Em menos de 24 horas, Belo Horizonte registrou dois casos de feminicídio e uma tentativa de assassinato contra uma mulher. Os três suspeitos foram presos, e a sequência de crimes reacendeu uma discussão que vai além das investigações: o que leva um homem a matar a companheira?
Três casos em sequência chocam Belo Horizonte
A capitã da Polícia Militar Michelle Leão Azevedo, de 38 anos, chegou sem vida ao Hospital Odilon Behrens na segunda-feira (20). O marido, o sargento Eduardo Abner, foi preso em flagrante após médicos identificarem lesões incompatíveis com uma morte natural. Ele alegou que a esposa caiu de uma escada, mas a mãe da vítima afirmou que Michelle vivia um relacionamento abusivo. A Polícia Civil investiga o caso e aguarda os laudos periciais.
Stifanie Ribeiro Firmino Silva, de 35 anos, foi encontrada morta dentro do apartamento onde morava, no bairro Camargos. O corpo estava em avançado estado de decomposição. Antes da descoberta, familiares e amigos continuavam recebendo mensagens enviadas pelo celular da vítima. Fontes ligadas à investigação confirmaram ao NC News que o suspeito, André Júnior Silva de Carvalho, foi preso e confessou o crime.
Também nesta terça-feira (21), uma mulher de 31 anos sobreviveu após ser jogada da sacada do terceiro andar de um prédio, no bairro Jonas Veiga. Segundo a Polícia Militar, ela foi agredida antes de ser arremessada. O companheiro foi preso em flagrante e nega o crime.
Minas Gerais registra quase 150 casos de feminicídio em cinco meses
A sequência de crimes registrados em Belo Horizonte faz parte de um cenário mais amplo de violência contra a mulher em Minas Gerais. Dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) mostram que o estado contabilizou 148 casos de feminicídios consumados e tentados entre janeiro e maio de 2026. Desse total, 63 mulheres foram assassinadas e outras 85 sobreviveram a tentativas de feminicídio, uma média de quase 13 vítimas por mês em território mineiro.
O levantamento revela que, mesmo com a criação de mecanismos de proteção e o endurecimento da legislação nos últimos anos, a violência de gênero continua sendo um desafio para as forças de segurança e para a rede de atendimento às vítimas.
Em nível nacional, os números também preocupam. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, o maior número desde que o crime passou a ter uma classificação específica na legislação, em 2015. O dado representa um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior e reforça a necessidade de ampliar ações de prevenção, proteção e combate à violência contra a mulher.
Ciúme, sintimento de posse e machismo estão entre fatores que antecedem feminicídios
Os números de feminicídio em Minas Gerais revelam um cenário preocupante e, segundo especialistas, estão ligados a uma série de fatores sociais e comportamentais. Entre eles estão o aumento da violência doméstica, relações marcadas por controle e a sensação de posse do agressor sobre a vítima.
Renata Furbino, professora de Direito Criminal do Centro Universitário Arnaldo, de Belo Horizonte, destaca que muitos casos não começam com a agressão final, mas são construídos ao longo do tempo, com diferentes formas de violência dentro do relacionamento.
“Temos, em média, 13 feminicídios por mês em Minas Gerais. Esses dados são alarmantes e revelam vários fatores para a ocorrência desses crimes. Dentre eles, estamos falando sobre o aumento da violência doméstica, as relações marcadas por ciúmes possessivos e por essa relação de posse em relação à vítima.”, conta.
Segundo ela, o perfil de muitos agressores envolve uma escalada de violências, que pode começar com atitudes de controle e abuso psicológico até chegar ao assassinato da mulher.
“Grande parte das vezes, esse agressor se utiliza de vários tipos de violência para culminar no feminicídio. Então, comumente, há indícios de violência moral, violência psicológica, violência financeira e, ao final, o feminicídio.”
Renata ainda explica que o momento em que a mulher decide romper o ciclo de violência pode representar uma fase de maior risco, principalmente quando o agressor não aceita o fim da relação. Segundo ela, essa reação está ligada a uma relação de posse sobre a vítima e ao machismo estrutural, que faz com que alguns homens enxerguem a mulher como alguém sobre quem têm controle.
Feminicídio é resultado de fatores sociais e falhas na prevenção, avalia especialista
O aumento dos casos de feminicídio não pode ser analisado apenas como uma sequência de crimes isolados. Segundo a professora, é necessário observar fatores sociais e culturais que contribuem para a violência contra a mulher, além da necessidade de fortalecer políticas públicas de prevenção, proteção e responsabilização dos agressores.
“Quando a gente fala do feminicídio como uma espécie de epidemia social, é preciso pensar os fatores sociais e culturais que levam ao aumento desses crimes, principalmente também em relação às políticas públicas fundamentais para a prevenção desses crimes.”, conta Renata em entrevista ao NC News.
Para a especialista, o enfrentamento ao problema precisa estar baseado em três pilares: educação, prevenção e responsabilização. Ela destaca a importância de uma formação voltada para a igualdade de gênero, além de uma rede de proteção mais estruturada para acolher mulheres em situação de violência.
“Então, a gente tem que pensar em três eixos: a lógica da educação, a lógica da prevenção, a lógica da proteção e a lógica da responsabilização. Pensar uma educação pautada na educação de gênero, pensar uma prevenção por meio de mecanismos de maior amparo e proteção das redes, das delegacias, das mulheres.”, explica.
A responsabilização dos agressores precisa acontecer de forma rápida e eficiente, mas sempre respeitando as garantias previstas na legislação. Segundo Renata, o enfrentamento ao feminicídio depende de uma rede integrada entre diferentes setores, com ações coordenadas para prevenir a violência doméstica e combater os crimes contra as mulheres. Confira a entrevista:
Especialista alerta para sinais de violência antes do feminicídio
Antes que a violência chegue ao extremo, especialistas destacam que existem sinais que podem indicar uma relação abusiva e de risco. Entre eles estão o controle excessivo da rotina da mulher, o afastamento de familiares e amigos, ameaças, ciúmes exagerados e comportamentos marcados por posse.
A orientação é que esses sinais não sejam ignorados e que a vítima tenha acesso a uma rede de apoio para conseguir romper o ciclo de violência. Segundo a especialista, o isolamento e o silêncio podem aumentar a vulnerabilidade da mulher e permitir que as agressões evoluam para situações ainda mais graves.
Ela reforça que a denúncia e o acolhimento são fundamentais para interromper esse ciclo e evitar que a violência termine em feminicídio.