As declarações do presidente da Argentina, Javier Milei, contra autoridades brasileiras durante um evento político em São Paulo começaram a gerar forte reação também dentro de seu próprio país. Nesta segunda-feira (28), mais de 30 deputados argentinos apresentaram na Câmara dos Deputados, em Buenos Aires, uma proposta de nota formal de repúdio ao chefe de Estado pelas críticas direcionadas ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O documento considera que as falas representam uma violação dos princípios da política externa argentina e uma interferência indevida em assuntos internos do Brasil. Apesar da iniciativa, a aprovação da moção enfrenta dificuldades devido à maioria governista no Congresso argentino.

O que motivou a reação dos deputados?
A iniciativa surgiu após Milei participar, no último sábado, da cerimônia de confirmação da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República.
Durante o discurso, o presidente argentino chamou Alexandre de Moraes de “lixo careca” e se referiu ao presidente Lula como “presidiário”, em críticas que ampliaram a tensão diplomática entre os dois países.
Segundo os parlamentares que assinam o documento, as declarações foram “extremamente graves” e colocam em risco uma tradição histórica da diplomacia argentina baseada na não intervenção em assuntos internos de outras nações.

O que diz a proposta apresentada no Congresso?
O texto afirma que a postura de Milei configura uma “flagrante interferência” na política brasileira e critica o uso da estrutura do Ministério das Relações Exteriores da Argentina em uma viagem considerada de caráter político-partidário.
Os deputados também questionam a participação de diplomatas de carreira na comitiva presidencial, alegando que a mobilização não teria sido justificada por compromissos oficiais de Estado.
O autor da proposta é o deputado oposicionista Jorge Taiana, ex-ministro das Relações Exteriores e da Defesa da Argentina. Segundo sua equipe, o número de assinaturas continua aumentando com novas adesões.

A moção pode ser aprovada?
Apesar da mobilização da oposição, a tramitação enfrenta obstáculos.
A proposta ainda precisa passar pelas comissões da Câmara antes de seguir ao plenário. Uma das principais dificuldades é que a Comissão de Relações Exteriores é presidida por uma deputada da coalizão governista liderada por Milei.
Além disso, a oposição ocupa pouco mais de um terço das cadeiras da Câmara argentina. Ainda assim, os autores da iniciativa esperam conquistar apoio de parlamentares independentes, já que a votação depende da maioria dos deputados presentes na sessão.
Como o Brasil reagiu?
A resposta do governo brasileiro veio pela via diplomática.
O Itamaraty convocou o embaixador da Argentina em Brasília para prestar esclarecimentos e chamou de volta o embaixador brasileiro em Buenos Aires para consultas, um gesto considerado de forte descontentamento nas relações entre os dois países.
O Ministério das Relações Exteriores afirmou que não há precedentes, em mais de dois séculos de relações diplomáticas entre Brasil e Argentina, para declarações desse tipo entre autoridades dos dois países.
No campo político, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, também respondeu às críticas e chamou Milei de “palhaço”, afirmando posteriormente que a declaração foi uma manifestação pessoal.

O episódio amplia a disputa política na América do Sul
O embate acontece em meio a um cenário de forte polarização política na região.
Milei tem buscado fortalecer sua liderança entre governos e movimentos de direita na América Latina e utilizou sua passagem pelo Brasil para demonstrar apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro.
Após deixar São Paulo, o presidente argentino seguiu viagem para outros países da região, mantendo a agenda de aproximação com lideranças alinhadas ao seu campo político.
Especialistas avaliam que o episódio reforça o desgaste nas relações entre Brasil e Argentina, que vivem um dos momentos mais delicados dos últimos anos no campo diplomático.
ENTENDA O CONTEXTO
A crise começou após Javier Milei participar de um evento político em São Paulo e fazer ataques ao presidente Lula e ao ministro Alexandre de Moraes. As declarações provocaram reação imediata do governo brasileiro, que adotou medidas diplomáticas consideradas duras.
Agora, a repercussão também chegou ao Congresso argentino, onde parlamentares da oposição tentam aprovar uma moção de repúdio contra o presidente. Embora a iniciativa tenha valor político, sua aprovação ainda depende da tramitação legislativa e enfrenta resistência da base governista.