A música pode mudar a forma como você sente o sabor do café? Pesquisa brasileira indica que sim

Estudo da Universidade Federal de Lavras revela que estímulos sonoros podem influenciar a percepção de atributos como doçura, amargor e acidez durante a degustação. Descoberta reforça como ciência, comportamento do consumidor e produção de cafés especiais caminham juntos.
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O ritual de tomar café vai muito além da bebida servida na xícara. O ambiente, os aromas, a temperatura e até a música podem influenciar a experiência do consumidor. Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), em Minas Gerais, mostrou que estímulos sonoros são capazes de alterar a forma como alguns atributos sensoriais do café são percebidos durante a degustação.

A descoberta amplia a compreensão sobre o comportamento do consumidor e reforça uma tendência crescente no mercado de cafés especiais: oferecer experiências completas, nas quais qualidade da bebida, ambiente e percepção sensorial caminham juntos.

A ciência por trás da xícara

A pesquisa integrou a dissertação da pesquisadora Jéssica Ferreira Helvécio, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Administração da UFLA, sob orientação do professor Luiz Henrique de Barros Vilas Boas.

Ao todo, 267 consumidores participaram de experimentos realizados em cabines sensoriais, com temperatura, iluminação e condições ambientais controladas. Todos receberam exatamente a mesma amostra de café especial da espécie Coffea arabica, produzida na região do Campo das Vertentes, em Minas Gerais.

A única diferença entre os grupos foi o ambiente sonoro: parte dos participantes degustou o café em silêncio, outra ouviu música ambiente e um terceiro grupo utilizou fones de ouvido.

O que a pesquisa descobriu

Os resultados mostraram que a música influenciou a percepção de alguns atributos da bebida.

Entre os participantes expostos aos estímulos sonoros houve menor percepção de amargor e acidez e maior identificação de características relacionadas à doçura, especialmente entre aqueles que ouviram música pelos fones de ouvido.

Além disso, emoções como relaxamento, bem-estar e descontração apareceram com mais frequência durante a degustação.

Apesar dessas diferenças, os pesquisadores observaram que a música não alterou significativamente a aceitação global do café. Em outras palavras: a experiência muda, mas a qualidade da bebida continua sendo o principal fator para a avaliação do consumidor.

Muito além do sabor

O estudo também revelou que fatores individuais influenciam essa percepção.

Preferências musicais, hábitos de consumo, memórias e experiências pessoais fizeram com que cada participante reagisse de forma diferente aos estímulos sonoros.

Segundo os pesquisadores, isso demonstra que a experiência de consumir café é resultado da interação entre aspectos sensoriais, emocionais e culturais, e não apenas das características químicas da bebida.

O crescimento dos cafés especiais

A pesquisa chega em um momento de forte expansão do mercado de cafés especiais no Brasil.

Nos últimos anos, consumidores passaram a valorizar atributos como origem, rastreabilidade, processos de fermentação, métodos de preparo e experiências de consumo. Cafeterias especializadas investem cada vez mais em iluminação, aromas, design e trilhas sonoras para tornar a degustação mais envolvente.

Essa tendência também amplia o valor agregado da produção no campo, aproximando produtores e consumidores por meio da qualidade.

Rondônia ganha espaço entre os cafés especiais

Quando o assunto é café de qualidade, a Amazônia também ocupa posição de destaque.

Rondônia consolidou-se como referência nacional na produção de cafés canéforas especiais (Coffea canephora), variedade conhecida comercialmente como robusta amazônico. O estado reúne condições climáticas favoráveis, investimento em pesquisa, melhoramento genético e assistência técnica, fatores que elevaram a qualidade da bebida e abriram espaço em concursos nacionais e internacionais. Os grãos de cafés especiais produzidos em 15 municípios do estado fazem parte da Indicação Geográfica com Denominação de Origem: Robustas Amazônicos das Matas de Rondônia, que representa características únicas de produção e de bebida.

Enquanto Minas Gerais lidera a produção brasileira de café arábica, Rondônia tornou-se um dos principais polos de cafés canéforas de alta qualidade, demonstrando que diferentes regiões do país contribuem para a diversidade da cafeicultura brasileira.

Essa evolução também amplia o interesse por pesquisas sobre comportamento do consumidor, já que compreender como as pessoas percebem aromas, sabores e experiências ajuda a agregar valor ao produto desde a lavoura até a xícara.

O que a pesquisa mostrou

* 267 consumidores participaram dos testes.
* Três ambientes de degustação: sem música, com música ambiente e com música em fones de ouvido.
* A música reduziu a percepção de amargor e acidez em parte dos participantes.
* Características relacionadas à doçura foram percebidas com maior intensidade.
* Relaxamento e bem-estar apareceram com mais frequência durante a degustação.
* A qualidade do café permaneceu como o principal fator para a aprovação da bebida.

Por que isso importa?

A pesquisa mostra que inovação na cafeicultura não acontece apenas dentro da lavoura. Ela também envolve compreender o comportamento do consumidor e criar experiências capazes de valorizar um produto de maior qualidade.

Para regiões produtoras como Minas Gerais, referência em cafés arábica, e Rondônia, destaque nacional em cafés canéforas especiais, estudos como esse ajudam a fortalecer uma cadeia que investe cada vez mais em qualidade, identidade e diferenciação no mercado.

E qual seu estilo musical preferido para tomar café especial?

Fonte: Universidade Federal de Lavras (UFLA).

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