Centro de inteligência do Exército revela esquema bilionário do crime em Brasília

Exército expõe conexões criminosas e desafios na luta contra o crime organizado em Brasília.
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

O general Carlos Eduardo Barbosa da Costa apresentaou hoje, 22 de julho ,, em Brasília, um retrato desconfortável do crime organizado no Brasil. O comandante do Centro de Inteligência do Exército (CIE) descreve um país transformado em entreposto logístico do tráfico internacional e vulnerável a ataques cibernéticos em escala bilionária, enquanto a política permanece paralisada.

Brasil entre cartéis e facções

O diagnóstico parte de uma constatação que o general resume sem rodeios. “O Brasil funciona como uma espécie de entreposto logístico de uma cadeia criminosa que movimenta, só no mercado interno, cerca de R$ 30 bilhões por ano”, afirma. A cifra sobe para R$ 80 bilhões quando se somam R$ 50 bilhões anuais em exportação de cocaína.

O país está cercado pelos três maiores produtores de cocaína do mundo – Colômbia, Peru e Bolívia – e pelo Paraguai, hoje principal fornecedor de maconha. Nas fronteiras, o mapa traçado pelo CIE mostra um corredor quase contínuo de rotas clandestinas, pistas improvisadas, portos fluviais e cidades onde o Estado chega tarde ou não chega.

Nesse ambiente, facções brasileiras como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) operam como vértebras de uma engrenagem mafiosa. Segundo Costa, esses grupos mantêm relações estáveis com os principais cartéis dos países vizinhos e com o Tren de Aragua, organização criminosa nascida na Venezuela que já projeta presença em vários estados brasileiros.

A lógica é empresarial. As facções controlam territórios urbanos, cadeias de distribuição e rotas de escoamento até portos e aeroportos. Os cartéis garantem a produção e parte da logística transnacional. O Brasil fornece infraestrutura, corrupção e um mercado consumidor disposto a sustentar, sozinho, R$ 30 bilhões por ano em drogas e serviços criminosos associados.

A face cibernética da guerra híbrida

O relatório do CIE não se limita à geografia física. Costa fala em “guerra híbrida” para descrever a combinação de crime organizado, desinformação e ataques cibernéticos que atravessam fronteiras sem depender de fuzis ou fronteiras secas.

“Só em 2025, o CIE registrou mais de 754 bilhões de tentativas de invasão de sistemas brasileiros”, relata o general. A maior parte é barrada por barreiras automáticas, mas uma fração pequena, ainda assim gigantesca, é bem-sucedida e alcança estruturas sensíveis do Estado e da iniciativa privada.

Os casos citados no diagnóstico ajudam a dimensionar o problema. O vazamento de 3,39 terabytes de dados da Dígitro Tecnologia, empresa cujos sistemas de interceptação são usados por 90% das empresas de segurança do país, expõe segredos operacionais e dados sigilosos de investigações. Na prática, organizações criminosas podem antecipar operações policiais, identificar alvos e mapear pontos cegos do Estado.

Em junho de 2025, a paralisação de serviços essenciais do governo federal por um ataque cibernético mostrou o impacto direto na vida do cidadão comum. Sistemas de atendimento ficaram fora do ar, processos foram interrompidos e dados ficaram inacessíveis por dias. O CIE vê nesse episódio um alerta claro: a vulnerabilidade brasileira não se restringe a fronteiras físicas nem ao tráfico de drogas.

Informação de sobra, ação de menos

A apresentação de hoje não nasce no vácuo. Há anos, relatórios de inteligência, comissões parlamentares de inquérito, operações policiais e estudos acadêmicos descrevem com precisão a expansão do PCC, do CV e de outros grupos mafiosos. O general Costa reforça que o problema não é falta de diagnóstico, mas de decisão.

O editorial do Estadão desta quarta-feira sintetiza a crítica. “A PEC da Segurança Pública dormita nos escaninhos do Senado, à mercê dos interesses políticos do presidente da Casa, Davi Alcolumbre”, registra o texto. A proposta de emenda constitucional, já aprovada na Câmara, pretende dar novos instrumentos ao Estado no combate ao crime organizado, mas está travada por disputas entre o Senado e o Palácio do Planalto.

O mesmo editorial mira o Palácio do Planalto. “O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não pode transformar a segurança pública em reles bandeira eleitoreira”, adverte o jornal. Lula chega à metade do mandato com a violência urbana entre as maiores angústias do eleitorado e a segurança pública no centro da campanha em curso, mas sem uma política articulada de longo prazo.

O impasse deixa um vácuo que facções e cartéis preenchem com rapidez. Quem ganha com a paralisia, na avaliação de oficiais de inteligência ouvidos reservadamente, são as organizações criminosas, que ampliam caixa, influência política local e capacidade de corromper agentes públicos. Quem perde é a população pobre das periferias, usada como mão de obra barata e escudo humano, e o Estado brasileiro, que vê minguar sua autoridade em territórios inteiros.

Limites das Forças Armadas e disputa política

Ao expor o quadro, Costa faz questão de delimitar o papel das Forças Armadas. “Por força da Constituição, cabe às Forças Armadas a defesa da soberania territorial, não a linha de frente do combate ao crime organizado”, diz. A responsabilidade direta, lembra ele, é das polícias civis e militares, das polícias federal e rodoviária e de órgãos de inteligência e controle espalhados por União, estados e municípios.

A fala do general é interpretada em Brasília como um recado duplo. De um lado, afasta a tentação de empurrar para o Exército a tarefa de enfrentar facções nas favelas e fronteiras, em operações permanentes para as quais a instituição não está desenhada. De outro, pressiona o sistema político a assumir o custo de uma política de segurança menos reativa e mais estrutural.

Nos bastidores do Congresso, a PEC da Segurança Pública virou moeda de troca numa disputa de poder. Aliados de Davi Alcolumbre atribuem ao Planalto a responsabilidade pelo impasse, sob o argumento de que o governo não prioriza a pauta e tenta usar o tema para desgastar adversários. Integrantes do governo respondem que o Senado sabota uma agenda que poderia unificar as instituições em torno de um mínimo denominador comum.

No meio da disputa, prefeitos e governadores cobram coordenação. Estados do Norte e Centro-Oeste, onde se concentram fronteiras com Colômbia, Peru, Bolívia e Venezuela, relatam crescimento de apreensões de drogas e armas sem aumento correspondente de apoio federal em inteligência e estrutura.

O que está em jogo

O quadro desenhado pelo CIE ultrapassa o campo policial. A economia sente o impacto de ataques cibernéticos que paralisam serviços, comprometem dados de empresas e corroem a confiança em sistemas eletrônicos. Investidores avaliam o risco de operar em um ambiente onde 754 bilhões de tentativas de invasão são registradas em um único ano e onde dados estratégicos de segurança vazam em blocos de terabytes.

Na vida cotidiana, o avanço do crime organizado aparece em disputas por territórios urbanos, aumento de homicídios ligados ao tráfico, extorsão de comerciantes e aliciamento de adolescentes. Em várias regiões, o Estado negocia com facções o acesso a serviços básicos, como coleta de lixo, obras viárias e instalação de unidades de saúde.

O diagnóstico do CIE insiste em um ponto: não existe organização criminosa maior nem mais poderosa do que o Estado quando este decide agir de forma coordenada. Sem integração entre forças policiais, Ministério Público, Judiciário, inteligência e sistema prisional, a promessa de enfrentamento firme ao crime segue como retórica de campanha.

O desafio agora é transformar o retrato cru apresentado hoje em Brasília em gatilho para decisões concretas. Isso passa por tirar a PEC da Segurança Pública da gaveta, blindar as políticas de segurança das flutuações eleitorais e investir pesadamente em ciberdefesa e proteção de dados sensíveis.

Se a política continuar prisioneira de cálculos imediatos, a tendência é clara: mais poder para facções e cartéis, mais vulnerabilidade digital, mais descrença na capacidade do Estado de garantir o básico. A próxima tentativa de invasão bem-sucedida ou o próximo vazamento de dados podem custar não apenas bilhões, mas a própria confiança da sociedade em suas instituições.

Carregar Comentários