PF investiga desvio de R$ 420 mil de verba federal para empresa de nora de pastor no DF

Associação recebeu R$ 850 mil em convênios federais; investigação aponta possível uso de empresa da família do pastor Manoel Xavier para receber recursos destinados a projetos de capacitação e cultura
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A Polícia Federal investiga um suposto esquema de desvio de recursos públicos envolvendo a Associação Beneficente Evangélica (ABE), entidade que recebeu R$ 850 mil em verbas federais para ações de capacitação e projetos culturais no Distrito Federal.

Segundo a investigação, cerca de R$ 420 mil teriam sido destinados à Bras Gel, uma papelaria de Taguatinga Sul que tinha como sócia-administradora Poliana Rodrigues Lopes Xavier, nora do pastor Manoel Pereira Xavier.

A empresa recebeu os recursos sob um contrato relacionado a “ensino de música”. Segundo os investigadores, Poliana teria usado a empresa para emitir notas e receber verbas de convênios sem a devida prestação dos serviços. A investigação ainda está em andamento e apura a eventual responsabilidade dos envolvidos.

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Como funcionaria o suposto esquema

A ABE recebeu R$ 850 mil por meio de dois convênios firmados em 2024 com o Ministério da Cultura (MinC) e o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Os recursos seriam destinados à realização de ações de capacitação e projetos culturais.

De acordo com a PF, parte desse dinheiro teria sido direcionada à Bras Gel. A empresa pertencia a Poliana Rodrigues Lopes Xavier, casada com Jesimiel Pereira Xavier, filho de Manoel e Maria Marta Xavier.

A investigação aponta que a relação familiar se repetia dentro da própria associação. Filhos, noras e sobrinhas de Manoel e Maria Marta aparecem, segundo o relatório policial, ocupando cargos na entidade, recebendo recursos de convênios ou administrando empresas contratadas pela ABE.

A entidade foi fundada pela Igreja Evangélica Assembleia de Deus (ADEB) de Brasília, em 1984, e possui 18 filiais no Distrito Federal.

PF aponta liderança oculta

Formalmente, a ABE era presidida por Willthimberg Bittencourt da Silva, 51 anos. Para os investigadores, porém, ele atuaria como “laranja”, emprestando o nome para a presidência da entidade e assinando documentos necessários ao funcionamento da associação.

O relatório aponta Manoel Pereira Xavier, 53 anos, como o possível responsável pelo comando da organização nos bastidores. Segundo a investigação, ele teria utilizado sua influência dentro da igreja para direcionar a estrutura da entidade.

Manoel teria ainda colocado Willthimberg como copastor em uma igreja que comandava em Ceilândia Sul.

Família aparece em diferentes funções

Segundo a PF, a estrutura investigada reunia familiares em diferentes posições dentro da ABE e das empresas contratadas.

Maria Marta Xavier, mulher de Manoel, é apontada como diretora financeira e pedagógica da associação. De acordo com os investigadores, ela também teria participado da autorização de pagamentos e liberações de recursos em sistemas federais. O relatório aponta ainda que R$ 96 mil teriam sido transferidos diretamente para uma conta pessoal dela.

Poliana Rodrigues Lopes Xavier, nora do casal e sócia-administradora da Bras Gel, aparece como responsável pela empresa que teria recebido cerca de R$ 420 mil dos recursos federais.

Jesimiel Pereira Xavier, filho de Manoel e Maria Marta e marido de Poliana, também integrou a estrutura da ABE como ex-funcionário.

A investigação cita ainda Talyta Xavier Porto Almeida, sobrinha de Manoel, que teria sido incluída na folha de pagamentos da entidade; Tamara Nogueira de Carvalho de Jesus, funcionária da ABE; e Tais Ester de Jesus Carvalho Goveia, filha de Tamara, apontada como beneficiária de recursos.

Outros nomes aparecem no relatório

O pastor Ademar de Sena Sampaio também é citado na investigação. Ele acumula as funções de 1º tesoureiro da ADEB, contador e prestador de serviços por meio de uma empresa de contabilidade.

Ademar também é assessor comissionado no gabinete do deputado Iolando (MDB-DF) e está entre os alvos da investigação relacionada aos produtores do filme “Dark Horse”.

Orcival Pereira Xavier, irmão de Manoel, é mencionado por sua posição de liderança na ADEB. Segundo o relatório, a estrutura religiosa teria servido como ambiente de sustentação da rede de influência relacionada à entidade.

O relatório também cita Heliton Felipe Pereira Nunes, prestador de serviços terceirizado, que teria controlado diferentes acessos ao sistema federal de convênios Transferegov para contornar mecanismos de controle.

Aldivan Rodrigues do Nascimento é apontado como diretor formal da ABE e teria assinado documentos em cargos diretivos.

Investigação aponta outras irregularidades

Além da suspeita de desvio de recursos por meio de empresas contratadas, a PF apura possíveis fraudes trabalhistas, com demissões e recontratações em massa no fim de cada ano. A prática, segundo os investigadores, poderia ter como objetivo reduzir o pagamento de encargos e outros direitos trabalhistas.

Também são investigados possíveis casos de nepotismo, contratações cruzadas, diferenças salariais sem justificativa, movimentações atípicas em dinheiro vivo e acúmulo irregular de funções e remunerações.

O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) e o Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) já haviam apontado irregularidades em prestações de contas referentes aos anos de 2024 e 2025.

A investigação não especificou qual valor total teria sido utilizado de maneira irregular.

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Entidade recebeu R$ 117 milhões em contratos com o DF

A ABE manteve contratos com a Secretaria de Educação do Distrito Federal para administrar creches públicas entre 2012 e 2025. Os acordos somaram R$ 117 milhões.

Apesar dos valores recebidos, a entidade acumulou entre 2018 e 2023 uma dívida ativa de R$ 9.570.478,03 com a União. A organização também responde a processos na Justiça do Trabalho.

No Portal da Transparência, a ABE aparece como associação privada sem fins lucrativos e vinculada à atividade de educação infantil.

Convênios com ministérios são analisados

Os R$ 850 mil recebidos pela ABE em 2024 são provenientes de dois instrumentos firmados com o Ministério da Cultura e o Ministério do Trabalho e Emprego.

O MinC informou que identificou dois instrumentos relacionados à associação, ambos vinculados a emendas parlamentares e destinados à realização de oficinas de instrumentos musicais para adolescentes e jovens de 12 a 29 anos no Distrito Federal.

Segundo o ministério, não houve solicitação formal de esclarecimentos da PF ou de outros órgãos de controle sobre os processos. Em relação a um dos instrumentos, que ficou vigente até fevereiro de 2025, a prestação de contas já foi apresentada e será analisada conforme os procedimentos previstos na legislação.

O MTE também informou que não foi comunicado oficialmente sobre a investigação. A pasta afirmou que acompanha a execução dos instrumentos de parceria financiados com recursos de emendas parlamentares e que adotará as medidas cabíveis caso sejam identificados indícios de irregularidades.

A Secretaria de Educação do DF disse que acompanha as prestações de contas das parcerias e analisa os relatórios financeiros e a documentação apresentada pela instituição. A pasta afirmou ainda que eventuais inconsistências serão tratadas pelos procedimentos administrativos previstos.

Investigação começou em 2025

O inquérito da Polícia Federal foi instaurado em maio de 2025, após uma denúncia anônima. Desde então, os investigadores realizaram diligências, quebraram sigilos e analisaram relatórios de inteligência financeira.

Em julho deste ano, a PF iniciou a fase de oitivas de testemunhas. Caso as investigações apontem elementos suficientes e o Ministério Público Federal ofereça denúncia, caberá à Justiça Federal analisar a acusação.

Até o momento, a investigação permanece em andamento.

Manoel Xavier já foi alvo de outra polêmica

Manoel Pereira Xavier esteve envolvido em outra polêmica em julho de 2024, quando foi acusado de manter um relacionamento com a mulher de um fiel da igreja. Na ocasião, ele foi flagrado com a mulher ao sair de um motel em Ceilândia.

Apesar do episódio, Manoel permanece casado com Maria Marta Xavier. Os dois aparecem juntos publicamente e, segundo as informações da investigação atual, ela ocupa funções de direção dentro da ABE.

Em 2018, Manoel também concorreu ao cargo de deputado federal, mas não foi eleito. Em 2023, recebeu homenagem da Câmara dos Deputados durante o Dia do Evangélico.

Entenda o contexto

A investigação da PF apura se a Associação Beneficente Evangélica foi utilizada para direcionar recursos públicos a empresas e pessoas ligadas ao grupo familiar que, segundo os investigadores, controlaria a entidade.

Entre os pontos analisados estão os R$ 420 mil que teriam sido destinados à Bras Gel, empresa pertencente à nora de Manoel Xavier, além de pagamentos a familiares, possíveis contratações cruzadas, movimentações em dinheiro vivo e irregularidades trabalhistas.

A apuração ainda não foi concluída e os fatos investigados dependem das diligências em andamento e de eventual manifestação do Ministério Público Federal e da Justiça.

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