Flávio Bolsonaro intensifica a pressão sobre o Republicanos para ter a economista Daniella Marques como vice em sua chapa presidencial, mas encontra forte resistência interna no partido ligado à Igreja Universal.
Disputa por vice expõe racha na centro-direita
A movimentação ocorre na reta final para a definição das chapas presidenciais, em um ambiente de isolamento político do candidato do PL. A convenção da sigla, marcada para sábado, dia 25, deve oficializar o nome de Flávio ao Planalto ainda sem vice definido, o que amplia a sensação de improviso e urgência.
Dentro do Republicanos, a leitura dominante é de que a operação em torno de Daniella busca emparedar o partido. A economista se filia à legenda na data limite para vínculo partidário e, desde então, a cúpula passa a enxergar a jogada como tentativa de forçar uma coligação que não foi construída politicamente.
O impasse afeta diretamente o redesenho do campo de centro-direita. O PL tenta recompor espaço após se afastar da federação União-PP, enquanto o Republicanos avalia se vale a pena se associar a uma candidatura que parte fragilizada e sem a benção integral do Centrão.
Manobra com Daniella trava decisão do Republicanos
O nó jurídico da operação é simples e duro: para Daniella Marques ser candidata a vice, PL e Republicanos precisam estar coligados. A alternativa de troca de partido já está descartada porque o prazo legal para migração de legendas expira em 4 de abril. A filiação de Daniella ao Republicanos, exatamente no limite, vira símbolo da manobra.
Nos bastidores, dirigentes da sigla relatam desconforto com o que consideram uma tentativa de “imposição” vinda do entorno de Flávio Bolsonaro. O partido, presidido nacionalmente por Valdemar Costa Neto e comandado em São Paulo pelo deputado Marcos Pereira, teme parecer linha auxiliar do PL em um projeto que não ajudou a desenhar.
A pressão, porém, não é de mão única. Flávio e Valdemar articulam novas reuniões com Marcos Pereira nos próximos dias, a poucos passos do prazo final para a definição das chapas, no dia 5. O candidato do PL tenta transformar o constrangimento em fato consumado: com a vice já dentro do Republicanos, argumenta que a coligação vira o caminho “natural”.
Centrão distante e aposta no mercado financeiro
O cenário atual é fruto de um cálculo político feito meses atrás. Quando Jair Bolsonaro escolhe o filho para representá-lo na disputa presidencial, as principais lideranças do Centrão reagem mal. Ciro Nogueira, do PP, e Antônio de Rueda, do União, se afastam após o lançamento da candidatura sem diálogo prévio.
As pontes queimadas com a federação União-PP aumentam o peso do Republicanos na equação. Sem essa aliança, o PL corre o risco de entrar na campanha com menos tempo de rádio e TV e com uma estrutura regional mais frágil. Em um sistema que ainda concentra grande parte da comunicação eleitoral nesses meios, a perda pode ser decisiva.
Flávio tenta compensar a desarticulação com uma promessa de vitrine econômica. Daniella Marques, hoje coordenadora da área econômica de sua campanha e ligada ao ex-ministro Paulo Guedes, é vendida como trunfo para atrair o mercado financeiro e sinalizar compromisso com uma agenda liberal.
Aos aliados, o senador descreve a economista como mais alinhada ao embate público. “Daniella, além de ser associada ao economista Paulo Guedes, apresenta um perfil ‘mais combativo’ do que o de Tereza Cristina”, diz Flávio Bolsonaro, em referência à senadora do PP de Mato Grosso do Sul.
Tereza fora, agro dentro, mas igreja em dúvida
A recusa de Tereza Cristina encerra um dos caminhos mais óbvios para a composição da chapa. Segundo Valdemar Costa Neto, “a senadora Tereza Cristina (PP-MS) negou qualquer possibilidade de ser a vice-candidata”. Com isso, o PL abandona a ideia de uma aliança mais orgânica com o PP e dobra a aposta em Daniella.
Flávio avalia, diante dos correligionários, que o agronegócio já está suficientemente alinhado ao seu projeto. A presença de Tereza, figura influente no setor, deixa de ser tratada como urgência. A prioridade passa a ser outra: usar a imagem da economista para dialogar diretamente com investidores, bancos e grandes empresas.
O cálculo, porém, esbarra na identidade do Republicanos. A sigla, fortemente associada à Igreja Universal, constrói sua base no eleitorado evangélico e em pautas conservadoras de costumes. A imagem de um partido “capturado” por uma engenharia pró-mercado desenhada no PL preocupa quadros regionais e lideranças ligadas a templos.
No curto prazo, a cúpula precisa responder a uma pergunta delicada: vale trocar parte da autonomia política por minutos a mais de TV e por um lugar na cabeça de chapa? A resposta ainda não é unânime.
Quem ganha, quem perde com a coligação
Se o Republicanos ceder à pressão e entrar na coligação, o ganho imediato do PL é concreto. Flávio reforça seu tempo de propaganda, multiplica palanques regionais e ainda exibe uma vice com bom trânsito no mercado. Em um cenário de campanha encurtada e polarizada, cada segundo na TV vira ativo precioso.
O Republicanos, por outro lado, corre o risco de se tornar coadjuvante em uma disputa comandada pelo clã Bolsonaro e pelo PL. A percepção de que o partido foi empurrado para a aliança por causa da filiação de Daniella já provoca desconforto em dirigentes estaduais, que temem desgaste com a base e perda de identidade.
Se resistir e permanecer fora da chapa, a sigla mantém a liberdade para negociar apoios regionais e eventualmente se posicionar como alternativa em um segundo turno. Perde, porém, recursos de campanha e espaço nacional, abrindo mão de influência direta em uma possível vitória de Flávio.
Para o PL, uma negativa agora significaria entrar na corrida com menos aliados estratégicos, menor tempo de TV e uma narrativa de isolamento reforçada. A dificuldade em fechar a vice às vésperas da convenção seria lida como sinal de fraqueza política.
Próximos dias definem rumo da direita em 2026
As conversas entre Flávio Bolsonaro, Valdemar Costa Neto e Marcos Pereira, previstas para a próxima semana, tendem a selar o destino da aliança. O relógio eleitoral corre, e o prazo de 5 de agosto para registrar as chapas impõe decisões sem muita margem para recuos.
Enquanto isso, o Republicanos testa seus humores internos e mede o custo de cada escolha. O partido sabe que, qualquer que seja a decisão, ficará marcado: ou como fiador de um projeto bolsonarista reeditado, ou como a sigla que recusou a vice-presidência para preservar sua independência.
Flávio, por sua vez, entra na convenção de sábado ainda em busca de um encaixe que equilibre ideologia, mercado e igreja. A forma como resolverá esse quebra-cabeça ajuda a desenhar não apenas sua campanha, mas o mapa de forças da centro-direita nas próximas eleições nacionais.