Um navio da era bizantina naufragado próximo à ilha croata de Mljet surge, nesta semana, como a mais nova peça-chave para entender o Mediterrâneo antigo. Arqueólogos confirmam que a embarcação levava mais de 600 gramas de ouro em joias e moedas, um volume inédito em um naufrágio na região.
Um tesouro que muda o mapa do poder bizantino
A análise apresentada na quinta-feira empurra a costa sul da Croácia para o centro do tabuleiro histórico. As peças revelam não só riqueza, mas circulação de elites imperiais em uma área antes vista sobretudo como rota periférica.
Os arqueólogos do Instituto de Conservação da Croácia concluem que o navio transportava uma figura de alta patente acompanhada de sua comitiva, e não mercadorias comuns. As joias e moedas associadas à dinastia Heráclida, que governa com quatro imperadores naquele período, indicam um ambiente de poder, negociação política e deslocamento de autoridades num momento de crise para o Império Bizantino.
O impacto imediato extrapola a academia. Museus croatas se preparam para disputas em torno da guarda e da exposição das peças, enquanto o turismo cultural ganha um novo chamariz no Adriático. O Estado, por outro lado, encara o desafio de proteger um sítio subaquático que, de súbito, se torna alvo potencial de caçadores de tesouro.
Uma década de mergulhos até o ouro
O casco repousa há séculos no fundo do mar raso e claro da ilha de Mljet, em área hoje frequentemente cruzada por navios de cruzeiro e embarcações de turismo. A diferença é que, sob a água, mergulhadores encontram não um navio de luxo moderno, mas um navio antigo que reescreve parte da história europeia.
A equipe liderada por Pavle Dugonjic e Igor Miholjek passa a última década descendo repetidas vezes ao mesmo ponto. Com equipamentos de mergulho convencional, os arqueólogos removem sedimentos, mapeiam cada prancha e recolhem fragmentos quase invisíveis que, limpos em laboratório, revelam ouro e pedras preciosas.

Os artefatos incluem moedas de ouro da dinastia Heráclida, fivelas decoradas com rubis, esmeraldas e pérolas e um anel de sinete em ouro com a imagem de um imperador. Para Dugonjic, o anel é um divisor de águas na interpretação do naufrágio. “O anel certamente não seria usado por qualquer pessoa”, afirma o chefe do Departamento de Arqueologia Subaquática do Instituto de Conservação da Croácia.
Miholjek, responsável pela pesquisa, enfatiza a excepcionalidade do achado. “Há uma quantidade impressionante de ouro, a maior já encontrada em um naufrágio em todo o Mediterrâneo”, diz. “Pesa mais de 600 gramas após limpeza e restauração.”
As evidências apontam para um desastre ocorrido entre os séculos 7º e 8º, em plena turbulência política e religiosa do Império Bizantino. As águas ao redor de Mljet, hoje frequentadas por turistas em busca de paisagens, eram, naquele momento, via estratégica de circulação de oficiais, mensageiros e, possivelmente, membros da elite militar ou administrativa.

O sítio que ilumina o fim do mundo romano
Especialistas estrangeiros classificam o naufrágio como um marco para a arqueologia subaquática. Justin Leidwanger, professor de arqueologia em Stanford e referência na área, não economiza nas palavras. “É o naufrágio mais importante do seu período”, avalia.
Para ele, o navio de Mljet funciona como lente para um mundo em transição. “Se você está estudando o fim do Império Romano tardio e a transformação para o mundo medieval, este é um sítio fundamental para entender e obter informações sobre como o Mediterrâneo era conectado por suas rotas marítimas, como se fragmentou e como o império ruiu”, explica.
O naufrágio ajuda a preencher lacunas sobre a presença bizantina no Adriático, região que, por muito tempo, aparece nas fontes como margem distante do coração imperial em Constantinopla. A combinação de moedas, insígnias de vestuário e joias de prestígio sugere não só riqueza, mas também a circulação de símbolos de autoridade por rotas que conectavam portos hoje separados por diferentes países.
A análise minuciosa dos metais, das ligas usadas e da iconografia das moedas deve oferecer pistas sobre oficinas de cunhagem, fluxos de tributos e até padrões de corrupção e clientelismo em um império em declínio. Fragmentos de madeira, cerâmica e restos de carga complementar também podem revelar se a viagem tinha objetivo militar, administrativo ou diplomático.
Corrida por preservação, pesquisa e turismo
O entusiasmo com o navio de Mljet vem acompanhado de alertas. A mesma riqueza que fascina o público atrai o mercado ilegal de antiguidades. Autoridades croatas discutem reforço de vigilância na área, protocolos mais rígidos para mergulhos recreativos e novas regras para a exploração científica de sítios submersos.
Os artefatos de ouro exigem conservação delicada. O contato com o ar após séculos em ambiente salino acelera processos de corrosão e desgaste. Laboratórios do Instituto de Conservação precisam de investimentos em tecnologia de estabilização, climatização e segurança física para evitar furtos e deterioração.
Museus nacionais e regionais já se movimentam para montar exposições temporárias com partes do conjunto, evitando a retirada integral dos destroços do mar. A tendência é manter o sítio como laboratório ao vivo para arqueólogos, com visitas controladas, enquanto réplicas e recursos digitais, como modelos em 3D, levam o “navio de Mljet” ao grande público.
O turismo cultural na costa dálmata, hoje centrado em praias, parques naturais e cidades muradas, ganha um novo eixo: o do patrimônio arqueológico marítimo. Operadores locais veem a chance de desenvolver roteiros que expliquem, a turistas e estudantes, o que é um navio de guerra, um navio mercante e um navio de comitiva imperial, usando o caso bizantino como exemplo concreto.
Acadêmicos apostam que o achado vai estimular cooperação internacional, atraindo equipes de universidades e centros de pesquisa de vários países para projetos conjuntos. Novas sondagens no entorno do sítio podem revelar outros naufrágios, testando a hipótese de que Mljet e a costa adjacente funcionavam como corredor estratégico para o império.
As próximas campanhas de campo devem aprofundar a escavação do casco e o estudo da carga, enquanto historiadores revisitam fontes escritas em busca de viagens oficiais perdidas nos registros. Cada fragmento recuperado pode alterar a compreensão do declínio bizantino e do papel do Adriático na formação da Europa medieval. A partir de um navio esquecido no fundo do mar, o mapa do poder no Mediterrâneo volta à mesa de debates.