria pior ainda. Para evitar que o veículo ganhasse mais velocidade, joguei para o lado”, afirma.
O impacto contra a proteção metálica faz o ônibus tombar às margens da rodovia. O veículo para de lado, em meio a destroços de vidro, bancos retorcidos e objetos pessoais espalhados pelo acostamento. Valdeci é levado à delegacia para prestar depoimento, enquanto a perícia técnica começa a reunir indícios para entender o que falhou na viagem.
Socorro mobiliza bombeiros, Samu e hospitais da região
O tombamento aciona uma operação de resgate que envolve Corpo de Bombeiros, Polícia Rodoviária, Departamento de Estradas de Rodagem, Samu e ambulâncias de cidades vizinhas. A rodovia, que costuma receber fluxo de carros de turismo e de quem cruza o interior paulista em direção a Poços de Caldas, passa a ser tomada por viaturas e macas.
Ao menos 24 pessoas ficam feridas, oito em estado grave. As vítimas são encaminhadas para hospitais de Águas da Prata, São João da Boa Vista e Poços de Caldas. No Pronto-Socorro de Águas da Prata, cinco mulheres e dois homens dão entrada com ferimentos leves. Quatro já recebem alta até a última atualização.
Dezesseis trabalhadores saem fisicamente ilesos, mas voltam para casa em choque. Eles são levados por um ônibus disponibilizado pelo sindicato rural de Vargem Grande do Sul, que organiza o retorno imediato dos sobreviventes não feridos para as famílias.
Comunidades rurais sentem impacto emocional e econômico
O acidente atinge trabalhadores que deixam suas cidades de madrugada para garantir o sustento em plantações de cebola do outro lado da divisa estadual. A interrupção abrupta da rotina de 45 pessoas provoca efeito dominó nas comunidades de origem.
Na prática, dezena de famílias lidam ao mesmo tempo com o medo e a incerteza. Quem está internado depende de recuperação que pode levar semanas ou meses. A renda, que muitas vezes sustenta casas numerosas, fica ameaçada pelo afastamento dos feridos e pelo trauma dos sobreviventes.
A produção agrícola também sente. Colheitas de cebola exigem mão de obra intensa em um período curto. A ausência repentina de dezenas de trabalhadores pressiona prazos, encarece o custo da lavoura e pode atrasar entregas a compradores da região. Produtores de Poços de Caldas precisam reorganizar a escala de trabalho às pressas.
Para além da economia, cidades como Águas da Prata, que costumam aparecer em buscas de turistas por “Águas da Prata onde fica”, “Águas da Prata mapa” ou “Águas da Prata o que fazer”, voltam ao noticiário não por suas trilhas, clima de serra e ligação com o Caminho da Fé, mas por uma tragédia envolvendo trabalhadores de baixa renda.
Falha mecânica acende alerta sobre transporte de rurais
O relato de perda de freio em um ônibus que, segundo o motorista, passa por revisão recente, coloca o foco sobre a segurança do transporte de trabalhadores rurais. Esse segmento, em geral terceirizado, circula diariamente em estradas estreitas e sinuosas, muitas vezes em condições de fiscalização precária.
Autoridades de trânsito e polícia devem investigar se houve falha mecânica pontual, defeito na manutenção, excesso de peso ou problemas na via. A SP-215, que corta a região e conecta municípios pequenos a polos maiores, tem trechos de serra que exigem atenção constante de motoristas de carga e de passageiros.
O atendimento à ocorrência, com a mobilização de equipes de resgate de duas unidades da federação, evidencia a urgência de planos de resposta rápida em áreas com grande circulação de ônibus e caminhões. A investigação técnica sobre o sistema de freios, o histórico do veículo e o tipo de serviço prestado deve balizar eventuais responsabilizações.
No curto prazo, o foco se mantém no estado de saúde dos feridos e no apoio às famílias de Maria Eduarda e Josefa. Em seguida, a pressão tende a recair sobre empresas de transporte, contratantes de mão de obra e poder público, para reforçar a fiscalização de veículos, a qualificação de motoristas e as condições das rodovias em regiões de serra.
A cada novo acidente com ônibus de trabalhadores, cresce o questionamento sobre quem protege essa população que cruza estradas antes do amanhecer. A resposta, desta vez, passa pela apuração detalhada do que tirou o freio de um veículo cheio de gente que só queria chegar ao trabalho.