Camila Pitanga e ex-namorada estreiam peça gratuita em SP até 9/8

Camila Pitanga e Bete Coelho protagonizam peça gratuita no Centro Cultural FIESP, em São Paulo, até 9 de agosto.
Redação NC News
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Camila Pitanga e Bete Coelho sobem ao palco do Centro Cultural FIESP a partir de 24 de julho, em São Paulo, para viver a mesma mulher em ruínas e recomposição em Lia Lia. A peça, de curta temporada até 9 de agosto, aposta em uma narrativa fragmentada para mergulhar na identidade feminina e na condição humana.

Uma alma em pedaços na Avenida Paulista

O espetáculo ocupa o teatro do Centro Cultural FIESP, na Avenida Paulista, 1313, em frente à estação Trianon-Masp da Linha 2 Verde do Metrô, com sessões de quarta a sábado, às 20h, e domingos, às 18h. A entrada é gratuita, com reservas de ingressos pelo site Meu Sesi. A montagem tem 80 minutos de duração e classificação indicativa de 14 anos.

Em cena, Camila Pitanga e Bete Coelho dividem a mesma protagonista, em diferentes fases, humores e variações da alma. A personagem não se apresenta como uma biografia contínua, mas como um mosaico de estados de espírito. A dramaturgia recusa a linha reta e se aproxima de um álbum de retratos em que memórias e ausências se misturam.

A produção da companhia Teatrofilme adapta o romance homônimo de Caetano W. Galindo e se inspira nas gravuras do japonês Katsushika Hokusai. A direção é assinada por Bete Coelho e Gabriel Fernandes, com cenografia de Daniela Thomas. O elenco traz ainda Roberto Audio, Laís Lacôrte e Lindsay Castro Lima, além de um coro cênico formado por alunas do Núcleo de Artes Cênicas do SESI-SP.

Narrativa fragmentada e corte existencial

Lia Lia se ancora numa estrutura que dialoga com o cinema, com mudanças bruscas de foco e tempo, quase como cortes de montagem. “A direção conjunta de Bete Coelho e Gabriel Fernandes aposta na fluidez dos cortes cinematográficos”, avalia o jornalista cultural Miguel Arcanjo Prado, que acompanha a cena teatral paulistana.

Esse desenho em fragmentos reforça o caráter existencial da trama. A protagonista não busca uma verdade única sobre si, mas atravessa versões de si mesma. Em vez de um arco tradicional, o público vê flashes de uma alma em constante deslocamento, como se cada cena fosse um quadro de Hokusai refeito em carne e voz.

O espetáculo assume abertamente essa recusa a respostas fáceis. “Lia Lia parece não buscar entregar respostas prontas sobre quem é sua personagem principal; prefere deixar no ar a elegância de uma pergunta aberta sobre a nossa própria e intrincada condição humana”, escreve Miguel Arcanjo Prado.

Nesse jogo, o encontro entre gerações ganha peso. Camila Pitanga, rosto conhecido do grande público, e Bete Coelho, referência da cena teatral, aproximam repertórios distintos. O diálogo entre estilos e trajetórias ajuda a tensionar o que significa ser mulher hoje, entre expectativa social, desejo, fracasso e reinvenção.

Cenário de água, linhas e espelhos

A cenografia de Daniela Thomas transforma o palco em um espaço de instabilidade. Linhas cruzadas costuram o ar, enquanto a água surge como elemento simbólico, evocando fluxo, apagamento e renascimento. “A cenografia de Daniela Thomas responde com um emaranhado de linhas e a presença simbólica da água, desenhando o espaço onde o ser se desfaz e se reconstrói”, descreve Miguel Arcanjo Prado.

Nesse ambiente, a protagonista parece sempre prestes a escapar de si. As linhas delimitam e aprisionam, mas também sugerem rotas de fuga. A água, por sua vez, carrega a promessa de limpeza e esquecimento, sem garantir que algo realmente se apague. O cenário não ilustra a história; disputa com ela o centro da atenção, impondo outra camada de leitura.

O coro cênico, formado por alunas do Núcleo de Artes Cênicas do SESI-SP, entra como espelho e contraponto. Esse coletivo devolve à plateia, de forma sutil e às vezes irônica, as dúvidas da protagonista. São corpos jovens ocupando o palco ao lado de atrizes consagradas, numa convivência que reforça o trânsito entre gerações.

Ao incluir esse coro, a montagem amplia também seu alcance social. As alunas experimentam uma criação de grande porte ao lado de artistas experientes, em um espaço central da cidade. O palco se torna laboratório de formação e vitrine ao mesmo tempo.

Acesso gratuito, inclusão e limites da curta temporada

Lia Lia não se fecha numa bolha de teatro de nicho. A entrada gratuita e a localização na Paulista, um dos endereços mais simbólicos de São Paulo, abrem o espetáculo a um público que vai além do circuito habitual das artes cênicas. As reservas de ingressos são liberadas em três ondas: a partir de 20 de julho para a primeira semana, 27 de julho para a segunda e 3 de agosto para a terceira.

As sextas-feiras contam com tradução em Libras, recurso que amplia a inclusão de pessoas surdas e reforça o compromisso de acessibilidade. O telefone (11) 3322-0050 concentra as informações ao público. Em um momento de orçamento apertado na cultura, o investimento institucional em uma montagem desse porte aponta uma escolha política clara.

Há, porém, um limite objetivo: a temporada vai de 24 de julho a 9 de agosto, apenas duas semanas e meia, com cinco sessões por semana. A procura deve ser alta, impulsionada pelo nome de Camila Pitanga e pela assinatura de Bete Coelho, o que tende a frustrar quem deixar para reservar ingressos na última hora. Se a recepção do público e da crítica for positiva, a pressão por uma extensão de temporada ou circulação por outros espaços deve crescer.

Setores cultural, educacional e social se cruzam nessa iniciativa. O projeto fomenta novos talentos, oferece acesso gratuito em endereço central, discute identidade feminina e ainda experimenta formas narrativas não lineares. O resultado coloca o teatro contemporâneo brasileiro no centro de debates sobre gênero, linguagem e políticas de acesso.

Depois de ‘Lia Lia’, o que vem?

A repercussão inicial deve ecoar entre críticos, estudantes de artes e movimentos que discutem gênero e identidade. A combinação de um texto existencialista, uma cenografia de forte assinatura visual e a presença de Camila Pitanga atrai atenção de diferentes frentes, da imprensa generalista aos núcleos de pesquisa acadêmica.

Se consolidar esse interesse, a peça tende a alimentar conversas em escolas, universidades e grupos de teatro sobre o uso da fragmentação como recurso para retratar o sujeito contemporâneo. A montagem também pode servir de modelo para outras produções que buscam conciliar acesso gratuito e sofisticação estética.

O passo seguinte depende agora da resposta da plateia. Uma eventual prorrogação em São Paulo, uma temporada em outras capitais ou até adaptações para formatos híbridos entram no horizonte caso Lia Lia cumpra o que promete na estreia. A pergunta que o espetáculo lança sobre quem somos, e sobre quantas versões cabem em uma só vida, encontra um país tensionado por disputas de identidade. O palco da Paulista, por algumas noites, se oferece como lugar para encarar esse espelho.

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